15.10.14

Sanfins (Manuel Pinto dos Santos)

Sanfins
Um vareiro que deixou rasto
por onde passou!...

Revista REIS/1996
TEXTO: José Pinto

Enquanto jovem, Manuel Sanfins viveu experiências, sentiu paixões. Distribuiu simpatia, granjeou admiração e empolgou estádios em lances bem delineados, saídos de seus pés. Conheceu outros ares bem diferentes dos de Ovar, terra que foi seu berço e o embalou para o mundo do futebol, essa maravilhosa actividade desportiva que lhe proporcionou momentos fascinantes, nunca antes pensados!

Com o futebol a correr-lhe nas veias, era vê-lo, após o trabalho, a correr para o campo da Ovarense, para observar os treinos. A braços com o plantel de reservas, e sabedores do jeito que o rapaz tinha para o pontapé na bola, os responsáveis da A. D. O. hesitaram em convidá-lo para o jogo decisivo contra o Beira-Mar. Daí até chegar à equipa de honra não distou muito tempo.
Bendita a hora! No futebol viveu coisas maravilhosas e episódios fantásticos, diz-nos com alguma nostalgia. A situação estável e de desafogo em que se encontra, ao desporto-rei muito a deve.
Deixou sempre rasto por onde passou, e só quis lembrar as coisas boas que viveu. As outras, as menos boas, não têm lugar no seu álbum de recordações.

Da esquerda para a direita: Em cima - David Sanfins, Manuel Santos, Salvador,
Ratinho, Zé Manquinho, João Sanfins, Ramiro e António Pinho.
Em baixo - Jaime Tavares, Manuel Sanfins, Zeferino, Mendes e Chico Marques

Da Ovarense, recorda os companheiros desse tempo já longínquo e os dois Campeonatos da Beira Litoral que a A. D. O. conquistou.
No F. C. Porto nunca desanimou, apesar de no primeiro ano, não ter podido representar a equipa. Um desacordo de verbas com a Ovarense, impediu a Federação Portuguesa de Futebol de autorizar a transferência. Ainda assim, foi-lhe permitido realizar alguns jogos particulares pelo F. C. Porto, utilizando o nome de Freitas. Vêm-lhe então à memória os dois golos que marcou ao Real Madrid, no Estádio do Lima. De igual modo não esqueceu um golo de belo efeito ao Corunha, que daria azo a um cumprimento do guarda-redes adversário. Venceram os dois jogos, por 4-1.
Mantendo-se o impasse, a Ovarense interveio junto de seu pai, através de Francisco Marques da Silva e do Dr. Nunes da Silva, para regressar a Ovar. Tal pretensão foi concedida, com a condição de o atleta ficar totalmente livre no fim da época, para, depois, poder transitar livremente para o F. C. Porto.
A sua humildade e o seu carácter foram enaltecidos por aqueles que consigo privaram, servindo o grande clube nortenho com vontade férrea de vencer, nunca pondo obstáculos aos vários lugares em que atuou em campo por indicação técnica. É verdade que não teve o privilégio de conquistar qualquer título nacional, mas muitas foram as vitórias com a camisola azul-e-branca. O Celta de Vigo, Ferrol, Valência e Barcelona, de Espanha, o Arsenal de Londres, Old Boys e o San Lorenzo de Almagro, da Argentina, foram alguns dos adversários internacionais que conheceu em campo. Lembra ainda as digressões de carácter social que o F. C. Porto fez aos Açores e a África.
Durante a nossa conversa veio à baila a dupla que formou no F. C. do Porto com o seu conterrâneo Correia Dias – outro jogador formado na Ovarense – e os passes milimétricos saídos de seus pés, que ajudaram o “Neca” a marcar muitos golos.
Em 1951, antes de ir para África, Sanfins ainda fez meia dúzia de jogos pela Ovarense. Foi uma passagem fugaz, recendo 1000$00 por cada jogo ao serviço dos alvi-negros. O Sporting e o Belenenses, onde actuava o Capela (ex-guarda-redes da Ovarense), tentaram pôr-lhe um travão para não seguir viagem para Angola.

Da esquerda para a direita: Em cima - Virgílio, Alfredo, Pinto Vieira, Romão,
 Carvalho e Barrigana. 
Em baixo - Vital, Nelo Barros, jogador espanhol não identificado, Sanfins e Hernâni.

Contudo, e apesar das propostas tentadoras, a sua determinação não deu para arrepiar caminho. Caberia, em primeira mão, ao Lusitano de Lobito usufruir do seu concurso até ao final dessa época de 1951. Mas foi a camisola do F. C. de Luanda e a da selecção de Angola que Sanfins vestiria até ao final da sua carreira.
Um atleta tão cobiçado e de valor acima da média, era natural que fosse solicitado para dar os seus préstimos à Selecção Nacional. No entanto, os desafios internacionais a este nível não abundavam, dado que a guerra se implantou quase por toda a Europa. Sanfins recorda, porém, os treinos que fez em Lisboa para defrontar a França, jogo que, pelos motivos acima, não se realizou. A nível interno, fez parte da Selecção do Porto. Em África, representou e capitaneou a Selecção de Angola.
Jogava já a defesa central quando recebeu, por intermédio de Jorge Vieira, um convite para ingressar no Sporting C. P..
Perguntando-lhe se, terminada a carreira de futebolista, não pensou continuar ligado a este desporto, como treinador, por exemplo.
 O lugar de treinador assumi-o quando ainda jogava. Neste particular, tinha uma filosofia muito própria em termos de preparação psicológica da equipa em vésperas de grandes desafios. Em vez de a preparar no colectivo, chamava os atletas um a um, porque entendo que cada homem tem a sua maneira de agir. Evidentemente com a preparação colectiva não era descurada com uma palestra antes dos jogos, mas dava mais importância à primeira.
O futebol de hoje comparado com o do seu tempo, mereceu o seguinte comentário de Sanfins:
 Há, naturalmente, diferenças porque o futebol tem novos métodos. O tempo de preparação é mais alongado e a assistência é mais alongado e a assistência ao atleta é muito mais cuidada. São factores que pesam muito na sua evolução. Quando jogava na Ovarense treinávamos só às terças e quintas-feiras, e, quando contraíamos uma lesão durante um desafio, éramos injectados para alinhar até ao fim, pois não eram permitidas substituições. (Sanfins mostrou-nos as mazelas da sua perna esquerda, autênticos testemunhos das duras entradas dos seus adversários). No nosso tempo jogava-se com outro amor à camisola, ao contrário de hoje, em que salvo raras excepções, o aspecto financeiro é que prevalece.
 Como estamos quanto a saudades?
 Olhe, são tantas que tenho imensa pena de não ter agora vinte anos!...
 Para além do futebol, praticou mais alguma modalidade desportiva?
 O Basquetebol, na Ovarense. Mas de curta duração.
Ovar é, sem sombras de dúvidas, a sua terra mãe. A figura desportiva da “Revista Reis/1996” foi muito directa ao afirmar que “antigamente em Ovar vivia-se pior, mas muito mais alegremente”!
Sanfins é também da opinião que muita coisa mudou devido à impressionante velocidade em que o mundo marcha. Tudo entra pela nossa casa dentro sem nos apercebermos de tal.
E lá deixámos Manuel Sanfins, uma figura calma e de fino trato, que pertenceu a uma plêiade de jogadores que deixaram marcas.

