20.7.11

Arte do bronze em Ovar


Revista REIS/1985
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Não serão muitos os vareiros que reconhecem o mérito da personagem retratada na pequena placa de bronze que aqui trazemos a público, da autoria do escultor vareiro Luís de Matos, que se encontra no topo norte do talhão 4 do Cemitério de Ovar.
Diz respeito a Francisco Augusto da Silva (1888-1969), que foi mestre na fundição, com oficina, a Bronzearte, na Rua do Temido, S. João de Ovar, onde produziu obra de excelência espalhada pelo país, e particularmente na nossa cidade, onde avultam os bustos de Francisco Marques da Silva, da escultora vareira Lúcia Maia, e de Júlio Dinis, do escultor Raul Xavier.

Francisco Augusto da Silva (1888-1969)

Quem foi Francisco Augusto da Silva?
Filho de João José Rodrigues da Silva e de Maria Augusta da Silva, Francisco Augusto da Silva nasceu em 1888 em Pardilhó, dali partindo com os pais, ainda criança, para Lisboa, onde aprendeu a arte da fundição, vindo a estabelecer-se com oficina própria, produzindo peças de metal para a indústria mecânica.
Busto de Francisco Augusto da Silva,
da escultora ovarense Lúcia Maia
Porque na sua oficina foi encontrado, pela PIDE, algum material explosivo, teve que fugir precipitadamente, abandonando a empresa (confiscada por 80 contos) e refugiando-se no Brasil, onde casou e ficou viúvo, com 3 filhos, um dos quais viria a ser fundidor em Lisboa.
Casou, em segundas núpcias, na Igreja do Santo Cristo, no Rio de Janeiro, com Rosa Augusta de Oliveira Duarte, da família Duarte, de S. João de Ovar, de quem teve três filhos: Custódio (n. 15/5/1936), Maria Augusta (4/2/1938) e Umbelina (9/4/1939).
De regresso a Portugal, viveu em Vila Nova de Gaia, e trabalhou, como responsável, na secção de fundição da Ourivesaria Aliança, na Rua das Flores, no Porto, onde lhe coube orientar a execução da estátua de Viriato, do escultor Mariano Benlliure, destinada a Viseu, e da gigantesca coroa/miradouro que remata a torre sineira do Santuário de Fátima, um dos trabalhos artísticos, cuja feitura maior prazer lhe deu.
Vindo para Ovar, montou oficina de artigos de menage na Rua de Baixo, S. João, com o nome próprio, Francisco Augusto da Silva, onde, com sua esposa, produzia peças de latão, cobre, bronze e zinco, tendo como ajudantes três catraios de 10/12 anos: o filho Custódio, o José Oliveira Duarte (n. 22/2/1938) e o José Catraio, que preparavam o carvão, enrolavam a sucata para o fogo e limpavam os lixos.
Por 1952, comprando uma parcela de monte no Temido, ali edificou oficina própria, sob a designação Bronzearte Lda. tendo como encarregado (1956 a 1964), José Oliveira Duarte, e onde trabalharam o Custódio, o Manuel Oliveira (hoje residente em S. João), o Fernando Sabino, o José Rodrigues Valente (Abelhão, n. 14/3/1949) o Eduardo Duarte, o António Carmo Silva e seu irmão Carlos Alberto Silva.

Ali se fundiam peças em bronze, latão e alumínio (turbinas e outras peças de motores eléctricos e de rega, ventoinhas e caixas), com encomendas de empresas da região: Rabor, que crescia a grande ritmo, Cavan (aros para postos eléctricos), SMOL, Fanafel (bronze fosforoso) e Adico (Avanca), e bem assim peças ornamentais, como castiçais, custódias, etc.
José Oliveira Duarte,
na actualidade
Ali fundiu em bronze, com o filho Custódio e os empregados Francisco e José, o busto de Marques da Silva (no campo da A. D. Ovarense). Dali saíram também os bustos de Albano Borges (na Rabor), de Manuel Soares Pinto (Hospital) e o de Júlio Dinis (no Largo dos Campos), estes fundidos por José Oliveira Duarte, bem como pequenas estátuas da Flor Agreste (de Teixeira Lopes), do Navegador e dos Três Mosqueteiros (José Borges).
Nos últimos anos, cego de uma vista, continuava a ser assíduo à sua oficina, só deixando o escritório para se entreter com alguns amigos no Café Parque, no Jardim Almeida Garrett.
Faleceu em 10/01/1969, na sua casa do Temido, S. João, sendo sepultado no cemitério de Ovar
Foi-lhe atribuída uma rua (na zona do Temido, perto do “Modelo”).

Custódio Duarte da Silva (1936-2004)

