25.3.10

Lavadeiras de Ovar

Revista REIS/1993
TEXTO: Rosa d’Assunção

Quem não se lembra das lavadeiras, batendo a roupa nas pedras de moinho, nos rios que atravessam a nossa cidade?
Eram lindas as suas vozes, os seus cantares!... De manhã, ainda antes de alvorecer, começavam o seu dia, que se prolongava, muitas vezes, até ao anoitecer.

Lavadeiras de Ovar
Ainda conheci o trabalho, o viver, de algumas lavadeiras do rio dos Pelames: a Sr.ª Emília, com uma linda voz e muito sentido de humor; que de qualquer palavra fazia uma quadra humorística; a Sr.ª Adelaide da Locádia, conheci-a já com muita idade e ainda nessas lides; a Sr.ª Palmira do “Santinho” que, em paralelo, e ao fim-de-semana, também era tremoceira; a Sr.ª Ana, a Sr.ª Rosa Correia, e tantas, tantas outras…
É bom recordar…
Mas também no rio da Mota, das Luzes, do Palhas, da Senhora da Graça, do Casal e outros, havia lavadeiras de profissão.
Não era raro ver um turista estrangeiro fotografando as lavadeiras nos rios, de saia ensacada e traçada no meio das pernas, para que não se molhasse, ou um pintor, amador ou não, com o seu pincel esboçando todo aquele cenário, digno de ser memorizado na tela.
Um dia, um desses forasteiros debruçou-se na ponte do rio dos Pelames e, dirigindo-se a uma das lavadeiras, à guisa de piropo, dizia-lhe:
– Então, menina, não sente a água fria? Olhe que se constipa”. E logo ela respondeu: “ – Não, não se preocupe, eu tenho aqui um fogareiro que a aquece”. E ele, logo de seguida: – “Quem me dera comer duas castanhas assadas nesse fogareiro!” E ela logo lhe retorquiu com uma gargalhada, acompanhada de um som estranho: – “Ora vá pegando nessa, enquanto a outra se assa!...”
A gargalhada foi geral, enquanto o moço se afastava, encabulado.
Era assim aquela gente simples, irrequieta e alegre.
Como a técnica ainda não estava desenvolvida e as máquinas de lavar e secar estavam por descobrir, era um “ver se te avias” à procura do melhor sítio na pedra do rio ou no relvado adjacente (coradouro), para aí estender a roupa a corar ao sol, pois eram muitas as lavadeiras de ofício e as pessoas que lavavam a sua própria roupa.
Era nesta disputa do melhor sítio que às vezes elas, as lavadeiras, zaragateavam. Como eram engraçadas!...
Cada uma procurava que a sua razão fosse a melhor, e então evocava-se a antiguidade naquele rio, a propriedade da pedra onde lavavam, enfim…
Mas tudo terminava com uma cantiga, um dito engraçado, uma gargalhada ou uma conversa amena, entre uma e outra regadela de roupa.

Lavadeiras de Ovar
Hoje são poucas as pessoas que se dedicam a esses trabalhos, embora ainda haja quem prefira os seus cobertores, mantas de agulha ou outras peças congéneres lavadas no rio. Por isso, ainda há quem dê continuidade a esse ofício, nos raros lavadouros de águas não poluídas…
Era uma vida muito alegre, talvez despreocupada, mas difícil, de sacrifício, especialmente no Inverno.
Como não havia botas de água, lembro-me de colocar-se no leito do rio uma bacia grande, ficando as lavadeiras com os pés dentro, evitando o contacto com a água. Quando vieram as botas de água, a vida passou a ser um pouco melhor; todavia, não evitava que os pés e as pernas ficassem adormecidos pelo frio. Oh! vida dura…
Começavam as lavadeiras por ir buscar a roupa a casa das senhoras para quem lavavam. Contavam as peças gradas e miúdas, pois cada qual tinha o seu preço: gradas, como lençóis, 1$00, miúdas, como almofadas, $50. Isto por volta da década de 40, 50.
Então a roupa era trazida, como num atado, até ao rio. Aí, desfeito o carrego, toda a roupa, peça por peça, era ensaboada com sabão amarelo (um sabão bastante gordo, usado só para ensaboar). Ficava a roupa em sabão geralmente de um dia para o outro, ou durante algumas horas. Só depois se lavava, amoissando-se peça por peça, com o dito sabão, tirando-se o primeiro sujo, lavava-se em seguida e, depois de corrida naquela água corrente e limpa, voltava-se a ensaboar com sabão de veia azul e estendia-se a corar ao sol. Este estender de roupa tinha o seu saber. Fosse ele feito de qualquer maneira, e a roupa não ficaria bem corada. Conhecia-se até uma boa lavadeira pelo estender da roupa no coradouro. Durante o dia, várias vezes se regava a roupa, a fim de não secar o sabão que continha. Era uma regra a não descurar. A determinada altura do dia dava-se uma volta à roupa no coradouro. Dizia-se mesmo: “Vou dar volta à roupa”. No fim do dia, às peças mais brancas, como lençóis, e à roupa anterior mais delicada ou branca, tirava-se-lhes aquele sabão do coradouro. Só no fim do segundo dia de cora era corrida, torcida e posta a secar. Não havia lixívias, apenas se usava um pouco de cloreto nas toalhas de mesa com nódoas difíceis. Depois de seca, bem sacudida e dobrada, entregava-se ao dono e recebia-se o ajustado, conforme as peças.
Como aquela roupa cheirava bem! À còrado, dizia-se.
Para tantas horas de trabalho…, o lucro seria assim tanto?...
Havia também quem trabalhasse ao dia, em casa das senhoras, mas só para fazer as barrelas, duas ou três vezes por ano. (As barrelas eram feitas com água a ferver e cinza peneirada no interior dum cortiço).
Decorria assim a vida das lavadeiras da nossa terra, que a pouco e pouco se foram substituindo pelas sofisticadas máquinas de lavar.
Arte terna e bucólica, mas dura e ingrata. Dela ficaram, para recordar, as cantigas que ajudavam a suavizar as agruras e as penas das nossas lavadeiras:

Lavadeira de Ovar
(Foto: Fernando Pinto)
A água corre p’ró rio
O rio corre p’ró mar
Olha a pobre lavadeira
Sem ter água p’ra lavar

Ora bate, lavadeira, lavadeira bate bate
As nossas cantigas já não têm remate
Ora bate, lavadeira, lavadeira bate bem
As nossas cantigas remate não têm.

Ou então:

Fui-me despedir do rio
E das pedras de lavar
Só de ti, amor, não posso
Despedir-me sem chorar.

Vão as damas para o meio
E também o cidadão
Já não há quem queira amar
Este nosso coração.

E vale a pena referir a canção eternizada por Júlio Dinis em “As Pupilas do Senhor Reitor”:

Ó Rio das águas claras
Que vais correndo para o mar…

Texto publicado no n.º 27 da revista “REIS” (1993)
Edição da Trupe JOC/LOC

Endereço para colocar numa bibliografia
http://revistareisovar.blogspot.pt/2010/03/lavadeiras-de-ovar.html


1 comentário:

  1. Comentário ? Por vezes, não há palavras para transmitirmos os sentimentos de saudade que temos, por dentro. É bem o caso ... Parabéns ao autor deste maravilhoso site !

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