21.4.10

Ovar em 1920 – Uma vila próspera em olarias

Revista REIS/2000
TEXTO: Maria Amélia Tavares


Ovar, nos anos vinte, era uma vila próspera em olarias. Em 1912 laboravam vinte e quatro. Não é por acaso que esta actividade deu o nome a um largo – Largo da Olaria –, precisamente por estarem aí localizadas algumas olarias [CLIQUE NO LINK]. Ainda hoje, e a comprovar este facto, aparecem nos quintais limítrofes cacos vermelhos, reminiscência dessa arte tão antiga que é trabalhar o barro. Hoje, o Largo está preservado e asseado, mas sem a intensidade das risadas e traquinices das crianças de outrora, que brincavam, em grupo, à corda, à macaca ou à caçadinha…, e subiam às amoreiras à procura de folhas para a criação dos seus bichos de seda. É que também ali funcionavam as mestras régias nas escolas daquele tempo.
A olaria em Ovar caracterizava-se por uma indústria pequena, constituída por uma forte componente familiar, e quase sempre funcionava no local da residência.
Um oleiro fazia-se porque geralmente o pai já o era e desde pequeno começava a conviver com o barro e a aprender a arte. Mas este mister não era fácil. Era preciso ter talento, ter qualidades de artista…

António Maria Regalado, um dos últimos grandes oleiros de Ovar
Quase sempre a aprendizagem era feita depois da diária normal de trabalho, e para se fazer um oleiro o aprendiz precisava de se dedicar ao ofício pelo menos durante quatro anos. A primeira etapa era a de ajudante, aquele que fazia o trabalho bruto e primário de amassar o barro e preparar a liga.
Nessa época os oleiros não tinham mãos a medir. Fabricava-se grande quantidade de “burretos” para os fins mais variados e quase ligados ao quotidiano da vida. Os cântaros de boca larga para a cura da azeitona, os tachos para acondicionar e conservar os rojões no meio do pingue, as tigelinhas para guardar e conservar a manteiga, as bilhas para a água (levavam-nas para as terras durante o tempo quente para matar a sede), os vasos para as plantas, os tijolos e as telhas para a construção civil…
Os clientes eram muitos, e alguns com grande porte de encomendas. Vinham do Porto, de Matosinhos, Murtosa, Espinho, Aveiro, Oliveira de Azeméis… A grande procura de vasos para os hortos tornava a Câmara do Porto um dos mais fortes consumidores.
A matéria-prima usada era o barro, oriundo de Vagos. Nos primeiros tempos transportado em barcos até ao cais do Carregal, donde seguia, depois, para as olarias, em carros de bois. Mas este barro era muito forte e, trabalhado só por si, rachava facilmente. Era, então, adoçado com outro mais pobre, extraído da zona dos “Barreiros”, em S. João de Ovar.
O combustível que alimentava os fornos na cozedura era a lenha e a caruma e, mais tarde, o serrim. Evaristo Estarreja negociava com o Colares Pinto toda a caruma dos seus pinhais. Era assim acondicionada em molhos e transportada por quinze mulheres da Ponte Nova, que a carregavam à cabeça até ao Alto de Saboga. Junto à Quinta do Belo, que ficava aproximadamente a meio da jornada, aliviavam-se, poisando a carga nos muros durante alguns momentos.
Do equipamento constava o forno, onde os ajudantes entravam para arrumar a lenha e a roda, que era manual. Era aí que a peça era moldada, o que exigia do oleiro toda a sua habilidade, a sua perfeição, o seu saber.

O avanço voraz das novas tecnologias

Com o decorrer do tempo, muita coisa muda. O avanço voraz das novas tecnologias, em que a máquina se sobrepõe à especificidade da pessoa humana, foi fazendo desaparecer as olarias que, em alguns casos e de acordo com as leis do progresso, deram lugar à construção de grandes prédios. A olaria do Zé Regalado foi adaptada a armazéns de construção; a do Evaristo deu lugar a uma oficina de cerâmica, “O Caco”, cuja proprietária é Georgina Queiróz, uma jovem ceramista que tem ideias muito definidas e seguras para o futuro da sua oficina. Reconvertida aos tempos modernos, tempos de desafio, muito mais exigentes, competitivos e selectivos, a sua produção é caracterizada por peças únicas decorativas, o que exige um grau de criatividade baseada na busca constante quer nos temas da vida quer nos novos designs, onde a cor, a forma e a medida não têm limites. Ali aposta-se num produto para uma clientela que prefere a diferença, mais receptiva ao moderno e talvez ao rústico em algumas peças. [Na foto: Evaristo Estarreja, oleiro e antigo proprietário da Olaria do Alto Saboga, e Georgina Queiróz]

A máquina dá uma machadada de morte nas mais antigas tradições

Desta indústria artesanal milenária, tão valorizada já pelos antigos gregos e que nasceu das necessidades do quotidiano, combinando o prático com um alto valor estético, o que resta em Ovar é “O Caco”.
Os leigos na matéria pensam que terá sido o florescer do reino do plástico, mais leve e de mais fácil acondicionamento, mas contudo, menos saudável, a causa do desaparecimento desta grande actividade vareira. No entanto, como nos diz Zé Regalado, hoje fabrica-se tanta ou mais louça de barro do que outrora. Porém, com a modernidade e o advento de novas tecnologias, a máquina deu uma machadada de morte nas mais antigas tradições. Era preciso fazer grandes investimentos duma forma global e não faseada, o que implicava grandes riscos. O estímulo não era nenhum, pois ser oleiro, ao contrário de hoje, era uma profissão pouco “dignificada e dignificante”.
Por volta da década de oitenta, as pessoas tinham de dar o salto. Ou se abalançavam, ou não conseguiam sobreviver.
Os vareiros acharam que o barco era muito grande e que ainda maior era a tormenta.
É pena que a modernidade e o progresso não tenham deixado que registos mais fortes desta arte milenária, que tanto prosperou em Ovar, perpetuassem uma faceta tão importante do viver e do sentir do povo vareiro.

Contribuiu para este trabalho o testemunho dos vareiros: Evaristo Estarreja (oleiro e antigo proprietário da Olaria do Alto Saboga), Eng.º José Eduardo Regalado (proprietário da antiga Olaria do Regalado) e Georgina Queiróz (ceramista e proprietária da oficina “O Caco”)
A todos agradecemos a disponibilidade e a simpatia com que nos receberam.

Texto publicado no n.º 34 da revista “Reis” (2000)

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