18.9.10

Redes e Artesãos [Furadouro]

Revista REIS/2004
TEXTO: Maria Amélia Tavares

A safraFoto de Fernando Pinto

Portugal, devido ao recortado da costa, foi um país de pescadores, sendo a pesca costeira, em simultâneo com a agricultura, o principal ganha-pão das gentes do litoral.
A Pesca do Arrasto, também conhecida por Arte Xávega, teve grande incremento na faixa costeira, desde Espinho a Pedrógão.
No Furadouro, aquando do seu apogeu, chegaram a existir sete companhas, desta actividade primária nasceram múltiplas outras dela derivadas.
Vamos dar especial relevo à manufactura e tratamento das redes, das quais depende, em grande escala, o sucesso das pescarias.

OS REDEIROS
Entre a azáfama do passado e o marasmo do presente

Ao mestre redeiro era incumbida a tarefa de zelar pelas redes. Esta sabedoria, que exigia uma técnica muito especializada, era adquirida quase sempre na infância, ao sabor da mão paterna e protectora, quando o arrais das companhas incutia nos filhos, ainda em idade escolar, a arte e os saberes de fazer e tratar as redes, para além de uma fé inabalável, à mistura com alguma superstição. Naquela época, os adolescentes tinham já a sua tarefa a desempenhar, colaborando com a família nos trabalhos mais leves. Foi assim que alguns redeiros se iniciaram nesta arte e fizeram profissão disso quase até aos nossos dias.
No Furadouro, a pesca era dominada por três grandes famílias que se cruzaram entre si pelo casamento: os MALDADES, os MARTELOS e os SUDEGAS. (As alcunhas eram um apanágio das gentes do mar).
Os MALDADES, como arrais de mar. Em terra prevaleciam os MARTELOS e os SUDEGAS. Abordámos alguns redeiros oriundos destas duas últimas famílias.
As mulheres desempenhavam um papel fundamental na feitura das redes, conseguindo exceder na produção, pela prática adquirida, os homens.
Zeferino, hoje com 69 anos, iniciou-se nas lides aos catorze, e lembra: – Antes de irmos para a cama tínhamos que encher as 36 agulhas e deixá-las prontas no cesto para a minha mãe, às cinco da manhã, começar a trabalhar. Cheguei a ir com o meu pai na carroça do “Bolacha” a Esmoriz levar as mangas da rede para satisfazer uma encomenda. Em época de aperto trabalhava-se pela noite fora. A minha mãe chegou a fazer, em quinze dias, duas mangas. (Cada manga significa o comprimento de rede com cerca de 250 metros, desde a corda até ao início do saco). 

Redeiro António "Martelo" (Furadouro, Agosto de 2006)
Foto de Fernando Pinto

Na época, custavam cerca de mil escudos. Eram encomendadas por várias empresas de Esmoriz e Cortegaça – os Sousa Marques, os Ramalhos, os Peniscas… – e seguiam para várias zonas piscatórias ao longo da costa, como a Vagueira, Mira, Vieira…
Zeferino, hoje proprietário do restaurante “O Tasco”, no Furadouro, mostra muito orgulho e sabedoria, e diz: – Agora algumas redes das companhas são feitas com menos cuidado, sem obedecerem aos pormenores e técnicas de outrora, o que também contribui para o insucesso da pesca costeira.
António Martelo, consertando as redes
Foto de Fernando Pinto
O fio, tecido nas empresas de Cortegaça, era feito de linho, algodão ou sisal. Actualmente usa-se o nylon. Era despachado em madeixas formadas por seis fios, em fardos muito enleados. Alavam o fio mesmo nas ruas ou em dobadouras, para depois poderem encher as agulhas. Para determinar os tamanhos da malha, que variavam ao longo das peças, eram usadas umas bitolas de madeira a que chamavam muros. O instrumento de corte era uma navalha bem afiada. Na rede das companhas a medida da malha variava desde a maior, com cerca de 28 cm, até terminar no saco, com menos de 1 cm.
António Martelo, um dos arrais redeiros, hoje aposentado, iniciou-se também muito cedo, e um dos primeiros trabalhos que fez foi pregar as pandas, isto é, as cortiças presas às redes servindo de bóias.
Lembra a sua adolescência: "– Fui com o meu pai para Paramos-Espinho, e só mais tarde para o Furadouro. Trabalhei também na mugiganga e na pesca da enguia".

