5.5.10

História do Escutismo em Ovar

Revista REIS/1998
TEXTO: Augusto Lopes Vilela

No Verão de 1907, Lord Baden Powell of Gilwell ensaiou na Ilha de Brownsea, em Inglaterra, a pedagogia do serviço ao próximo, deixando de ser um audaz tenente-general do exército britânico para assumir o desafio de se tornar um educador de rapazes.
Nascia assim o Escutismo, como uma escola de cidadania e de vida ao ar livre, onde se reconhecia que “o melhor meio para se alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros, deixando o mundo um pouco melhor do que se encontrou”.
Em 1923, na cidade de Braga, o Escutismo deu os primeiros passos em Portugal, chegando a Ovar alguns anos mais tarde, pela dedicação do então Núcleo Local da Cruzada Nacional Nuno Alvares Pereira, donde nasceria o Grupo Scout 66 de Ovar e a Alcateia 52. Para tal facto, em muito contribuíram o Padre José Ribeiro de Araújo, António Augusto Abreu e Eugénio Vinagre, que logo reconheceram o valor desta iniciativa para a mocidade vareira, tanto mais que “quando todas as liberdades fossem coarctadas ao homem, uma se lhe devia conservar ampla e vasta como os descampados do céu: a de fazer o bem, como ensina o Escutismo”. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Segundo os relatos do “João Semana”, pesquisados pacientemente por José Rodrigues Palhas, o primeiro exercício do Grupo Scout decorreu em 27/07/1930, consistindo numa série de acções de formação sobre a prática escutista, daqui resultando a filiação no Corpo Nacional de Scouts, o que aconteceu em Dezembro, após a aprovação nas provas de aptidão realizadas em 9 de Novembro.
Em 5 de Julho de 1931 inaugurou-se a sede do Grupo 66, que escolheu como patrono o Beato Nuno Alvares Pereira, e realizaram-se as primeiras promessas dos cerca de 25 rapazes que aceitaram o desafio e a exigência de se tornarem escuteiros. Como fundadores tínhamos o Chefe de Grupo, Manuel Ferreira Regalado (pouco depois substituído por Eugénio Vinagre), o Capelão, Padre José Maia de Resende, e o Chefe da Administração, Padre José Ribeiro de Araújo.
A 26 de Agosto do mesmo ano, realizou-se em S. Miguel o 1.º Acampamento, sobre o qual apresento um interessante relato publicado no semanário da Paróquia, tanto mais que explica a importância da vida ao ar livre e do jogo na formação do carácter: “O dia de Domingo foi anunciado pelo toque da Alvorada. As notas vibrantes do clarim soavam em uníssono com aquelas almas juvenis que pela primeira vez se acoitaram sob a tenda dum acampamento e em plena Natureza viram raiar pela primeira vez a aurora (…) Todo o resto do dia, assim iniciado, se passou dentro da quinta entre canções e agradáveis e instrutivos entretimentos”.
Em 1932, no início do Escutismo em Ovar, um grupo de Escuteiros
 posa junto à primeira sede, no lugar do Serrado. Ao centro,
o 1.º Assistente, Padre Maia, ladeado pelo P.e Brandão e pelo
 P.e José Ribeiro de Araújo, que lhe sucedeu no cargo e que veio
a ser a alma-mater do Agrupamento 66 de Ovar
do CNE – Corpo Nacional de Escutas, 
ao longo de muitos anos
O gosto de acampar levou uma delegação vareira ao 4.º Acampamento Nacional, corria o mês de Agosto de 1932. Entretanto, o grupo de rapazes escuteiros revelava outras capacidades, destacando-se o dom da caridade e os dotes artísticos, que os levaram a realizar vários espectáculos e récitas, até com peças de teatro da sua autoria. Curioso é o facto de se saber que D. Amélia Dias Simões chegou várias vezes a acompanhar ao piano partes desses saraus escutistas.
Em 1941 começou a notar-se um certo desalento na actividade escutista em Ovar, que coincidiu com a tristeza dos milhares de escuteiros espalhados por todo o mundo pela notícia da morte de Baden Powell. Facto que obrigou ao “reconhecimento de que existia uma certa dificuldade em movimentar a classe jovem de Ovar no espírito do Escutismo”. Uma intervenção da Junta Regional do Porto não obteve sucesso, pois em 1946, e apesar do constante empenho de D. Maria Celeste Carrelhas, a actividade escutista em Ovar teve a sua primeira interrupção.