FLASH
- Manuel Pinto dos Santos (Sanfins) nasceu em Ovar, a dois passos do Jardim dos Campos, na Rua Dr. Manuel Arala.
- Fez a instrução primária numa escola pertinho da casa de seus pais, na rua António Dias Simões.
- Começou a trabalhar na firma vareira F. Ramada.
- Em 1938, vestiu pela primeira vez a camisola da Ovarense, onde se manteve até 1940.
- Na época de 1941/42 regressou ao Clube, depois de um ano a treinar no F. C. Porto.
- Em 1951 regressou temporariamente à A. D. O., partindo, depois, para África.

Terminou o jogo no Campo Grande, em Lisboa. O Porto vencera o Benfica por 2-1.
Sanfins, assinalado com u x, foi um dos obreiros do resultado.

- De 1942/43 a 1950/51, representou o F. C. do Porto, depois de por lá ter passado em 41/42.
- Em Outubro de 1951 chegou a Angola, fixando-se por lá até 1975.
- Terminado o futebol em 15/07/1958, com uma festa de despedida apadrinhada pelo F. C. do Porto, dedicou-se ao ramo automóvel, actividade que já vinha exercendo.
- Regressou definitivamente a Ovar, onde fundou a Confeitaria Muxima.
- Voltou ao ramo automóvel em 1983, desta feita no Porto.
- Encontra-se presentemente na situação de aposentado e em companhia de sua esposa D. Belandina da Conceição Santos. Vive na Rua Alexandre Sá Pinto (às Ribas).


Texto publicado no n.º 30 da revista REIS/1996

ADENDA -----------------------------------------------------
Faleceu [dia 11/10/2014], aos 92 anos, Sanfins, antigo jogador do FC Porto que pertenceu à equipa vencedora da “Taça Arsenal”. (...) O antigo avançado Sanfins, de seu nome Manuel Pinto dos Santos, envergou a camisola azul e branca de 1946 a 1951. LEIA mais AQUI.

3.7.14

Manuel Freire - Uma voz que soltou a liberdade...

Manuel Freire
Revista REIS/2005
TEXTO: Manuel Catalão

Uma vez mais, e no decurso desta interminável viagem do tempo que nos propicia também períodos de descoberta, de encontros e de reencontro, buscamos no horizonte restrito do nosso espaço geográfico uma figura referencial que seja parte integrante da história colectiva do concelho de Ovar.

De Vagos a Ovar

Algures, na pacata vila de Vagos, a 25 de Abril de 1942, muito longe da hecatombe que ocorria no centro de uma Europa fustigada por sangrenta guerra, nascia Manuel Augusto Coentro de Pinho Freire, a Figura Vareira que a Revista Reis se permite aditar ao notável espólio de personalidades que, nos mais diversos âmbitos, têm enaltecido o nome de Ovar.
Três anos depois, acompanha seus pais, os saudosos Professores Freire e D. Júlia Pinho Freire, na sua deslocação para a urbe vareira, onde medrou e deu asas a uma civilizada irreverência, quase no termo da Rua Alexandre Herculano, curiosamente na casa onde, anos mais tarde, se viria a materializar o infantário "Alvorada".
Um quintal cultivado de verde, com uma levada do ingénuo Cáster lambendo as suas margens, foi palco privilegiado das saudáveis brincadeiras de uma criança feliz. Do transparente Cáster de então recorda os mergulhos a nu, espiados pelas lavadeiras que faziam do rio a sua oficina.
Iniciou e concluiu o percurso primário de escolaridade na vetusta escola da Rua da Fonte, não deixando de estar sujeito à exigente batuta e ao conhecido rigor pedagógico de seu pai, a quem acompanhou na definitiva residência na mesma rua, iniciando uma adolescência que se moldaria também entre as paredes do credenciado Externato Júlio Dinis. Ali, durante cinco anos, foi bebendo conhecimentos, ensaiando o prazer da leitura e catrapiscando algumas colegiais do vizinho Externato N.ª Srª da Esperança.
Nos espaços de lazer no então aprazível Café Parque, tornou-se um exímio praticante do "bilhar russo", tipo de entretenimento que viria a encontrar, reconvertido em mesa de serviço, num sombrio bar na longínqua e amazónica Manaus.
Regista, com saudade, entre os seus mestres, eminentes figuras do ensino vareiro, destacando o Dr. Evangelista Loureiro, que viria, anos mais tarde, a ser uma autoridade no meio universitário nacional.
Das tertúlias criadas no meio estudantil e da activa e irreverente militância dos seus curtos dezasseis anos de vida, nasceria a participação na campanha do General Humberto Delgado à Presidência da República.
Concluído o curso liceal, enraíza-se na cidade de Aveiro, como outros camaradas de percurso estudantil  e cita, de forma carinhosa, Domingos Tavares e António Fidalgo , com o intuito primeiro de preparar o ingresso no ensino superior.

Um convívio em Ovar entre amigos da Vela:
Fernando Alçada, Augusto Chaves, Manuel Freire e José Silva

Ávido de emoções fortes, rapidamente se envolve no remo, fomenta novas amizades e corporiza núcleos de contestação estudantil.
Aos fins-de-semana volvia a Ovar, dando muito de si em favor do desenvolvimento cultural, social e desportivo desenvolvido no GAV, colectividade que na verdura consciente dos seus catorze anos ajudara a fundar e onde praticou andebol e ténis de mesa. 

Elenco que levou à cena, em 9 de Janeiro de 1960, no Cine-Teatro de Ovar,
a peça "O meu caso", de José Régio. Da esquerda para a direita, todos caracterizados:

Domingos Tavares, Estela Carvalho, Augusto Chaves, Estela Tavares, Celeste Silva,
 Isabel Tavares, José Adolfo Vidal, José "Brasileiro" e Manuel Freire

Refere que o extinto campo do GAV foi construído com o suor dos seus atletas e fundadores, e que a sede social do Grupo era uma autêntica escola de formação cultural e desportiva, aí se promovendo excelentes saraus de ginástica, sessões abertas de poesia e teatro, e ciclos de cinema com a participação do mais emblemático cineasta português, Manuel de Oliveira.

