24.5.11

O cantador Teixeira de Guilhovai

Revista REIS/1977
TEXTO: António Maria Regalado
O cantador Teixeira de Guilhovai

Já vem sendo tradicional incluir no sumário da JOC-LOC uma entrevista. Este ano o entrevistado é, nem mais nem menos, do que o “cantador Teixeira”, que todos mais ou menos conhecem. Como o espaço é pouco, vamos directamente ao assunto:

– Quantos anos tem?
– Desde o dia 9 de Novembro, conto 84.
– Com quantos anos começou a cantar?
– Bom, eu comecei a cantar desde rapaz ainda novo. Lembra-se de que no final das desfolhadas e das espadeladas de linho se formavam umas danças ao som da viola e dumas cantigas, e eu comecei assim. Um dia estive a ouvir cantar a Deolinda do Couto e o David Duarte, e eu, no final, disse para a Deolinda: eu era capaz de cantar consigo; pois não foi preciso mais nada porque ela mesmo me convidou para irmos cantar os dois a Gondomar, na freguesia de Taralhões, e assim cantei pela primeira vez em palco e a ganhar dinheiro no dia 18 de Outubro de 1924.
– Quanto ganhou na sua estreia?
– 85$00! Eu pensei que pagavam muito menos!...
Em tão boa hora comecei que não foi preciso mais para ficar conhecido, e daí em diante quase não tinha domingos livres.
– Depois começou a ir cantar a outras terras?
– Nem se podem mencionar todas, porque cantei milhares de vezes em centenas de freguesias.
Cantei nos concelhos de Ovar, Vila da Feira, S. João da Madeira, Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Vila do Conde, Póvoa do Varzim, Barcelos, Esposende, Braga, Viana do Castelo, Famalicão, Maia, Santo. Tirso, Guimarães, Penafiel, Lousada, Marco de Canaveses, Baião, Amarante, Peso da Régua, Serra do Marão, etc., etc. Mas os lugares mais privilegiados onde cantei foram 8 vezes em Lisboa, a convite da Colónia Osselense, e sempre com a presença do Sr. Governador Civil de Aveiro, Dr. Albino Borges de Pinho, escritor Ferreira de Castro, Dr. Albino dos Reis. Cantei 37 vezes no Porto, no Palácio de Cristal, convidado por o Sr. Dr. António Lopes Rodrigues para angariar fundos para a compra de mobiliário para o Hospital de Sta. Maria, daquela cidade; também cantei 3 vezes no Café Olímpia, da Avenida dos Aliados. Ainda cantei em benefício da assistência aos Tuberculosos do Norte de Portugal.
– Chegou a cantar com o Marques Sardinha?
– Cantei com o Marques Sardinha, o Albino Nicolau, o David Duarte, o António Romão e o José Grilo, ambos do Porto, o Fonseca de Valongo, o Casa Nova, da Foz do Douro, o Machado, o Alberto Lima e o José Silva, todos de Sto. Tirso, o Manuel Moreira, de Gondomar, o Manuel Pereira, da Apúlia, e o Abraão de Avanca, e cantei também com o comendador Serafim Sofia. Com este senhor já eu tinha cantado quando ele era operário mineiro nas minas do Pejão; mais tarde emigrou para o Brasil, onde alcançou o título de comendador e, vindo um dia à terra, quis de novo cantar comigo e, no final de cantarmos, ofereceu-me um dos livros de sua autoria, “Tricentenário da Campo Grande”, Brasil.
– E cantadeiras?
– Cantei em estreia com a Deolinda do Couto, depois com a Margarida Reis, de Loureiro, a Barbuda de Estarreja, a Rocha de Vila do Conde, a Domingas Chaparrona do Bunheiro, a Laurinda de Gondomar, a Joaquina de Santo Tirso, a Joana Pereira de Esgueira, a Rita Pereira de S. Félix da Marinha, e tantos outros.
– Lembra-se da última vez que cantou?
– A última vez até agora foi no dia 7 de Setembro deste ano, mas penso que ainda não foi a despedida.
– Alguma vez saiu derrotado nas suas actuações?
– Nós não vamos para o palco buscar derrotas ou vitórias, mas um dia apareceu-me um “espertalhão”que eu não conhecia, e entrei a cantar a medo; depois de escolhermos o assunto – a História de Portugal –, ele perguntou-me se eu sabia quem foi o 1.º rei de Portugal, eu respondi-lhe se ele sabia como se chamavam as terras antes da fundação e o que foi a Península Ibérica, e ele começou a atrapalhar-se e eu então, a esse sim, dei-lhe tamanha derrota que ele nem acabou a festa, desistiu antes do tempo!!!
– Vocês cantam sobre vários assuntos; quais os principais?
– A terra e o mar, a madeira e o ferro, o rico e o pobre, vários assuntos; e depois cada um defende a sua terra o melhor pode.
– E casos de fazer rir a assistência?
– Quase em todos os desafios havia casos de risota, mas um dia, cantando eu e a Barbuda na Foz do Douro, eu disse-lhe que à noite ia dormir com ela e ela respondeu-me que tinha quem lhe fizesse companhia, que era uma cunhada, e eu cantei-lhe assim:

Marques Sardinha (de Avanca) e Margarida Reis (de Loureiro) foram dois
dos muitos cantadores com quem António Teixeira se confrontou. Na foto,
em plena ria de Aveiro, num passeio organizado pelo Doutor Egas Moniz
Tu trouxeste companhia
Para não perderes a fama
Para te guardar de dia
E mesmo dentro da cama.
Logo que tens companhia
Até me dá mais jeitinho
Que durmo no meio das duas
Ainda fico mais quentinho.

– Resposta:
Ó minha rica cunhadinha
O caso hoje está feio
Que o maroto do Teixeira
Quer dormir no nosso meio
Mas s’ele for ter connosco
E vá com más intenções
Eu deito-lhe as mãos às calças
E arranco-lhe os botões.

E assim acabou a conversa num momento de boa disposição, com a promessa de lhe ser remetido um exemplar do Boletim, mas que ele pediu para ser remetido em duplicado, porquanto um será para guardar e o outro será para ser lido na sua modesta loja de barbeiro, profissão que ainda hoje exerce.

Texto publicado no n.º 11 da revista REIS/1977
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/05/o-cantador-teixeira-de-guilhovai.html

1 comentário:

  1. A Margarida Reis, era tia e madrinha da minha avó Guida Rei.
    É com muito orgulho que li este artigo, a minha avó hoje com noventa anos, fala com nostalgia da sua tia, e definia como uma mulher de garra e lutadora. No que toca ás desgarradas, ela dizia que a sua tia era brava e que nunca deixava ninguém sair sem troco.
    Obrigada pela partilha.

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