CUSTÓDIO DUARTE DA
SILVA (1936-2004)
Trabalhou com o seu pai, Francisco Augusto da Silva, desde a infância, e mais responsavelmente após os 14 anos, ajudando-o na confecção de trabalhos para a indústria (em bronze, latão e alumínio) e das primeiras obras de arte, de que avultam os bustos de Marques da Silva e de Júlio Dinis, implantados em Ovar.
Do seu casamento com Maria Orquídea Marques de Oliveira (1/9/1957), em Ovar, nasceram 3 filhos: Rosa Bela, professora de Desenho, com trabalhos em pintura, Adélia, residente em Setúbal, e Óscar Marques da Silva (S. João de Ovar), todos casados.
Após a morte do pai (10/1/1969), Custódio Duarte da Silva assumiu o comando da Bronzearte, propondo-se a alargar o seu raio de acção.
Entretanto, esculturado o rosto do seu pai por Luís Ferreira de Matos, de Arada, fundiu-o em bronze, com a ajuda dos empregados, fixando-o no túmulo da família em 1 de Novembro de 1969.
Passando a deslocar-se com frequência à capital, ali contactou com escultores de nomeada, que lhe confiaram a fundição de estátuas de grande porte: Nun’Álvares Pereira, para Cernarche do Bonjardim, e Carmona, para as Caldas da Rainha (hoje em parte incerta). A de Vasco da Gama (na foto) foi para Luanda (1971-72). Algumas destas estátuas, com cerca de 4 metros, estiveram expostas frente à Câmara Municipal de Ovar.
Estátua de Vasco da Gama do escultor João Fragoso,
após a fundição no lugar do Temido, Ovar
A estátua Vasco da Gama no seu pedestal no Largo com o seu nome, em Luanda,
junto à marginal atlântica. (Foto daqui)
Estátua no Largo Vasco da Gama, em Luanda (1972)
A estátua de Vasco da Gama (ao centro) e outras figuras
coloniais apeadas após a independência angolana 
Após a independência as estátuas foram "deportadas" para a
Fortaleza de S. Miguel, em Luanda (Foto Maria Rego)

Pormenor da estátua de Vasco da Gama, fundida em Ovar
(Foto Mário Bula)
Outros trabalhos artísticos saíram da Bronzearte, tais como uma placa em alto-relevo de 4x4 m para o Palácio da Justiça de Arcos de Valdevez, uma Vénus de Milo de cerca de 1 m (1968-70), de que foram feitas réplicas, e outras pelas artísticas e figuras públicas (Salazar, Kennedy, etc.).
Neste período, trabalharam com o Custódio alguns mestres de Valadares (o Nito, o Aureliano e o Joaquim) e diversos empregados, como o António do Carmo Silva (n. 1946), desde 1960, o seu irmão Carlos Silva, o Manuel Melindra (de Guilhovai), e seu irmão Alcides de Abreu Melindra, os serralheiros Gama e Renato, o Fernando Sabino (Ponte Nova), o Ernesto, o Rogério (da Ponte Nova, que teve oficina no Carregal), o Manuel de Oliveira (das Pedreiras, Salgueiral), o Meno, o José Rodrigues Valente (S. Vicente), e o Olímpio (de Guilhovai).
Ali se fundiram peças menores, como cavalos dos CTT, moldes para chapéus em alumínio (para S. João da Madeira e Arrifana), Santo António (40 cm, em prata, com moedas derretidas), Últimas ceias de Cristos (foram aos milhares para escolas primárias, até em África).
Por falência, ao fim de 14 anos de actividade, a Bronzearte passou para Eduardo Leite (da Carmel), que se apoiou na experiência de Fernando Sabino, Carlos Rogério e Olímpio, apostando, durante mais alguns anos, na fabricação de peças mecânicas.
O Custódio, com a assistência do José Rodrigues Valente (Abelhão) e do António Silva tentou, desesperadamente, manter a sua arte, alugando ali bem perto, um antigo armazém de caulinos.
O Marnoto (1974?), uma escultura grande que produziu e que, por desentendimento com os clientes de Aveiro, acabou por ser derretida, ficou como símbolo do extertor da sua actividade do bronze em Ovar.
Nem a boa vontade e experiência de José Rodrigues Valente, que assumiu o negócio por inteiro, em trabalhos mecânicos, com Carlos Silva, foram capazes de travar a derrocada, que teve o seu fim dois anos depois (1975-76).
Regressado do Canadá, para onde se tinha retirado, o Custódio instalou-se na Moita do Ribatejo, com nova oficina (1972-73), apoiado por José Rodrigues Valente, e, depois, pelo Sabino, Olímpio, Quim, Nito, João Fiúza e Manuel Eduardo (V. N. de Gaia), e tendo, mais tarde, a ajuda do seu filho Óscar, que foi acompanhando até ao fecho da oficina na década de 80. Entre as obras desta fase conta-se “O Salineiro”, de Alcochete (3 m de altura).
De feitio demasiado turbulento na vida social e familiar, e arruinado nos negócios, passou ainda pela Venezuela (onde executou uma estátua de Simão Bolívar) e pela França, vindo a falecer na Moita do Ribatejo, depois de ali ter executado uma das suas últimas obras de arte: o São Cristóvão, do Salão Paroquial de Ovar, esculpido em barro por D. Beatriz Campos e que ele, graciosamente, moldou em gesso e fundiu em bronze em 1985 (na foto).
Sepultado em Ovar, jaz sob a sombra tutelar de seu pai e mestre.

Texto publicado no n.º 44 da revista "Reis" 2010
Edição da Trupe JOC/LOC

http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/01/arte-do-bronze-em-ovar.html

LEIA AQUI O ARTIGO "MEMÓRIA DE UM APRENDIZ DE FUNDIDOR", DE JOSÉ DUARTE, PUBLICADO NO JORNAL "JOÃO SEMANA"

2 comentários:

  1. Gostei muito deste artigo. Fez-me mais uma vez recordar o Senhor Francisco Augusto da Silva e a sua familia, com quem privei entre 1956 e 1968, e muito estimava e admirava.
    A minha homenagem para os Mestres dos Bronze e a minha saudade de amizade da familia que há muito não vejo.
    Vitória Martins

    ResponderEliminar
  2. Peço ajuda a familiares,de o sr. Custódio Duarte da Silva ,. Para me comunicar pôr favor porque tenho prazer em vous conhecer !!!? Ajudem a localizar. Alguém da família ,. Se poderem!!!...

    ResponderEliminar