Os custos de cantar a Liberdade

Mitigadas as saudades de Aveiro, corria o ano de 1962, ingressou na Faculdade de Engenharia de Coimbra, propondo-se obter o grau de Engenheiro Atómico. Vivia-se uma época de forte contestação à orientação governamental para o ensino, para a cultura e para a sociedade civil. Com a vivacidade que o caracterizava, e enquanto caloiro sujeito às praxes, inseriu-se no Orfeão Universitário e nas Tunas Académicas, dedilhador que era da viola que seu pai lhe oferecera oito anos antes. Tal condição conferia-lhe o direito a circular nas agitadas noites coimbrãs, permitindo também, e em contacto com camaradas despertos para a luta contra o despotismo e contra a ditadura, reforçar a natureza das suas convicções políticas e sociais.
Os resultados escolares não deixaram de se ressentir, ingressando, um ano depois, no Porto, em Engenharia Química, por expressa determinação de seu pai, então ainda em pleno vigor. Radicado na Cidade Invicta, partilhando um pequeno quarto com o amigo e companheiro de sempre, Domingos Tavares, Manuel Freire não deixou de continuar a ser activo militante na defesa dos seus ideais de liberdade, vindo a ser alvo de investigações diversas por parte da PIDE/DGS. Nos períodos de lazer, e sempre que solicitado pelas múltiplas Associações de Estudantes, inquietava positivamente as mentes do meio estudantil, soltando, de viva voz e ao som de suaves acordes da sua inseparável viola, os temas com que esbarrava, algures, em momentos de reflectida e profunda leitura.
De forma compulsiva  desfilavam vinte e duas primaveras , foi convocado para se apresentar em Mafra, a fim de cumprir o serviço militar obrigatório, não abdicando, ainda assim, de efectuar esporádicas actuações para a rádio e para a plateia militar. Após oito meses de dura instrução, é transferido, por sorteio, para a Força Aérea, ocupando vinte e oito meses numa causa que não aplaudia de forma particular, nas bases da Ota e Monsanto. Era o tempo do "Praça da Canção", livro da autoria de Manuel Alegre, que viria a marcar grande parte da geração de jovens portugueses na década de sessenta, fosse na contestação estudantil, fosse na contestação à guerra que grassava nas ex-colónias africanas.
Foi neste tempo, ainda sob tutela militar, que Manuel Freire conheceu Vitorino, outra figura carismática de intervenção através do canto, vindo ambos a expressar a força da sua mensagem de liberdade num restaurante alfacinha, propriedade das actrizes Maria do Céu Guerra e Laura Soveral.

O mercado de trabalho e a "Pedra Filosofal"

A força do tempo, que não pára, acabaria por devorar a pessoa que lhe transmitiu a força e o vigor das suas crenças: seu pai, figura de proa do ensino primário vareiro.
Deste passamento  estava ainda Manuel Freire no cumprimento do dever "cívico"  decorreu a necessidade, por imperativos familiares e financeiros, de abandonar os estudos e recorrer ao mercado de trabalho, até porque viria a criar novos encargos com a contracção de matrimónio, do qual viriam a nascer três magníficos rebentos.
Ingressou na F. Ramada, na área da Informática, então em embrião, mais propriamente na mecanografia. Curioso e provido de inteligência emocional própria dos vencedores não acomodados, evoluiu na carreira até atingir o topo da mesma, numa fase mais avançada das Tecnologias de Informação. Passaria ainda pela Direcção dos Departamentos Comerciais e de Formação.
Em paralelo, jamais deixou de se pautar pelo estrito respeito às convicções que antes solidificara pela acção, vindo a ser elemento activo na organização dos Congressos de Oposição Democrática de Aveiro, que precederam as eleições para a Presidência da República de 1969 e 1973. Recorda, com alegria e saudade, as reuniões clandestinas de preparação realizadas no ateliê do conceituado artista vareiro Luís Ferreira de Matos.
Era um tempo diferente, um tempo de luta, de dedicação a uma causa que importava vencer, a um povo que precisava de se libertar. A sua arma era a voz e a viola, a sua presença era o tónico de viragem para uma juventude que, finalmente, tomava consciência da necessidade de ganhar um futuro semelhante ao que floria por essa Europa fora! Indiferente aos riscos, corria o País cantando Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, participava em inúmeras acções de índole sindical, cultural e estudantil, e editava o seu primeiro disco, com quatro temas, ressaltando o famoso "Livre" (Não há machado que corte a raiz ao pensamento, porque é livre como o vento...), corria o ano de 1968!
O fervor das suas intervenções e a classe da sua condição de cantador da liberdade conduziram-no à participação, no ano de 1969, com a celebrada "Pedra Filosofal", no saudoso programa de entretenimento televisivo "Zip Zip". Foi a rampa de lançamento nacional de Manuel Freire, que passou, a partir daí, a ter mais ampla intervenção no panorama artístico nacional, musicando poemas de conceituados poetas da resistência (António Gedeão, José Gomes Ferreira, Assis Pacheco, Sidónio Muralha e José Saramago...).
Tal facto permitiu-lhe actuar em núcleos de emigração dispersos pela França, Bélgica e Alemanha, aproximando-o de resistentes exilados que igualmente faziam da voz a arma de arremesso à ditadura reinante no seu país natal.

O que pensa de Ovar um sonhador de Abril

O seu trigésimo segundo aniversário trouxe-lhe de prenda a liberdade de um País até aí amordaçado, bem sublinhada pelo abraço de parabéns formulado por seu irmão mais velho, Aníbal Freire, precisamente um dos Generais de Abril.

Manuel Freire cantando Abril em Ovar

E o Manuel Freire sorridente e sério, bonacheirão e amante do bom que, à data, ascende à Câmara Municipal de Ovar na qualidade de vogal da Comissão Administrativa que tomou a gestão da mesma. Foram dezoito meses de dedicação nobre à sua terra. Recorda desse tempo a absoluta e inimaginável ausência de meios materiais para fazer algo pelas gentes mais desfavorecidas da nossa comunidade. Ainda assim, foi possível dotar o então marginal Poço de Baixo com saneamento básico e abastecimento de água, e erguer o bem conseguido projecto SAAL.
Circunstâncias de natureza pessoal transportaram Manuel Freire para outras paragens, mais exactamente a Marinha Grande, onde colaborou numa das grandes empresas industriais no desenvolvido distrito de Leiria.
Não sendo uma aposta feliz, continuou a actuar e a sobreviver, fazendo o que gosta, até que, em condições particularmente adversas, foi conduzido, por eleição, a Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, cargo que ainda exerce.
Um tanto afastado em termos geográficos, não se escusa a tecer alguns comentários à Ovar deste século, reiterando o seu mais profundo agrado e respeito pela tradição reiseira, invocando, mesmo, o facto de haver sido a Troupe de Reis do GAV a primeira de natureza mista, ainda que não tenha ido de dois escassos anos de actividade.

