8.6.11

Os caminhos do sonho – Lembrando Lúcia Maia, escultora

Lúcia Maia
Revista REIS/1998
TEXTO: Emerenciano

“É preciso que o meu olhar se reflicta no olhar do outro para que eu veja nele e para que, ao mesmo tempo, nele veja um olhar outro (in IMAGEM-NUA E AS PEQUENAS PERCEPÇÕES, José Gil)

O busto em bronze de Francisco Marques da Silva que se encontra no jardim que precede a entrada do campo de futebol da Associação Desportiva Ovarense é da autoria de uma escultora natural de Ovar, a viver presentemente em Coimbra. A revista REIS/1995, nas suas curiosidades, referiu esta circunstância, mas impunha-se dedicar mais espaço à pessoa e à artista que é a Lúcia Maia [CLIQUE NO LINK], e fazê-lo de uma forma condigna. Neste sentido foi-me pedido que escrevesse algo e, aceitando o desafio, desde logo me envolvi na tentativa de uma resposta. Mas porque o espaço não permite falar de todos os aspectos representativos da obra desta escultora, o presente texto releva uma ideia que julgo determinar-se desde o tempo de formação escolar. E interrompida uma prática de escultura, devido ao rumo da vida, a ideia é retomada na pintura. E se me é permitido estabelecer aqui alguma aproximação simbólica com a obra desta escultora-pintora, saliento essa ideia baseada na figura feminina.

Uma estátua que muitos conhecem, mas poucos aliam
à inspiração de uma grande artista vareira
Conheci a Lúcia há relativamente pouco tempo, em 1993, quando da realização de uma exposição de pintura e escultura que reuniu um pequeno grupo de autores na sua Galeria, a Galeria Santa Clara.
– “Era minha intenção ser uma Galeria de Arte, mas, mais do que isso, um espaço de encontro de artistas” – diz-me a Lúcia, respondendo-me à intenção de lhe dedicar um trabalho escrito para esta revista. A Galeria é hoje dirigida pela filha Olga.
Os caminhos do sonho, o da Lúcia e o meu, cruzam-se no tempo, embora em momentos diferentes. Somos naturais de Ovar, fizemos diariamente o mesmo percurso de Ovar ao Porto e do Porto a Ovar através do comboio, para frequentarmos a mesma Escola Superior de Belas-Artes. Nesta escola a Lúcia participa na 1.ª Exposição Extra-Escolar dos alunos, início de uma tradição de exposições dinamizadas pela Associação de Estudantes, e, curiosamente, participo na 7.ª e última, que se realizou dentro do mesmo espírito.
Ninguém na vida faz totalmente o que deseja, mas, com algum empenho pessoal, as pessoas podem, de algum modo, influenciar o destino, condicionante, sobremaneira, de uma realização artística. Sabe-se que a vida é, no início, na sua abertura, uma promessa. Que poderá ser, depois, um adiamento, e, quantas vezes um lamento, compensados pelos gestos inadiáveis de uma qualquer escrita introspectiva, seja através da própria escrita, do desenho, da pintura ou da escultura. Apontar-se-ão, assim, razões subjectivas, independentemente de intencionalidades formais, para explicar uma obra, o que não tem de ser uma confissão; mas, ouvindo muitas vezes um autor, de algum modo se revelam aspectos importantes a considerar quando se tenta compreender os motivo da não aparência artística. E nós nos projectamos também. Há, por assim dizer, a idealização da abrangência de mundos que se tocam, o mundo do autor, o mundo da obra e o nosso mundo, mundo dos outros que, em conjunto, revelam a totalidade representativa dessa obra.
Os elementos figurativos da obra de Lúcia, apresentam, hoje, indistintos
seres humanos, normalmente figuras femininas sem rosto visível
Resumindo, direi que a experiência estética, não se confundindo com a vida, nem por isso deixa de a revelar. E, nesta relação, os elementos figurativos da obra da Lúcia, apresentando, hoje, indistintos seres humanos, normalmente figuras sem rosto visível, pois não se vêem olhos, nariz, nem boca, por isso inquietam. Os seres anónimos apagam-se, nós não os distinguimos, e passam por nós. Uma certeza existe: a espécie humana representa-se, entre a tristeza e a luz da esperança, na presença de um pássaro que se toma na mão ou simplesmente olhado, a dizer-nos que a existência mais condicionada de um ser humano acalenta uma saída – mesmo através de companhias silenciosas, poucas mas boas companhias, as suficientes para confiarmos os nossos segredos. Esboçam-se sorrisos, desprendem-se risos e gritos mudos. E as árvores, de ramos lançados ou entrelaçados apresentam um enleado e misterioso labirinto. Também se associam panos ou xailes carregados de opacidade, a dizer-nos que, tapando o rosto ou o corpo, mais se chama a atenção para o que é suposto mostrar e esconder: a nossa nudez, de alma precisamente. Não será por isso aqui relevado o sentido real do frio ou do pudor, mas a tradução visível da manifestação fundamental de ser, frente à necessidade da comunicação difícil, se não impossível. O que é íntimo e secreto dificulta, por vezes, a revelação, mas tenta-se romper com as amarras da prisão que se define dia a dia, procura-se um chão tranquilo para a interioridade, mesmo onde há muita gente. A autenticidade de uma obra de arte prescreve-se aqui, neste princípio de liberdade, reflectindo o nosso encontro, atento e perturbado, de alguma maneira, com o que se passa à nossa volta.

