21.7.10

Recordando o Café Paraíso

Revista REIS/2004
TEXTO: José de Oliveira Neves

Os cafés serviram, através dos tempos, como ponto de encontro entre pessoas das mais diversas categorias sociais. Alguns tornaram-se famosos pelas suas tertúlias, frequentadas pelos grandes vultos das artes, das letras e da política. São muito conhecidos em Lisboa o “Nicola”, ligado à actividade literária de Bocage, e o “Martinho d’Arcada” à obra de Fernando Pessoa. No Porto, o café “Águia d’Ouro” anda ligado às figuras de Camilo, Arnaldo Gama e de muitos outros escritores e artistas do séc. XIX.
O Dr. Alberto Sousa Lamy refere, na sua “Monografia de Ovar” (Vol. 2), que em 1959 Ovar tinha oito cafés, e menciona nesse número o “Café Paraíso”.
É dele que vou avivar algumas recordações.

Interior do 2.º Café Paraíso, com o proprietário Eduardo Sousa ao balcão,
onde estão expostos três frascos de rebuçados

Fundado em 30 de Julho de 1933, na Rua Dr. Manuel Arala, na casa onde hoje se encontra a Relojoaria Ovarense, mudou-se em Janeiro de 1937, para a Praça da República, fazendo esquina com a Rua Júlio Dinis, e encerrou as suas portas em 1979, para dar lugar a um Banco.
Nos anos 30 e até finais de 60 foi um café frequentado pela melhor sociedade da nossa terra, visto que ali se encontrava quase todas as noites, nas horas de ócio, como se de uma tertúlia se tratasse, gente ligada ao comércio, à medicina, à religião, à política, etc.
Entre os mais conhecidos frequentadores daquele local destacamos os médicos doutores Esperança e Nunes da Silva, Padres António Sanfins, Torres e Travessa, o ourives Afonso Carvalho, o Dentista Taveira, e os cidadãos Fernando Carrelhas, Matos, Muge, Firmino Carvalho, Nunes Branco, José Ramos, etc.
Sentados em cadeiras de verga existentes ao fundo da sala, lá iam abordando, em longas cavaqueiras, os mais diversos temas da época, intercalando as conversas com partidas de dominó, que jogavam em cima das mesas onde lhes era servido o café.
Quero aqui sublinhar que o café servido nesta casa era o que havia de melhor em Ovar naquele tempo, segundo a opinião dos bons apreciadores desta bebida. As pessoas interrogavam-se sobre qual seria o segredo do senhor Eduardo Sousa, proprietário do estabelecimento, chegando a dizer que lhe punha sal; mas o verdadeiro segredo para confeccionar o precioso líquido estava na qualidade dos lotes, que ele comprava na “Brasileira” do Porto, e na sua feitura em saco, pois nunca utilizou a máquina para esse fim.
No “Café Paraíso” realizaram-se alguns espectáculos musicais, com artistas portugueses e estrangeiros, especialmente espanhóis, que chegaram a instalar-se em Ovar para ali actuarem durante vários dias.
Estavam muito em voga naquela época os cafés-concerto, e o “Café Paraíso”, em Ovar, também seguiu essa moda em determinado tempo.
Num palco improvisado ao fundo, do lado da Rua Júlio Dinis, os artistas, virados para o público frequentador do estabelecimento, tocavam e cantavam para ele.
Havia ainda, do outro lado, uma mesa de bilhar que era o entretenimento dos mais jovens.
O “Café Paraíso” funcionava igualmente como posto de Correio, pois tinha uma venda de selos autorizada pelos CTT e um telefone público.
Aquilo que da minha meninice mais recordo desta casa eram os três frascos de vidro, com boca larga, cheios de rebuçados, em cima do balcão… Era o freguês dos de coco, que me deliciavam, quando, amealhados alguns tostões, eu os podia comprar. Lembro ainda o exterior deste estabelecimento, com grandes vasos de canas-da-índia, do lado da praça, a ladearem as portas de entrada, bem como um episódio muito curioso protagonizado por um dos frequentadores mais assíduos deste Café, o Dr. Esperança. Este médico, um fumador inveterado, entrava sempre nesta casa a fumar e, de forma ininterrupta, ia acendendo novos cigarros, sem nunca gastar um fósforo, uma vez que o cigarro que acabava de fumar servia de mecha para o que iria fumar seguidamente.
Recordar o “Café Paraíso” é trazer à memória um estabelecimento que foi, no género, um dos primeiros de Ovar, tornando-se, durante vários anos, local de encontro de vários ovarenses ilustres que, a pretexto de uma chávena de café, ali passaram muitas horas falando de negócios e comentando os acontecimentos políticos e sociais da época…

Texto publicado no n.º 38 da revista “Reis” (2004)
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2010/07/recordando-o-cafe-paraiso.html

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