Apesar de residir longe, Manuel Freire não deixa de estar presente em momentos
significativos da sua Ovar. (Na foto, com o Pároco Manuel Pires Bastos)

Manifesta saudades do Carnaval dos anos de ouro, do corso não excessivamente materializado – foi mesmo um dos fundadores de um dos primeiros grupos carnavalescos, mais exactamente os “Hippies", corria o ano de 1968 , da alegria esfuziante dos Bailes Carnavalescos que ocorriam, sucessivamente, no Café Progresso, no Cine-Teatro e nos Irmãos Unidos! (A propósito de bailes, mas de outra natureza, já mais para o artístico, saiba-se que o Manuel Freire, sob aquele corpo ainda não tão rechonchudo, era um exímio dançarino, espraiando, em acérrima competição, a sua arte pelos salões do desaparecido Hotel Mar e Sol (no Furadouro) e da Assembleia da Torreira, assim enriquecendo, com algumas medalhas e taças, o seu espólio de desportista.)
Amante, desde tenra idade, da prática da vela, lamenta a crescente degradação da Ria, ainda que a continue a admirar pelas potencialidades que encerra.
Não resiste a comparar a degradação da Praia do Furadouro (agora pior do que aquela que ele conheceu e viveu) com a preservação do espaço nobre e intrínseco de S. Pedro de Muel (praia que frequenta de forma mais assídua).
Lamenta a inexistência de um espaço cultural propício a manifestações de maior vulto em Ovar, reforçando a extrema necessidade de que a cidade venha, a curto trecho, a dispor de tal espaço.
Não deixa de manifestar o seu profundo agrado  ele, acrescentamos nós, que é homem das artes e administrador da SPA  por, em muitos locais onde tem estado presente, ouvir referências elogiosas à actividade cultural e social da nossa Biblioteca.
Este é, de facto, um breve esboço sobre um homem que sabe que "o sonho comanda a vida" e que, porque sempre desperto para o sonho, contribuiu decididamente para o desenvolvimento do homem como cidadão, e da sua Ovar, terra que em menino o acolheu e lhe deu oportunidade de fazer grandes amigos.
Bonacheirão  já o referimos , sorridente e sério, sonhador de sempre e para sempre, mas também um homem a quem Ovar muito deve, ele fará, por direito próprio, parte da história rica da cidade que todos nós forjamos.

Manuel Freire  Uma contagiante boa disposição

Falar de Manel Freire é relembrar o GAV, as patuscadas, os bailes de Carnaval, o teatro, a Comissão Administrativa da Câmara, as lutas da oposição democrática, os serões a ouvir as baladas, e muito mais.
Para o público em geral ele é justamente conhecido como o trovador de Abril, o cantor das baladas da liberdade, que musicou os poemas de Manuel Alegre e que se notabilizou com a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão.
Ovar conhece-o também pela sua ligação ao associativismo do GAV, pelas baladas cantadas nos comícios de "Oposição Democrática" e pela sua contribuição como elemento da Comissão Administrativa que geriu a Câmara logo após o 25 de Abril.
Os amigos preferem recordar os bons momentos das patuscadas, onde o Manel quase sempre se notabiliza por uma contagiante e exuberante boa disposição, com gargalhadas de gosto e trocadilhos divertidos, mas onde, de longe em longe, também é capaz de pôr tudo do avesso, com um acesso de mau humor! Uma coisa é certa: com a sua fortíssima personalidade, nunca passa despercebido.
É muito justa esta homenagem que a Revista Reis lhe presta.
Augusto Arala Chaves
2004-12-16
               
Amigo Manel – “O sonho comanda a vida"

 Nasceste em Vagos, mas "sonhaste" viver em Ovar... e conseguiste.
 Cresceste na Rua Dr. José Falcão e "sonhaste" ser meu amigo... e isso resultou.
 Estudaste no Colégio Júlio Dinis e "sonhaste" catrapiscar as miúdas do Colégio Nossa Senhora da Esperança (D. Helena)... e elas que o digam.
 Mudaste-te para o Liceu de Aveiro, fizeste lá muitos amigos(as) e "sonhaste" actuar na récita dos finalistas…, e, mas que grande show rock (era o princípio).
 Foste para a Universidade de Coimbra onde "sonhaste" ser engenheiro... isso não passou de um pesadelo (a vida não são só sonhos).
 Passaste pela tropa e "sonhaste"... não importa, viva a "Praça da Canção" (conta-lhes).
 Continuaste a compor e "sonhaste" ir ao Zip Zip... e aí surgiu uma das mais belas canções de sempre - a "Pedra Filosofal" (parabéns também ao António Gedeão).
 Com muitos amigos, qual formiguinhas, "sonhámos" mudar o mundo e principalmente o País… e felizmente aconteceu o 25 de Abril.
 Com os teus heróis e super-heróis "sonhaste" fazer a 1.ª exposição de Banda Desenhada num museu em Portugal... e o sucesso realizou-se no Museu de Ovar em 1977 (diz-lhes que a BD também é cultura).
 Para a cultura e com outros cooperantes "sonhaste" com o jornal "Terras do Var" e Cooperativa Sem Margem... e durante 10 anos foi pedrada no charco.
 Depois a cantar avançaste "sonhando, sonhando"... e nós na plateia fomos acompanhando.
 Agora com outros amigos "sonhaste" endireitar a Sociedade Portuguesa de Autores, mas… que todos os deuses te ajudem.
 A pedido doutros amigos, eu também "sonhei" fazer uma ligeira autobiografia tua... mas "o mundo pula e avança"

Um abraço de "sonho"
António Fidalgo
Dezembro 2004

Texto publicado no n.º 39 da revista REIS/2005

4.4.14

Maceda – A nossa praia

Pormenor de um mapa de Portugal de 1870.
Em cima: Palheiros de Cortegaça e Maceda.
Revista REIS/2008
TEXTO: Álvaro Ribeiro

Um mapa de Portugal de 1870 mostra-nos a Nossa Costa desde, sensivelmente, as fraldas do Buçaco até à Granja. (Da massa de água antes existente, sobreviveram a Ria e a Barrinha). Essa nossa costa, maninha e deserta, começa a ser explorada nos primórdios do séc. XVII. Enxugados os pântanos, abertos o Regueirão e a Vala de Maceda, desviados os cursos do Lourido e da Ribeira de Cortegaça, encaminhados para a Barrinha de Esmoriz, tornaram-se os seus areais e dunas em baldios onde nidificavam aves, procriavam animais selvagens e cresciam colmos e camarinheiras, onde os Senhores da Feira praticavam a caça e as gentes de Maceda iam buscar colmos para cobrir casas e aidos e, mais tarde, as mulheres apanhavam camarinhas que vendiam em feiras e romarias.
Arroteadas novas terras, voltam-se os homens para o mar. Assim surgem os palheiros de Cortegaça e Maceda, aí bem perto da Barrinha. E com os palheiros, as Companhas: as da Vaca, de S. Pedro e de S. Geraldo. E os interesses manifestos: “Maceda nunca teve praia” (Cabido da Sé do Porto e Comenda de Malta); e Cortegaça ao lado do Cabido: “nós partimos com Ovar”… E questões judiciais…, e mais de um século de demandas (… ora ganhas tu, ora ganho eu…)! Um nunca acabar até ao século XX, em que as areias dão lugar à floresta.
Aberta a estrada desde a casa florestal de Maceda até ao Furadouro, abrem os macedenses a estrada dos Atoleiros até à via-férrea, e daí a citada casa florestal, e conseguem do Ministério da Agricultura autorização para a ligação à praia, com a ajuda do Povo, ao lado da sua Junta. Estrada aberta, ecoou por Maceda o grito da alegria: - “Já temos a nossa praia!”. Cortegaça, como sempre, a contestar.
Até que vem a NATO… A estrada recta é substituída por uma grande curva, e Cortegaça passa a chamar “seu” ao Aeroporto! E a praia? Um grupo bem intencionado, infelizmente liderado por pessoas de fora de Maceda mas aqui residentes, conseguiu a criação de uma praia muito a sul da nossa verdadeira praia, oferecendo, de mão beijada, uma outra praia à sua terra natal. (Ainda hoje estão por cumprir as condições impostas pelo Decreto de 1966 quanto às verdadeiras demarcações entre Maceda e Cortegaça, bem como entre Maceda e Arada…)