Joaquim Costa Guimarães (Chefe Guimarães)
Em Dezembro de 1950, o grupo 66 reiniciou a sua actividade pelo esforço de António de Oliveira Neves Júnior e do Padre Manuel José Ferreira Torres, integrando-se no recente denominado Corpo Nacional de Escutas. Em notícia publicada no Jornal “João Semana” de Julho de 1951, fundamenta-se o sentido desta opção, afirmando-se que o método escutista é “o melhor que se ajusta à educação integral da juventude e lhe dá, por assim dizer, a rir e a brincar, a educação física, intelectual e moral de que eles (jovens) precisam para serem cidadãos prestimosos, úteis a si e à sociedade”.
Precisamente nessa altura fez a sua promessa de Explorador o actual Chefe de Agrupamento dos Escuteiros de Ovar, Joaquim Costa Guimarães.
Em 1953 reiniciava-se a actividade da Alcateia 52, e o Grupo de Escuteiros, então sediado na actual Escola dos Combatentes, dedicava-se à recolha de um conjunto de artefactos e à sua exposição, concretizada, a partir de Dezembro de 1960, através de uma Exposição Permanente, começando a dar-se forma ao que mais tarde viria a tornar-se no Museu de Ovar, criado pela dedicação do então Chefe Secretário José Augusto de Almeida, que se tornou seu Director, dignificando a comunidade vareira ao recolher e ao divulgar o seu “modus vivendi”. Já em 1969 fora criada uma trupe de reis denominada “Escutas e Juventude Operária Católica”, englobando duas organizações juvenis que, para além de partilharem o mesmo edifício, comungavam da mesma vontade em criar um Museu em Ovar.
O empenhamento dos escuteiros nesta iniciativa contribuiu para um novo período de inactividade do CNE de Ovar.
Cerca de 1976, António Claro, antigo escuteiro e Chefe de Agrupamento em Lamego, após uma conversa com o vareiro José Vítor Duarte que desde 1970 vinha sentindo atracção pelo Escutismo, lançou ao recém-chegado pároco de Ovar, Manuel Pires Bastos, o desafio de alterar este rumo. Bem acolhida a mensagem, logo este se empenhou em disponibilizar instalações para uma sede e em colaborar no processo de filiação no Corpo Nacional de Escutas.
No sótão da antiga sede da JOC, na rua Alexandre Herculano (actual Escola de Música da JOC/LOC), deu-se então início à prática escutista, com uns 12 rapazes, convidando-se para integrar a equipa de monitores José Maria Costa e Raimundo Patrício.
Entretanto, e enquanto o reconhecimento da Junta Regional do Porto ia sendo protelada, o Grupo continuava na sua formação, encontrando um excelente auxiliar na pessoa do antigo escuteiro Joaquim Costa Guimarães, que desde então tem sido um testemunho vivo de entrega à causa escutista e ao bem da juventude. A decisão dos monitores de frequentarem um curso de formação pedagógica de chefes em Março de 1978 possibilitou a legalização do agrupamento vareiro, dirigido pelos chefes com promessa: António Pereira Claro, Chefe de Agrupamento, e Joaquim Costa Guimarães, Adjunto do Chefe de Agrupamento, tendo como Assistente o Padre Manuel Pires Bastos.
Na Velada de Armas de 21 de Outubro de 1978, fizeram a promessa José Maria Costa e José Vítor Duarte, que viriam a ser, respectivamente, Chefe de Grupo e Chefe Secretário. No dia seguinte, realizou-se a promessa de 18 escuteiros, assistindo às cerimónias a Madrinha do Agrupamento, D. Laura Poças. Os “Actos Oficiais” da Ordem de Serviço Nacional n.º 369, de 1 de Fevereiro de 1979, tornavam real a refundação do agrupamento, que seria o 549 do CNE, continuando a ser o grupo 66 da Região do Porto.

Sede actual do Agrupamento 549, um excelente complexo em
construção junto aos moinhos dos Pelames (1998), onde mais de
200 jovens e crianças dão largas aos seus sonhos e aventuras,
preparando-se com a orientação de dedicados Chefes, para encararem
com esperança e sucesso os (des)encantos da vida
Hoje, volvidas duas décadas de actividade ininterrupta, constata-se a existência de cerca de 200 escuteiros no agrupamento vareiro, que ultimam a concretização de um velho sonho: a construção de uma sede adequada às actividades da prática pedagógica escutista.
Uma história que o tempo terá dificuldade em apagar, na medida exacta em que o Agrupamento de Ovar do CNE deixou marcas indeléveis na sua terra, que se habituou a ter orgulho nos jovens que o integram, que aqui nasceram e cresceram, e que vão deixando um testemunho de serviço à comunidade. Também porque os momentos de autêntica felicidade e de verdadeira camaradagem os acompanham ao longo da vida, fazendo-os olhar para o amanhã com uma nova esperança.

Texto publicado no n.º 32 da revista “Reis” (1998)
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2010/05/historia-do-escutismo-em-ovar.html

Sem comentários:

Enviar um comentário