As pandas (cortiças presas às redes servindo de bóias)
Foto de Fernando Pinto

Aos dezoito anos foi para as traineiras para Matosinhos, onde continuou esta actividade, mas já com carácter mais empresarial. – Eu era o encarregado de terra. Tinha a meu cargo quarenta e tal homens, cinco por cada barco. O nosso trabalho era consertar e encascar as redes.
No Furadouro, quando a faina da pesca estava no auge, foi grande a azáfama dos redeiros. A praia ficava pejada de redes que permaneciam a secar ao sol e ao vento, pousadas na areia ou suspensas em bordões, onde as crianças do Furadouro faziam os seus esconderijos e abrigos durante as brincadeiras. Lá bem ao sul, solitários e distantes permaneciam os palheirões, grandes armazéns onde na época do defeso, eram arrumados os apetrechos da pesca e as redes.

Remendando as redes. Imagem da mãe e da irmã de Eurico e
Zeferino Oliveira, homens ligados à faina piscatória do Furadouro
Eurico, irmão mais velho do Zeferino, foi também redeiro toda a vida. Serviu algumas vezes de protagonista nos postais ilustrados divulgados por estrangeiros pelo mundo fora. Recorda quantas vezes teve de se levantar de madrugada para consertar as redes, que tinham de estar prontas quando o barco largasse para o mar. Lembra também os caldeirões onde as redes eram encascadas com casca de salgueiro para as proteger, engrossando-as e tingindo-as na cor mais adequada para o peixe. Eram, depois, transportadas para a praia em bordões, ao ombro dos pescadores.
Com o rodar dos tempos e o declínio da actividade da pesca, esta arte, que teve grande expressão e deu trabalho a muitas famílias, e que ainda hoje as gerações descendentes lembram com saudade e nostalgia, quer pelo convívio que estabeleciam entre as famílias quer pelas tarefas que os responsabilizavam mesmo enquanto crianças, está longe de ser aquilo que já foi.
A falta de pesqueiros, as cotas impostas pela CEE e uma maior activação no turismo transformaram, definitivamente, a paisagem da nossa costa e o “modus vivendi” das nossas gentes.
Outrora, o colorido e a vivacidade dos barcos, que partiam e chegavam ao som do ranger das cordas e do cadenciado dos remos, à mistura dos cantares de cariz religioso para afugentar os medos e servir de estímulo e coragem aos homens em momentos difíceis, as grandes lotas rodeadas pelos mercantéis e outros compradores, os pescadores com os seus pregões e dichotes, a canastra à cabeça das mulheres e aos ombros dos homens, e o estendal das redes a secar na praia, ao sol, são cenários que já pertencem ao passado.
Alguns dos nossos redeiros dedicam-se hoje a outras actividades, nomeadamente à exploração de restaurantes, e assim se vão perdendo as raízes e os valores desta gente tão genuína, tão extrospectiva, que alia a fé com alguma superstição, à mistura com a crendice, e que em tempos idos foram o motor das suas vidas, impelindo-os para o mar com a bravura e tenacidade dos homens do Gama, pondo em risco, quantas vezes, a vida humana, em troca do pão de cada dia.
Cá em terra ficavam todos aqueles que também na dureza da vida lutavam para que tudo desse certo. Naturalmente, aí estavam os redeiros.

Texto publicado no n.º 38 da revista REIS/2004
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2010/09/redes-e-artesaos.html

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