“Maceda nunca teve praia?”

Teve-a sempre ao primeiro quartel do séc. XX, como a teve Cortegaça, na Nossa Costa, onde tinham os seus palheiros (veja-se o mapa anexo) e onde os seus habitantes exerciam a faina marítima. A Costa era de todos, e todos nela exerciam a sua actividade. Maceda não o fazia na “Sua Costa”, porque esta era alta. Havia aí o Monte Negro (Monte da Solha), que abrigava uma alta riba, de difícil acesso ao mar, e onde era impossível deixar barcos e redes quando em terra, sujeitos às marés. (Daí a procura do espraiado da Barrinha, em que a segurança era total). Monte Negro! No ano 50 do séc. passado ainda lá estive com outros estudantes, entre eles o Dr. Malícia, nos restos da sua fralda nascente, com o mar aos nossos pés. (Foi a época do grito de “Pedra mais pedra!” para o Furadouro, anos depois, para Esmoriz e Cortegaça, e agora propagado como solução única, para justificar a cupidez e a imprudência que imperaram (e ainda imperam) a caminho de tragédias previsíveis e inevitáveis.
Em recente visita à Nossa Costa, o Ministro do Ambiente prometeu a defesa de terras consideradas de “Países Baixos”, e afirmou acerca de Maceda: – “Aqui o problema não é o de o mar subir; é, sim, o de os veraneantes descerem! Até que enfim! Tarde, embora, reconheceu-se o porquê de os habitantes de Maceda irem para a costa de Esmoriz.
Entretanto, o mar, lá vai continuando a ocupar o espaço que foi seu. Nunca posso esquecer o que diziam os nossos antepassados: “O mar ainda há-de chegar ao lugar donde recuou: o Alto dos Dezassete”.

Texto publicado no n.º 42 da revista REIS/2008
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2014/04/maceda-nossa-praia.html

29.3.14

Carlos Sousa Nunes da Silva – O Homem e o Presidente

Carlos Sousa Nunes da Silva
Revista REIS/1991
TEXTO: Maria Luísa Resende

Falar de um homem, raras vezes faz evocar tão vivamente uma terra, como é o caso presente.
Carlos Nunes da Silva, é o nome de prestígio de um grande presidente da Câmara de Ovar.
Temos, sem dúvida, de situá-lo num contexto social e político diverso o que, a nosso ver, não lhe retira qualquer mérito.
Equidistante das opções partidárias, a revista Reis escolheu-o para este número especial da sua publicação:
– como quem preza o desejo determinado de mudar;
– como homenagem à terra que ele e a revista se propuseram servir, de maneiras distintas.

Para um retrato breve

Nasceu em 10 de Outubro de 1921, na casa número 48 da rua Alexandre Sá Pinto, em Ovar.
Dos pais, Ester Augusta de Sousa Nunes da Silva, lembra especialmente o modelo da figura paterna, tão grata para os vareiros.
“... Dele ficou-me a imagem do homem sempre disponível, da campainha ou do telefone sempre a tocarem a qualquer hora do dia ou da noite. Da alegria em ser útil na certeza de que estava a cumprir o seu dever como médico e como homem. Foi um homem bom! O meu pai é um exemplo para mim: de virtudes, de dedicação, de solidariedade!”
Da memória da infância, o Natal e a sua festa da Família, são um marco indelével.
Da juventude, recorda com saudade a época balnear do Furadouro e as reuniões festivas na “Assembleia”.
Quanto às más recordações desse tempo, é sincero: “Não gostei nada de reprovar no 3.º ano do liceu. Foi mau, mesmo mau!”
Frequentou o 1.º ano da Faculdade de Ciências do Porto.
É casado com a senhora D. Cecília Cândida da Silva Pereira Maia Nunes.
Apreciador das obras de Júlio Dinis, de Eça de Queirós, de Agustina Bessa-Luís e também de alguma literatura policial “para ultrapassar o stress”. Aprecia a música clássica. No desporto bato-me pela Ovarense porque ser de Ovar é ser Ovarense. E, agora, com as nossas equipas de basquetebol e de futebol, somos falados…
Também “pago” quotas ao Benfica. No atletismo só posso ser pelo Maratona Clube de Portugal.
No período anterior aos cargos que assumiu, esteve ligado ao comércio de lanifícios num armazém de Ovar, apreciado pela alta qualidade e nouvel cri dos artigos. Lembra as suas primeiras encomendas na Covilhã “quando ainda não existia a IP-5”! E, de relance, retrata o País e o princípio da sua carreira combativa no sector profissional: “As dificuldades, nesse tempo, eram muitas. O País era, por excelência, um país rural a começar a industrializar-se. Faltava muita coisa. Havia muitas restrições… Mas sonhávamos com um futuro diferente!”
Geralmente, é nos períodos difíceis que alguns estruturam uma personalidade de vitoriosos porque os escolhos os incentivam a procurar alternativas mais consonantes com as capacidades.
Este tempo, por certo, não lhe foi alheio na formação da vontade, na visão global e concreta das circunstâncias no trato afável com todas as pessoas sem deixar a distuição sóbria peculiar.

