17.5.11

Glória de Sant’Anna em Ovar – Uma escrita de água e fogo

Revista REIS/1989
Glória de Sant'Anna
(1925-2009)
TEXTO: Maria Luísa Resende

Na roda desta revista, que se conversa uma só vez por ano – pela tradição dos Reis –, sempre planeja um ou outro conhecimento novo que nos faz entusiasmo acrescido. Leva-nos, então, pela nossa terra, ao encontro de ALGUÉM que já existia na nossa procura mas de quem, não raro, desconhecíamos o nome e a mensagem.
Esta foi uma dessas ocasiões. Penetramos no umbral de uma escritora de mérito, radicada em Ovar. Integramo-nos no universo – poético de Glória de Sant’Anna.

… DA MÚSICA DA PALAVRA…

De escrita branda, própria de uma identidade que se resume pelos poros das palavras. Delicada como uma renda ou pintura, na carícia às coisas belas, boas e simples: as paisagens longas e claras que recordam Lisboa, onde nasceu em 26 de Maio de 1925; ou Lagos – terra paterna, que lhe lembra a Baía de Pemba –; o mato, “sítio lindo para estar, pela variedade e verdade das suas gentes”; a plantação do tabaco ou as cidades luminosas e amplas dessa África, sua saudade de sempre.
Glória de Sant’Anna faz uma outra leitura da natureza, do quotidiano e dos picos da História. E dos desencontros também: a guerra da independência de Moçambique; o retorno, em 1974, à pátria e ao isolamento, após a doença e a morte do marido, em Ovar, onde se radicou com a saúde abalada. Há outros poemas inquietos de desenraizamentos e mágoas. Registo de um universo intimista interrompido, súbito. Perplexidades dos dias tranquilos trespassados por acontecimentos e situações extremos.

“Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano de tempos diversos onde também há sangue vegetal, buscando o que acabei por encontrar – a imensa angústia que se reparte.
Sobre isto escrevo.
Mas cuidado: a música da palavra é um casulo de seda. Só dobando-o com olhos atentos se chega à verdade – a solidão ansiosa e disponível". – escreveu a autora na contracapa do belíssimo livro “Amaranto” (da Biblioteca de Autores Portugueses).

… DE UM LONGO RIO HUMANO…

“Desses tempos diversos”, recorde-se a seiva pujante da intensa actividade que a tornou figura prestigiada no panorama literário de Lourenço Marques.
Sete livros publicados, seis de poesia (Distância, Música Ausente, Livro de Água, Poemas do Tempo Agreste, Um Denso Azul Silêncio, Desde que o Mundo…, Poemas de Intervalo) e um outro de crónicas (Do Tempo inútil. Além destes, Amaranto faz a recolha de alguns e inclui quatro outros: A Escuna de Angra; Cancioneiro Incompleto (sobre a guerra de Moçambique); Gritoacanto e Cantares de Interpretação.
Um dos livros mereceu-lhe o prémio Camilo Pessanha, na Beira. Recebeu igualmente os maiores elogios à sua obra literária no “Diário de Notícias” e noutras publicações feitas por críticos de reconhecido prestígio.
O resto, é trabalho disperso por revistas e jornais de lá, de cá e do Brasil. Foi conferencista e muito conhecida na Rádio Clube de Lourenço Marques, onde, durante 16 anos, animou um programa diário de duas horas com locução, programação e teatro radiofónico.
Fala-nos ainda das suas aulas de Português, no Ensino Secundário, e da amizade com os alunos. O Artur Albarran foi um deles…
– “Em minha casa, como nas minhas aulas, não havia racismo: uma pessoa era sempre uma pessoa… Os meus seis filhos aprenderam-no. Um deles foi para a Suécia para não combater contra os amigos. O que lá deixámos ficou para a terra dos meus filhos. Mas a independência devia ter sido a preto e branco”.
Com o regresso, a pedido do marido, todo esse imenso dinamismo se confinou às lides de casa, da família, em Ovar, e a ajudá-lo num gabinete de arquitectura e obras, depois de aposentada por questões de saúde.
A agressividade competitiva da nossa vida literária desagrada-lhe, e isola-se “num casarão imponente demais para a minha maneira de ser, mas o nosso sossego faz-me lembrar os trinta anos de África”.
– “Em Portugal tudo é diferente e terrível, porque se vive em círculos fechados”, desabafa.
Não obstante, colabora na revista “Colóquio” (Letras), e escreve um novo livro sobre os descobrimentos, fruto de pesquisas históricas, em Lagos.
– “Essencialmente, um livro para me aguentar num período difícil do meu regresso. É que também eu fui navegante nesta rota da vida. Com tempestades e tudo”.

… A VAGA QUE SE REFAZ… UM RETRATO POSSÍVEL

É, note-se, quase obsessiva esta sua ligação ao mar.
Tão semelhante ao seu movimento interior e denso; à profundidade límpida e silenciosa e fértil. Tão necessariamente precisos, ambos, do retorno à origem, do recomeço, do refazer-se dos muitos embates.
Ler esta autora é encontrarmo-nos com quem está sempre a partir das suas conclusões e desencantos para uma liberdade criativa:

… “Lá fora, na baía,
a vaga morta se refaz e torna.
O mesmo fio inexplicado
me liga ao vento, ao mar
e à gaivota”

Glória de Sant’Anna (Maria Glória de Sant’Ana Arala Paes), parece-me assim, num humanismo que transparece e se impõe.

… “Quando a dor se levanta
ergue o teu rosto:
as estrelas só nascem
depois do sol posto!”

Há, nas letras portuguesas, omissões que são injustiça. Que Ovar a não esqueça.
Eis-nos perante uma escrita não feminista, porque nada reivindica. E, no entanto, de indubitável matriz feminina, porquanto contemplativa, ligada aos elementos criadores da terra e da água numa fala serena sobre as interrogações humanas, seus enlaces e desenlaces.

A revista REIS agradece tê-la conhecido na simplicidade tocante que lhe é característica.
O seu melhor retrato não é o nosso, mas um soneto da própria autora.

Delenda Glória

eis-me solta de todas as amarras
da canga a que forcei o pensamento
de novo imersa nesta água pura
em que me identifico e apresento

limpa dos sulcos de súbitas grades
a que me expus de rosto claro e isento
– medida consciente para a mágoa
que é do tempo sem horas o sustento

de novo as mãos abertas e sem nada
estendidas à ternura do momento
a cada dia pronto que me alaga

de novo tão adulta como o vento
completa dentro desta pura água
por onde me procuram e me ausento


Texto publicado no n.º 23 da revista REIS/1989
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/05/gloria-de-santanna-em-ovar-uma-escrita.html








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