24.4.10

VÁLEGA - Às voltas com um canhão de guerra

Revista REIS/1995
TEXTO: Manuel Pires Bastos

No lugar da Carvalheira de Válega, mesmo na fronteira com Portovedo de Guilhovai (S. João de Ovar), há uma casa conhecida como casa da peça, por ali ter existido o cano de um canhão, possivelmente usado nas campanhas napoleónicas ou nas lutas liberais. (A casa foi construída em terreno baldio, da Câmara de Ovar, e daí talvez a explicação da presença, lá, de tal espólio).
Tomando conhecimento de que um canhão estava a servir de esteio de ramada, o Padre Miguel de Oliveira, então ainda novo, muito dado à História e dotado de espírito aventureiro, animou os jovens de Válega, numas férias, a trazerem aquele despojo de guerra para o cemitério ou adro velho, que acabavam de limpar. Era mais uma iniciativa da já denominada “Comissão de Melhoramentos”, também inspirada pelo Padre Miguel e composta por esses jovens, que conseguiram, com o apoio do Pároco e de homens grandes de Válega, fundar a Cantina da Escola, arborizar o adro da Igreja e construir uma capela-museu no dito cemitério. O canhão ficaria mesmo a matar ali à entrada do adro, como que a defender o seu património. Foi José Magina, de Vilarinho, que tinha estado na América, que se encarregou de trazer, sozinho, num carro de bois, aqueles cerca de 500 quilos de bronze, trocados facilmente por um esteio de pedra.
Limpo da cal com que o tinham enchido, foi entronizado com solenidade, metendo, até, procissão, com o futuro Dr. Pereira a alombar com a cruz. A presença do Regedor Matos e de outras forças vivas da freguesia exigiu, mesmo, os discursos da praxe.
A peça jazendo no pátio da Junta (1995)
Só que… a irrequietude do grupo juvenil entendeu que o canhão deveria entrar… em manobras. À custa de grandes esforços físicos, que só por acaso não levaram à morte o mais magricela – o farmacêutico Oliveira –, os jovens tentaram mudar a peça para o Seixo, no extremo sul da freguesia, na expectativa de ali o instalarem, como medida de defesa dum pretenso ataque dos de Avanca.
Não desanimando da aventura, o Pereira Morgado foi buscar dois possantes bois, amarrando ao cano de bronze uma forte corrente. Não contava ele que tão brilhante ideia fosse derrotada pelos paralelos de granito, que fizeram estourar a amarra, deixando a peça na estrada até ao outro dia, a embaraçar o trânsito. De novo reposta no adro, pela Junta de Freguesia, que fez vista grossa a tal desplante, a Comissão de Melhoramentos, envergonhada, deu tréguas às suas actividades bélicas.
Anos depois, uma rapaziada de Avanca, tudo gente amiga, com o José Borges de Pinho (Zé Macabelo) à frente, planeou um assalto ao canhão, que reentrou em manobras. Numa noite em que, como todos os dias, veio a camioneta do leite carregar as bilhas mesmo em frente, o Macabelo e alguns comparsas roubaram o cano e levaram-no para a sua terra, colocando-o no adro da Capela de Santo António, em pleno centro da freguesia!
O desforço não tardou, pelas mãos de uma nova geração de jovens valeguenses, capitaneados, agora, pelo Benjamim, filho de João António do Rato, o Regedor substituto.
Esses briosos rapazes, que viriam a fundar o Centro Cultural e Recreativo de Válega, conseguiram restituir à freguesia o precioso tesouro. Não sem que tivessem de se sujeitar a episódios picarescos, que envolveram as duas carroças de Joaquim
Pesca, caseiro do Dr. Pereira e moleiro com clientela em Esmoriz. A primeira viatura, de duas rodas, cedeu ao primeiro embate do canhão, arrastando-se, desconjuntada, algumas centenas de metros adiante, os suficientes, porém, para se porem a recato. Valeu ao Pesca a segunda carroça, de quatro rodas e dois cavalos, que de imediato foi buscar, e que voou, lépida e triunfal, a caminho do centro de Válega, em cujo jardim foi recolocada a peça, no meio de grande galhofa, como se de um troféu de guerra se tratasse.
Para evitar mais escaramuças entre os dois povos, afinal vizinhos e amigos, os jovens decidiram destruir o canhão. Nada melhor, pensaram, do que com um tiro a valer. Desentupida a boca e aberto o suspiro, encheram de pedras e pólvora o cano, virado para o alto, meteram o rastilho, e… PUM! era ver os estilhaços projectarem-se pelo ar, e, de volta, partirem alguns vidros da Igreja e algumas telhas das casas vizinhas. Mas nada que parecesse um bombardeamento… Até o canhão ficou intacto, ufano das suas glórias. E tudo acabou em bacanal.
A peça jaz, hoje, envergonhada, no chão do pátio da Junta, disponível para novas investidas. Só que os jovens de hoje não estão para aventuras. E os jovens de ontem, adultos de hoje? Quando quererão retomar as glórias e as facécias do famoso canhão, cúmplice de suas aventuras de outrora? Nem que seja para lhe dar um lugar mais condizente com a sua história…

Texto publicado no n.º 29 da revista “Reis” (1995)
O canhão no seu novo posto, junto à Casa do Povo de Válega (Abril, 2010)

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