Um executivo que mudou Ovar

A partir daí, percorreu um longo percurso de intervenção social e política.
Foi director dos Serviços Municipalizados da Eletricidade; presidente da Câmara Municipal de Ovar, de 7/10/1959 até 1967; vice-presidente da Junta Distrital de Aveiro; Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Ovar; Deputado à Assembleia da República e, finalmente vereador da CMO.
Mas é, sobretudo, como presidente da Câmara de Ovar que é recordado!
Pelas realizações fecundas. Pela tenacidade com que se impunha nos gabinetes do governo central. Pelo dinamismo arrojado. Pela maneira direta como se dirigia aos munícipes para reunir esforços e levar por diante tarefas necessárias ao concelho. Pela escolha inteligente de uma equipa de colaboradores competentes a quem exigia o melhor dos seus esforços.
Citemos a propósito, o seu depoimento:
“A esta distância do final do meu mandato – já lá vão 23 anos – é difícil mencionar as obras realizadas no concelho e dizer quais as que considero mais relevantes.
Indico algumas, tais como, águas e saneamentos que já estavam iniciadas no mandato do Dr. José Eduardo de Sousa Lamy; a criação da Escola Industrial; a abertura de novas avenidas no centro da cidade; a adaptação do edifício do Quartel a escola primária (oito salas de aula); o início da defesa da orla marítima; a construção da Ponte João de Pinho; as infraestruturas para águas pluviais;  o levantamento aerofotogramétrico da zona norte do concelho; a beneficiação das instalações da Câmara Municipal, por virtude da saída do Tribunal; a estação dos CTT junto ao parque; a renovação dos jardins e arborização; a reposição dos pavimentos das ruas e calcetamento dos passeios; a valorização do Areinho com o aumento da praia e construção da “ilha” onde, posteriormente, foi construído o restaurante; a electrificação de grande parte do concelho; iluminação pública em lâmpadas fluorescentes em Ovar, Areinho, estrada do Furadouro, Praia e estrada 109, em Esmoriz, Cortegaça e Maceda; a construção do Hospital e do Tribunal - obras que se devem ao interesse junto das instâncias superiores pelo então deputado Dr. Manuel Tarujo de Almeida, mais tarde Sub-Secretário do Orçamento; a urbanização da zona envolvente do Tribunal e Câmara Municipal; o arranjo urbanístico do adro da nossa Igreja Matriz; o prolongamento da avenida central do Furadouro com a criação da rotunda existente e abertura do acesso norte; em colaboração com a Junta de Freguesia, foi feita a esplanada, a avenida marginal e sua electrificação. Foram ainda iniciadas:  a estação de tratamento de esgotos e a construção do restaurante Vela-Areinho.
Menciona também o muito que não conseguiu fazer e que deixou em projectos (alguns comparticipados): água e saneamento no Furadouro, passagens superior e inferior no C. F., ligação da variante norte ao centro da Vila (actual Av. Sá Carneiro), urbanização norte do Furadouro (plano do Arq.º Gigante), prolongamento da avenida central do Furadouro até ao Alto Saboga, piscinas, redes de águas e esgotos para Esmoriz e Cortegaça, habitação social no concelho, posto da PSP.

«Assumo os erros, mas também assumo as obras!»

– Ao legislarem, recentemente, os despedimentos por falta de adequação às novas tarefas, o processo não parecerá, hoje, tão insólito. Mas, na altura, as substituições de pessoal pareceram a muitos decisões arbitrárias. Como avalia à distância essas atitudes?
– Primeiro que tudo, importa dizer que quando cheguei à Câmara me vi confrontado com a necessidade de concluir obras em concurso e iniciar as que já estavam adjudicadas e comparticipadas.
Depois, tive que reorganizar os serviços, criando novas secções para responderem às novas exigências de uma comunidade em transformação. Como sempre, a transformação provoca, por vezes, e até injustamente, incompreensões. Mas o tempo, aquele tempo, era tempo de organizar. E sem organização não havia planeamento e não se teriam realizado aquelas obras que mudaram, nesse tempo, Ovar e que indicavam a futura cidade. A história da nossa terra vai-me dando razão! A mim, à vereação da altura e aos serviços camarários. Formámos uma equipa que, digo-o com gosto, mudou Ovar!
Ao perguntarmos quais os erros que evitaria hoje, considera que os erros são consequências das realizações. Só os homens calados, como Pacheco, não erram!
"Assumo os erros, mas também tenho que assumir as obras.
E é do confronto, que se pesam os erros..."
Radicado, há anos, em Lisboa, por exigência profissional, defendeu os interesses do concelho como deputado na Assembleia da República.
Voltou a candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Ovar, em 1986, pelo CDS, sem obter vitória eleitoral.
Actualmente retirado da vida política, considerar-se-á um homem realizado ou desencantado? No seu percurso de maturidade, feito de experiências tão diversas e algumas tão notáveis, que balanço e que avaliação faz a si próprio?
A resposta veio do jeito conciso e denso com que a transcrevemos:
– "A vida é uma contínua realização. Assim a entendo e assim a assumo.
A análise própria é sempre desconcertante e parcial.

Texto publicado no n.º 25 da revista REIS/1991
Edição da Trupe JOC/LOC

16.11.13

Alberto de Sousa Lamy – O homem, o advogado, o escritor

Revista REIS/1992
TEXTO: Maria Luísa Resende

Uma obra que faz história dentro da história desta terra

Dr. Alberto Sousa Lamy
A desfiar épocas, figuras e locais da pequena história vareira, é como se reunisse numa só trama os fios quase imperceptíveis dos tempos dispersos de Ovar a fazer-se: primeiro, menina da gelfa, depois, terra crescida de sabor salgado e de gente a crescer com ela nas lutas pela vida e pelos ideais que a norteiam ao longo dos séculos.
Como um pintor, usa as palavras para retratar a terra com os matizes das épocas e dos seus eventos. Em pormenores esmiuçados, com a obsessão do rigor, como convém a quem escreve coisas da história!
Novembro, 1991. Numa tarde pardacenta, encontrámo-nos com o dr. ALBERTO DE SOUSA LAMY no seu escritório, situado no largo da Família Soares Pinto.
Um advogado que se dedica à história! Eis um tema aliciante para a revista Reis deste ano.
Quisemos saber mais...
Melhor! Quisemos saber demais: quais as facetas menos conhecidas do homem e do escritor que Ovar tanto preza.
Abriu-nos a porta com a afabilidade habitual.
E entrámos pela sua vida, atentos aos traços das ideias e ao conteúdo das palavras que esboçam aquele que, sendo advogado, acabou por ser mais conhecido como historiador de Ovar.

Raízes de um nome... Traços da infância

Antiga casa - Chalet do Matos, no Furadouro, onde o
Dr. Alberto Lamy passou muitas das suas férias de estudante
Nasceu em Ovar, a 19 de Novembro de 1934, na Rua Coronel Galhardo.
Do pai (dr. José Eduardo de Sousa Lamy) e do avô paterno não herdou o gosto pela medicina. Nem tão pouco pelo ramo farmacêutico das gerações do bisavô e do trisavô, que perdura na família com a farmácia do mesmo apelido.
As raízes do nome de família são explicadas por um casamento, celebrado em 1813, e que uniu os Sousa de Ovar com a tetravó materna dos Lamy, do Porto.
História familiar, entrelaçada, entretanto com os Matos e os Fragateiros.
Crescido numa família burguesa e católica sem excessos, recorda as férias da infância passadas na quinta da avó paterna, em Guilhabreu (Vila do Conde) e no chalet Matos que o mar levaria da praia do Furadouro.
Lembra os antigos mestres: a dona Celeste Carvalho, mestra de meninos; o professor Baptista, da escola primária do Conde Ferreira e, no Colégio Júlio Dinis, os professores Ricardo Araújo, o padre Torres, a dona Clara Medeiros, o próprio Pai... Também alguns colegas foram lembrados... o Aníbal Freire, os irmãos Resende, o José Castro, o Mário Laranjeira, o Albino Nata, o Norberto Andrade, o Hugo Colares Pinto, o Luís Oliveira Dias, o Eugénio Vinagre, o Domingos Rocha, e outros.