Grupo escultórico de Lúcia Maia, em bronze,
num jardim de Santa Maria da Feira
Hoje a Lúcia tem mais tempo para se dedicar à sua actividade artística: as comissões militares do marido (oficial do exército) são coisa do passado, os filhos crescem, e a aposentação de professora é uma realidade. E, conforme o que viveu na plenitude de outras realizações, igualmente importantes, a obra aqui considerada não se perspectiva em continuidade; faz-se a ponte entre os primeiros trabalhos, de que é exemplo paradigmático o grupo escultórico que fez para a Vila da Feira, ligando um tempo de amplas promessas, baseadas na crença e nos estímulos escolares e outros, ao tempo presente. Quando se é jovem, o sonho está intacto, não há qualquer hipótese considerada de que algo não se possa fazer. O futuro está todo em aberto, sem obstáculos. Depois vive-se o suficiente para se mudar de opinião sobre a realidade. E, por conseguinte, vista à luz da sua própria vida, por muito feliz que tenha sido – e foi, com certeza –, a obra da Lúcia tem de ser considerada, pelo seu interregno, como um começo a saudar. Contudo uma mesma temática, feminina no geral, se salienta, mas já não presenciamos jovens, ou serão jovens em referência a uma nostalgia do passado. Eu prefiro dizer mulheres, mulheres que se observam, que estão sob o olhar experienciado da autora e do nosso próprio olhar, mulheres que, mais do que os homens, vivem a ilusão de uma vida com projectos e uma existência sem problemas nem obstáculos. E os trabalhos de inspiração africana mostram outras mulheres, mulheres especiais, do conhecimento da autora em terras de África, aonde a circunstância de ter casado com um militar, com várias comissões realizadas, a levou: primeiro a Moçambique, depois à Guiné e, finalmente, a Angola.
– “Durante este percurso em que estive no ensino foi um correr, mudar de sítio. Foram os filhos, a casa, as viagens, os encontros e os desencontros, o instalar e desinstalar” – diz a própria Lúcia. Era por isso impossível a escultura, no entanto, foram feitos “muitos desenhos, muitos apontamentos para projectos futuros, pois fiquei com África no meu coração. Aquela gente, aquelas terras, aquele cheiro não se esquece” – são ainda palavras significativas de alguém que pode agora realizar uma obra, emprestando-lhe toda a sua sensibilidade e saber.

Texto publicado no n.º 32 da revista REIS/1998
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/05/os-caminhos-do-sonho-lembrando-lucia.html

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