12.3.11

Caminhos da farinha passam por Ovar

Gerações de velhos moleiros

Revista REIS/1995
TEXTO: Manuel Pires Bastos


São três os cursos de água que atravessam Ovar:
- Rio Cáster (ou o “rio d’Ovar” como é citado em documentos medievais), que vem da Feira, por Alcapedrinha, Sobral e Ponte Reada (em 1547 fala-se do álveo “do antigo rio” deste lugar, que está infrutífero e que se pretende frutificar, pois “em caso de inundação não represa água e não atrasa a vala do Rio Novo”);
- Rio Lajes, que vem do Salgueiral, pela Ponte Nova e morre no Cáster, junto aos Pelames;
- Rio das Luzes, que vem de Sande, por S. Donato, Assões e Madria, desaguando no Cáster, abaixo da Senhora da Graça.
Moinhos em Sande - S. João de Ovar
Um naco de conversa, enquanto o milho cai da moega para a moenga
Todos estes ribeiros foram sendo aproveitados, ao longo dos séculos, para alimentar a vida do homem: irrigando as terras de cultivo e fazendo mover moinhos que transformavam os cereais em pão.

S. Donato - Moinho recuperado e em funcionamento (2013)
Pouco a pouco, as águas deixaram de servir para isso. Passaram a mover turbinas hidráulicas e a alimentar a avidez de indústrias, algumas delas sem escrúpulos, com os resultados que todos conhecemos: a contaminação é de tal ordem que não há vida que resista… Abandonados e destruídos, os escombros dos velhos moinhos vão assistindo à destruição da própria vida…

Moleiro de S. Donato - S. João de Ovar
(Finais do séc. XX)

Moleiros do Cáster – Os Queridas, dos Pelames

Os moinhos principais do Cáster situavam-se na zona dos Pelames. Eram três casas de molinagem, sendo duas com quatro rodas e uma com três. Na sequência de várias gerações, era seu proprietário, no fim do século passado, Manuel Marques Branco, de apelido “Querida”, que seria assassinado ali perto, por volta de 1935, em consequência de uma rixa travada com um tal Rebelo, que o apunhalou, depois de terem bebido uns copos na loja do Rocha, na Rua da Fonte. Os seus quatro filhos deram continuidade a esta pequena indústria artesanal.
Os netos Manuel Maria Godinho Branco e Manuel António Marques Branco (Mena), primos entre si, continuaram com o mesmo labor, embora com moinhos diferentes. O último veio a falecer em 1989, sem que algum dos seus numerosos filhos quisesse continuar no negócio. O Manuel Maria, ainda vivo, continuou na arte.
Como a generalidade dos moleiros, os Queridas comercializavam o milho e o centeio, em moldes muito característicos, com uma clientela que ia de Ovar à Torreira, passando pela Ribeira, Carregal, Marinha e Torrão de Lameiro: recebiam os cereais e levavam a farinha, correspondendo o lucro de negócios – a maquia – a dois quilos em cada quinze moídos.
A carga era transportada sobre as albardas dos burros. Só mais tarde, quando melhoraram os caminhos, passaram a usar a carroça.
No mesmo rio, a norte, junto à Ponte João de Pinho, há o moinho de José Salgueira, filho de um primeiro Belislau, e na zona da Ponte Reada os dois moinhos de João Palhas (actual restaurante em construção) e o da família Pode, de 2 rodas, comprado, em 1946, por Amélia de Oliveira Dias, viúva, mãe do actual proprietário, José da Silva Pode.