O modelo dos tios na escolha da advocacia

Foi o declaro horror às disciplinas de Ciências, nomeadamente a Matemática, que o fez optar pelas Letras.
Viria, então, a decidir-se pela advocacia, por influência da mãe, ao citar-lhe os exemplos dos tios, os doutores Francisco Fragateiro e Albino Borges de Pinho. Na casa deste último, em Lisboa, cedo começou a conviver com gente de cultura e prestígio: "... Marcelo Caetano, a quem a minha tia cosia os botões dos fatos; jornalistas; advogados; bispos como o D. António de Vila Real, Monsenhor Miguel de Oliveira e muitos outros."
Fez o 6.º e o 7.º anos no Liceu de Aveiro, com colegas com quem manteve amizade perdurável: Carlos Candal, Sebastião Marques Dias, os Cristos, Horácio Marçal, o Sardo, e tantos mais. No curso de Direito (1953/58), na Universidade de Coimbra, teve mestres notáveis e foi condiscípulo de Carlos Mota Pinto.
Advoga em Ovar desde 1960, após o estágio com o dr. António Santiago, no tribunal local. Por circunstâncias inesperadas, cedo se tornou substituto do juiz, aparecendo na Ordem como o estagiário com maior número de julgamentos efectuados.
Manifesta preferência pelo Direito Civil e pelos Direitos Comercial e Criminal.
De trato afável, é um cultor das relações amistosas. "Julgo que, com os meus colegas mais velhos, os doutores Avelino Duarte, Eduardo e Augusto Chaves e Porfírio Brandão, conseguimos, nesta Comarca de Ovar, um grande espírito de convivência que a toma única entre as comarcas do país".
Em 1963, casou com Rosa Maria Lemos da Veiga Gil Carneiro, natural de Refojos, em Santo Tirso, e lá conserva o seu retiro para os fins de semana.

"Apesar dos convites, nem chegou a provar o vício da política"

– Como compatibiliza as duas ocupações conhecidas - a de causídico e a de escritor?
Escrever nunca me afectou a vida profissional, nem a vida familiar e social, nem os meus prazeres de viajar e ler. Isto porque me afastei e nem cheguei a provar o vício da política.
– O que o levou a essa rejeição?
Nunca me senti atraído pelo antigo regime. O meu Pai saiu da presidência da Câmara incompatibilizado com a política. O meu tio dr. Fragateiro, teve o escritório e a residência alvejados a tiro.
E, acrescentamos nós, seu primo, o saudoso dr. José Macedo Fragateiro, a quem o uniram "relações de amizade, o gosto pelos livros e a admiração pela sua luta pelos ideais da liberdade e da democracia", viu-se atribulado por causa desses mesmos.
O afastamento da cena política, porém, não o votou ao ostracismo dos conterrâneos nem de personalidades de vulto.
Assim, foi sucessivamente convidado para se candidatar à presidência da Câmara, para a direcção da A. D. O. e de diversos organismos sociais e culturais, antes e depois do 25 de Abril.
Se tivesse aceite qualquer delas, a uma seguir-se-iam outras, como aconteceu com o meu Pai, ao sr. Coentro de Pinho, ao dr. Raimundo Rodrigues e, agora, ao dr. Oliveira Dias... E lá se ia o tempo para escrever!
Continuou a resistir aos convites político-partidários para a fundação local do PS e do PSD. Em Novembro de 1974, quase quebrou esta sua regra com as conferências, realizadas no seu escritório, para a fundação do PPD concelhio, juntamente com o dr. Mário Cunha e o dr. Pereira. O projecto só não avançou por indisponibilidade do entrevistado e do dr. Mário.
Outros convites: em Janeiro de 1985, Mota Pinto convidou-o a ingressar no PSD, novamente com vista às eleições autárquicas; em Dezembro de 1985, solicitam-no para mandatário concelhio do dr. Mário Soares à Presidência da República e, em Dezembro de 1990, para mandatário concelhio do dr. Basílio Horta.
– O afastamento político leva, assim, a convites originais, caricatos e alguns sem qualquer sentido... Outras vezes, revelam grande amizade. Mas nunca fui nem poderia ser ferrenho na política, como no desporto. Quando visse que o partido agia mal, tinha de o afirmar.

Nas comemorações da elevação de Ovar a cidade (25/07/1984), o Dr. Alberto Lamy recebe
das mãos do Presidente da República, General Ramalho Eanes, a Medalha de Mérito Municipal

Hoje, com a visão global que tem e com a tolerância que lhe é característica, sente-se incapaz de qualquer filiação partidária... "PREZO MUITO A MINHA LIBERDADE... E TER TEMPO PARA FAZER O QUE MAIS GOSTO".
Todavia, não se trata de um misantropo que se aparta de responsabilidades que exijam peito, pois tem desempenhado altas funções na advocacia: concorreu às eleições para a Ordem dos Advogados e foi eleito vogal para o seu Conselho Geral (1980/83). É actualmente, vogal do Conselho Superior da Ordem (1990/92).

... "Contribuí mais para Ovar com os meus escritos"

O decurso da entrevista conduziu-nos, inevitavelmente, para a sua faceta de escritor. Não sendo diplomado em História é, como se sabe, um conceituado escritor e conferencista de temas desta área. Como aconteceu?
A influência do ambiente familiar é evidente no desabrochar desta apetência. Os episódios que a mãe lhe contava sobre a política vareira, o sofrimento de familiares e a experiência política do pai, tocaram-no profundamente.
Alicerça este trabalho no método, na perseverança na recolha de elementos em fontes idóneas de investigação: Nas bibliotecas do Porto, de Aveiro, de Lisboa e do próprio Tribunal; nos arquivos do Registo Civil e Predial e no da Câmara Municipal... E ler, ler muitos jornais e livros sobre Ovar... Anotar, interpretar e inferir para compreender os factos.
Confessa preferir o trabalho de pesquisa documental do que cingir-se a provas testemunhais falíveis. E que uma hora de trabalho diário é um método de disciplina intelectual sem a qual nenhuma obra escrita seria por si conseguida.
O período das lutas liberais, os últimos anos da Monarquia e a 1.ª República, a luta entre aralistas e progressistas, fascinam-no. Quanto aos protagonistas conterrâneos que mais admira, cita: o Visconde de Ovar, o Marechal Zagalo, o dr. Manuel Arala, o dr. Francisco Fragateiro e o dr. Pedro Chaves.
De tão vasta obra publicada, é-lhe mais gratificante a Monografia de Ovar, em especial até ao 28 de Maio.
Ficámos a saber que, começada em 1967, levou dez anos a ser compilada, escrita e, a seguir, actualizada e corrigida. E que, inicialmente, pensou chamar-lhe "História Política da Vila de Ovar".

Banda Desenhada
– A maior Biblioteca do País

Apesar de tão vasta actividade, os seus tempos de lazer têm outros atractivos: a natação, a filatelia (continuar a colecção de selos do pai); a leitura de biografias, memórias, ensaios, teatro, monografias, livros de viagens. E um surpreendente interesse pelo romance policial e por banda desenhada, de que possui a maior biblioteca do país, com as maiores obras da literatura mundial sobre grandes figuras das Artes e da História.
É também um apreciador de desportos de "vista" e, como tal, foi fã da antiga A. D. O. e um seguidor dedicado da Académica.
Perante uma personalidade tão abrangente, a que não falta um subtil espírito de humor, perguntámos quais os valores que mais preza em si próprio e nos outros.
– O que mais aprecio são a honestidade e a tolerância!
Gosta da vida de família, da advocacia, de ler e escrever, de viajar e conviver... E, deste modo, preenche de sentido – e a seu modo – o seu ciclo de tempo.
Que mais resta dizer?
Que é senhor de uma obra que faz história dentro da própria história desta terra!
Ovar (re)conhece-o.
Mas quase podemos afirmar que é o dr. ALBERTO DE SOUSA LAMY quem melhor
conhece Ovar.

É autor das seguintes obras:
Monografia de Ovar, 2 volumes, 1977; Centenário da Imprensa Ovarense, 1883-1983; A Ordem dos Advogados Portugueses, 1984; História da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, 1984; Advogados Elogio e Crítica, 1984: Monografia de Refojos, Freguesia do Concelho de Santo Tirso, 1987; O Visconde de Ovar (1782-1856), 1987; A primeira História da Academia de Coimbra (1537 a 1990).
Tem em publicação: Crónicas Vareiras, Datas da História de Ovar e Dicionário da História de Ovar.


Texto publicado no n.º 26 da revista REIS/1992
Edição da Trupe JOC/LOC 

17.10.13

Uma curiosidade Bibliográfica – Uma Fábrica de chapéus

Revista REIS/1996
TEXTO: Guilherme G. de Oliveira Santos

João Rodrigues de Oliveira Santos
Possuo um folheto de 34 páginas intitulado: Causa Comercial/A./José Rodrigues d`Almeida/de/Boialvo d`Annadia/RR./Santos & Irmão/de S. Vicente de Pereira. (Sem lugar nem data, mas, presumivelmente, de 1876, e impresso em Ovar).
Como reza o título, o opúsculo respeita a uma ação movida por José Rodrigues d’Almeida contra Santos & Irmão, que era a firma de chapéus fundada em S. Vicente, em mil oitocentos e setenta e picos, por meu avô João Rodrigues de Oliveira Santos e de que era sócio seu irmão António. (A sociedade, diga-se de passagem, foi dissolvida em 31de Dezembro de 1876, e António regressou ao Brasil.)
O processo terminou por sentença arbitral proferida a 9 de Agosto de 1876 que condenou os réus a pagarem ao Almeida a quantia de 4$340 réis, que, aliás, eles réus confessaram dever “por carta de 19 de Julho de 1874”, e não a importância de 250$455 réis que o autor pedia.
O folheto é raríssimo, e talvez não exista outro exemplar, pois é provável que nem sequer tivesse entrado no mercado.
Casa da família Oliveira Santos, no Lugar da Torre,
S. Vicente Pereira, em frente da qual se situava
a Fábrica de Chapéus
Mas, afinal, que fábrica era esta?
Transcrevo o seguinte trecho da monografia sobre Souto, S. Vicente de Pereira e S. Martinho da Gândara, do saudoso Padre Oliveira Pinto:
Houve nesta freguesia uma outra empresa de grande vulto, que os azares do Comércio fizeram malograr a fábrica de chapéus da firma Santos & Irmão.
 Dela restam, no lugar da Torre, o edifício principal, bastante danificado, e a altíssima chaminé, que é uma espécie de ex-libris da freguesia.
João e António Rodrigues d`Oliveira Santos, que emigraram para Brasil muitos novos, angariaram ali boas fortunas.
A fábrica, principiada em Abril de 1872, começou a laborar em Agosto do ano seguinte. Era, no género, a mais importante do país e uma das melhores da Europa.
Uma máquina a vapor, da força de 30 cavalos, movia 36 maquinismos, em que se empregavam, de início, 90 operários, cujo número devia elevar-se a, pelo menos, 150. A capacidade produtiva era de 1200 chapéus por dia, todavia nunca ultrapassou, por falta de colocação no mercado, 3000 a 4000 por mês.
 A máquina era alimentada a lenha e carvão de pedra, que vinha de Inglaterra para Aveiro, donde era transportado em barcos para a Ribeira d`Ovar. A matéria-prima eram lãs nacionais e estrangeiras e pelos de coelho e lebre.
Cruzeiro de 1668, da antiga Igreja
de S. Vicente de Pereira
A excelência e rapidez do fabrico, mercê da perfeição da aparelhagem, permitiam à empresa vender seus artefactos por preços inferiores aos de qualquer outra, estabelecendo uma concorrência no mercado, que criou más vontades e uma guerra sem quartel.
Esta hostilidade e, diz-se, a traição dos operários técnicos, que se deixaram subornar, inutilizando propositalmente grandes quantidades de material, por um lado, e, por outro, as dificuldades de exportação e mesmo de colocação nos mercados nacionais, determinaram o encerramento da fabrica, em que perdeu toda a sua fortuna o sócio António. Morou este na casa, que depois vendeu a seu primo António Gomes d`Oliveira Santos.
As casitas de habitação, a poente da fábrica, foram mandadas construir pelos donos dela para moradia dos operários. Eram o início de um bairro operário, que se desenvolveria mais, e muito mais, se a exploração industrial se mantivesse e prosperasse.”
 Aos domingos havia no largo da Torre uma pequena praça de hortaliça, carnes salgadas, frutas, feijão e outros géneros, de que se forneciam os operários de fora da terra, com residência permanente. Trabalhavam na fábrica de S. João da Madeira, de Coimbra e doutras partes”.
Em nota, diz o autor que a fábrica de S. Vicente “foi a precursora das grandes fábricas congéneres de S. João da Madeira” e que “naquela vila e na de Cucujães já se fabricavam chapéus, mas de artefacto manual.
Acrescento, à guisa de remate.
Atualmente, já não existem vestígios da antiga construção.
Além dos motivos indicados pelo Padre Oliveira Pinto, a falta de infraestruturas suficientes foi uma das causas do insucesso.
Por outro lado, a dissolução da sociedade não terá sido feita para proteger António, assumindo o irmão toda a responsabilidade.

Texto publicado no n.º 30 da revista REIS/1996