24.11.10

Centenário do Nascimento de Santa Camarão (1902-2002)

“O Gigante de Ovar”

Revista REIS/2003
TEXTO: Fernando Pinto

Sempre ouvi falar de Santa Camarão: que media mais de dois metros, pesava 114 quilos e calçava 49,5! Mas quem era afinal, este vareiro que, no mundo do boxe, chegou a ser campeão nacional de pesados de 1925 a 1932? Se fosse vivo teria apagado, no último Natal, 100 velas.
José Soares Santa era filho de António Soares Santa, fragateiro de profissão, e de Josefa Pereira dos Santos, forneira, ambos de elevada estatura. Tinha quatro irmãos: o Manuel, o Artur e o António (gémeos), e a Maria, sendo ele o mais novo de todos. Nasceu às nove horas do dia 25 de Dezembro de 1902, na Rua Visconde de Ovar, vindo a falecer na mesma na mesma casa às cinco horas do dia 5 de Abril de 1968. Só o coração desta “santa criatura” foi capaz de o pôr a dormir, KO, no ringue da vida. Contava 65 anos de idade.

José Soares Santa (à direita), com a família

De fragateiro a “boxeur”

Aos 11 anos, feito o exame de instrução primária, José Santa foi para Lisboa ajudar o pai a bordo das fragatas. Chamavam-lhe Camarãozinho. Mas ele cresceu, cresceu, cresceu, e, aos 19 anos, a sua corpulência tirou-o do anonimato e da vida árdua que levava nas docas do Tejo. Honra essa atribuída ao lutador Manuel Grilo, num dia em que “o Camarão” fora assistir a um combate de luta-livre no Coliseu dos Recreios. No entanto, foi no Porto que Alexandre Cal e Aníbal Fernandes lhe deram a conhecer a dor e a adrenalina dos primeiros socos.

Um dos combates do pugilista "Santa Camarão"
Em 1921, o “Gigante de Ovar”, ao vencer Joaquim Branco no Palácio de Cristal, na cidade invicta, foi empurrado pelos jornais para outro ringue: o da fama! Os vareiros lançaram foguetes à sua estrela, que viria a brilhar na Alemanha, nos anos 30, no filme “Amor no Ringue”, do realizador Reinhold Schuntzel, contracenando com Max Schmeling, campeão europeu de boxe, e com outros nomes consagrados da época, como a actriz Anny Ondra e o português Artur Duarte. Gostou da experiência, e voltou a entrar noutro filme, “O Boxeur e a Mulher”, desta feita nos Estados Unidos. Hollywood chamava-o, mas o nosso bom gigante não chegou a aceitar nenhum convite.

Passagem pelo “Madison Square Garden”

Após dezenas de combates vitoriosos que tiveram como palco a Europa, o Brasil e os Estados Unidos, foi na noite de 6 de Dezembro de 1932, no famoso estádio “Madison Square Garden”, em Nova Iorque, que Santa Camarão viria a abandonar, pela primeira vez, o ringue, ao 6.º assalto: – "O meu fracasso diante de Primo Carnera, o actual campeão mundial foi obra exclusiva da precipitação do meu manager Bertys Perry. Estava doente e contrariadíssimo, pois tinha tido uma forte altercação com Perry e subi ao ringue em condições anormais, pois tinha um joelho seriamente contundido e mal me podia movimentar diante do boxeur italiano", confessa, mais tarde, o pugilista.

José Santa com a esposa Mary Loreta de Oliveira


O “Homem Montanha de Portugal” começou a sentir algum cansaço a partir de 1934, sendo aconselhado pelos médicos a abandonar aquele duro desporto, depois de ter travado mais de cem combates! Um ano mais tarde, a 20 de Abril, nascia o seu único filho, Renaldo Oliveira Santa, fruto do seu casamento com Mary Loreta de Oliveira. Esta união não correu bem e Santa Camarão viu o filho partir, aos 12 anos, para a América com a sua mãe. Ainda hoje lá vive, no Oregon, acompanhando, de perto, as lutas que se têm travado na sua terra natal para que a memória de seu pai não seja esquecida. Em correspondência enviada ao artista Marcos Muge, autor de uma escultura de Santa Camarão, enviou algumas das fotografias que aqui publicamos e que desde já agradecemos.

Alguns testemunhos de amigos

– “Num dia de Dezembro, andava eu no Orfeão, foram muitas camionetas a Viseu. E o Sr. José Santa foi também misturado com os orfeonistas, porque ele gostava muito de convívios”, lembra Adolfo Ferreira, de 68 anos, amigo de infância do seu filho Renaldo: – “Tinha nevado muito… A certa altura, a camioneta onde ele ia começou a derrapar, indo parar a uma ponte. E as pessoas todas aos gritos… O Sr. Santa saiu do autocarro e, como o piso estava escorregadio, espalhou-se. As pessoas tentaram ajudá-lo, mas como ele era pesado, levantá-lo foi uma tarefa muito complicada”.

– “O meu pai tinha uma barbearia, que ficava em frente ao antigo cinema de Ovar, no Largo dos Combatentes. Era eu miúdo… Para adiantar o serviço, pedia-me que fosse ensaboando os clientes que queriam fazer a barba”, explica João Mendonça, então aprendiz de barbeiro: – “Um dia chega o Santa Camarão. Ensaboei, ensaboei, mas o meu pai não aparecia, e o Sr. Santa disse: ¬ Vá, pega na navalha… – Mas eu não sei, respondi. – Dá cá, que eu ensino-te. – Ó Sr. José, espere um pouco que o meu pai vem já. Peguei na navalha, a tremer, e lá lhe fui cortando a barba. Chegou a vez do bigode, que eu não sabia fazer. – Dá cá. Cada vez que ele punha a navalha debaixo do nariz, fazia um golpe. – Ó Sr. José, está a cortar-se! ¬ Não faz mal, não faz mal. Entretanto, chega o meu pai. – O que é que fizeste? – Não fui eu, foi ele que se cortou.

– “Comecei a fazer-lhe fatos a partir de 1952. Fazia-lhe dois por ano: um em Maio ou Junho e outro no Natal, pelo seu aniversário”, explica o alfaiate José Matos, que tinha a sua alfaiataria no rés-do-chão da casa de Santa “Camarão”. Segundo o mesmo, enquanto o fato de um homem normal precisava de três metros de tecido, o do José Santa não levava menos de quatro e meio. – “No início dos anos 60, fiz-lhe uma gabardina. Estreou-a quando fui ao Porto receber a renda das casas que possuía. Fui com ele e recordo-me do povo perguntar: – Eh diabo, quem foi o alfaiate que lhe fez essa gabardina!? – Olhe, está aqui ao meu lado, respondeu com aquele ar bonacheirão. – O quê? Este senhor tão pequenino fez uma gabardina deste tamanho?!, recorda o alfaiate, com uma tesourada de saudade.

– A minha mãe vendia peixe e ele um dia, vendo-me no Largo da Arruela, perguntou-me: "Ó Russinha (era assim que ele me chamava), queres vir para a minha casa?, conta Maria de Lurdes Gomes Coelho Carvalho da Costa, de 52 anos, que foi criada por ele em menina – “Para ele eu era como se fosse uma filha. No meu quarto existia uma arca onde ele guardava as luvas de boxe, uma taça muito grande e outras mais pequenas, álbuns de fotografias com as namoradas que teve, entre outras coisas. Onde é que elas estão agora é que eu não sei! Eu conhecia bem aquela casa… Se lá entrasse hoje, apanhava um susto, porque aquilo da parte de fora parece uma casa fantasma, lamenta a pupila do Santa.

O n.º 98 da Ria Visconde de Ovar, casa onde estão as raízes de Santa Camarão, pertence hoje a José Gonçalves, dono do “Café Stop”, situado no Largo que tem o nome do pugilista desde 1985. Além desta homenagem e do monumento que lhe vão edificar, obra do artista Emerenciano, será publicado em breve o livro “Com o Mundo nos punhos – elementos para uma biografia de José Santa Camarão, da autoria de Luís Maçarico, encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa, a partir de uma sugestão do Grupo de Reflexão Pró-Ovar.
Para quando a tão desejada Casa-Museu? Já é altura de acordarmos, como deve de ser, os feitos do mais famoso boxeur português de todos os tempos, que só não conseguiu concretizar dois sonhos: arrecadar o título mundial de boxe e viver até aos oitenta…

Texto publicado no n.º 37 da revista REIS/2003
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2010/11/centenario-do-nascimento-de-santa.html



José Soares Santa “Camarão” foi incluído na lista “Cem Desportistas, Cem Anos da República”, uma iniciativa da Confederação do Desporto de Portugal, cuja distinção foi entregue em 16 de Novembro de 2010 na 15.ª Gala do Desporto, efectuada no Casino Estoril, ao seu biógrafo Luís Filipe Maçarico, em representação da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Desporto. Este reconhecimento deve-se em grande parte à colaboração dada por diversos elementos da comunidade vareira que conviveram com o pugilista ou que possuíam elementos preciosos sobre esta ilustre figura ovarense. 

O VÍDEO QUE LHE OFERECEMOS É UM FRAGMENTO DO FILME "AMOR NO RINGUE" (1930).

3 comentários:

  1. Muito interessante.

    Ficai a saber da sua existência através de uma placa comemorativa que foi colocada no prédio onde a minha avó vive em alfama, sendo a minha mão bisneta de Josefa "Exposta".

    Tenho orgulho por ter uma pequena ligação com este homem.

    Obrigado Fernando Pinto

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    1. Boa tarde, Também me interesso pelo assunto em termos genealógicos. Josefa era irmã de Santa Camarão? Pode contactar-me? Obrigada Vera Amaral juzarte.vera@gmail.com

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  2. Caro Sr. Fernando Pinto, eu tenho uma enorme ligação afectiva a Ovar e ao legado de Santa Camarão na cidade. Encontro-me a desenvolver um trabalho de investigação sobre a sua vida desportiva. Se me puder contactar também, ficar-lhe-ia muito agradecido. Obrigado.
    realsamie@gmail.com

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