Exterior do moinho do Pode, na Ponte Reada, junto ao caminho de ferro

Moinho do Palhas - Ovar
Junto à fonte do Casal, já no troço comum do Cáster, a sul de Ovar, havia outro moinho, perto do qual foi construída a fábrica do papel.
Ponte do Casal, junto ao moinho que veio a transformar-se na Fábrica do Papel

 Moleiros do rio Lajes

Um pouco a norte dos Pelames, no rio Lajes, que vem do Salgueiral, tem assento outro conjunto de moinhos centenários, cujo actual proprietário, Bolislau Rodrigues Onofre, hoje com 82 anos, continuou com a esposa, Rosa Maria de Jesus, as tarefas de seu pai, Manuel Rodrigues Onofre, de Cabanões, que ali se instalou com a mulher, Maria José de Oliveira da Graça, depois de ter moído em Alcapedrinha, próximo de Tarei, no rio Cáster.
Moinho do Bolislau, na levada do rio das Lajes, cuja ponte servia de lavadouro
Ao lado da casa onde reside o Bolislau está outra em ruínas, onde vivia um parente, o João Pinéu (pai de Francisco Pinéu), que administrava outro conjunto de moinhos idênticos ao seu. Hoje as águas do rio Lajes (ali, o rio corre mesmo sobre as lajes naturais) já não produzem farinha. Mas com o engenho e a arte do senhor Bolislau, ainda fazem funcionar um gerador que, há anos, produzia electricidade para a sua casa.
No mesmo rio, a nascente dos Pelames, próximo da linha férrea, ficam os moinhos da Misericórdia, que foram do Dr. Gonçalinho (Dr. Gonçalo Huet), da Rua Dr. José Falcão. Tem duas casas de moagem, cada uma das quais com várias moegas. Ali foram moleiros residentes Francisco Duarte, cantador, de Sande, e Manuel José (Sopinha), cada qual com instalações próprias.

Escuteiros limpando os escombros do velho moinho do rio das Lajes (2010)
Moinho da Misericórdia (no rio das Lajes), em recuperação (Setembro de 2011)
Ali viveu também, cerca de 20 anos, João Maria Resende, que foi relojoeiro amador, a quem sucedeu sua filha Raquel, última utente das instalações, hoje cedidas aos Escuteiros.
Na Ponte Nova, perto da actual Carmel, pontificava o Eduardo. Mais a nascente, havia o moinho do Santos (próximo da capela de S. João), o da Olívia Dornas, no Salgueiral, e outros mais.

Moinhos das Luzes – Um milagre da engenharia

Moinhos das Luzes, Ovar (à esquerda da estrada vêm-se as ruínas
do último moinho, entretanto demolido)

São várias as casas de moagem alimentadas pelas águas do rio Luzes, sobretudo na Levada de moinhos, onde se situa a mais expressiva e exemplar obra de engenharia hidráulica existente em Ovar, mesmo dentro da cidade, constituída por oito casas de moinhos, cada uma das quais com duas e três mós e com habitação, que se sucedem quase ininterruptamente, num pequeno declive de pouco mais de 50 metros.

O 6.º e 7.º moinhos das Luzes
No 7.º moinho (de três rodas, ainda habitado, junto à fonte, a nascente da estrada, e então pertencente à Quinta das Luzes), residiram e moeram, até 1968, José Maria Tavares (José da Granja), sua esposa Felismina Rainha, de Loureiro, e suas filhas Micas e Romana, com clientela desde Assões à Ribeira, e, até pouco tempo depois, o Joaquim Querida, vindo do 8.º moinho (a poente da estrada, e também ainda habitado, propriedade da família Bonifácio), onde antes viveu, durante mais de 30 anos, Manuel Rosa Paciência (Sopinha), e onde também moía, só para a sua casa comercial, o António da Padaria, da Rua Elias Garcia.
Com os Queridas, acabou a moagem de milho no local.
Os restantes moinhos de cima, dado o aparecimento das fábricas de moagem, foram-se reconvertendo, passando a triturar caulinos para a fábrica de tintas do Sr. Godinho, da Rua do Sobreiro, aproveitando o trabalho dos antigos moleiros Arnaldo do Estevão, Ti Manuelzinho “do barro” (Sioto), e Salgueiro (de Válega).

Texto publicado no n.º 29 da revista REIS/1995
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/03/caminhos-da-farinha-passam-por-ovar.html


1 comentário: