21.7.11

José Maria Fernandes da Graça – Corre-lhe nas veias um puro “vareirismo”…

Revista REIS/1985
TEXTO: Vários autores

“… Nem pensem nisso. Falar de mim está totalmente
fora da minha maneira de ser”!

José Maria Fernandes da Graça
Foi assim que José Maria Fernandes da Graça – ou simplesmente o Zé Maria “do Turismo”, como é conhecido – nos passou a certidão de óbito ao projecto de entrevistá-lo.
Desconsolados, isso, ficámos! Pudera…
Mas desistir de falar desta conhecida figura, tão reservada quanto cheia de dedicação pelas melhores tradições e progresso de Ovar, estava fora dos propósitos da revista REIS/1985.
Assim, trocámos as voltas e, em vez da conversa amena sobre os seus quarenta anos de experiência em múltiplos trabalhos da comunidade, pusemo-nos a rebuscar ajudas de quem melhor o conhece. E… episódio dum, lembranças doutro – sempre às esquivas, porque ninguém quer perder a amizade deste homem cioso da sua privacidade –, juntámos os flashes que ouvimos.
E resultou este esboço de retrato.
Também a nós não interessam os vedetismos que por aí pululam e lhe desagradam. Mas a feição gratificante da gente que dá a esta Terra o melhor de si, essa, não podemos dispensá-la destas páginas natais.
Que ele nos desculpe a indiscrição, mas a Revista é assim mesmo: teimosamente vareira. E, contra isto, não há nada a fazer…
De forma simples, avançamos um pouco, e nem será necessário utilizar adjectivos.
Os depoimentos que se seguem falam por ele, José Maria da Graça, que já aos 7/8 anos acompanhava, de porta em porta, fascinado pela sua magia, as trupes de Reis; que veio a ser componente da ADO durante dois ou três anos; e que muito lutou pelo “Cantar os Reis”, fomentando, teimosamente, o uso de músicas originais em todas as trupes, com vista a uma melhor qualidade e a uma maior propaganda de Ovar; ele que formou equipa – pois nunca quis encabeçar fosse o que fosse, fugindo a títulos directivos – para a revitalização de manifestações públicas quer de carácter religioso quer culturais ou de diversão; ele que, mais como vareiro do que como profissional – aliás exemplar e dedicadíssimo –, granjeou dos seus superiores do Pelouro do Turismo – Francisco de Oliveira Gomes Ramada, Dr. Lamy Laranjeira, Dr. José Carvalho da Silva, Manuel Ramada, Dr. José Fragateiro e Afonso Themudo, entre outros – o lugar de colaborador ímpar com suas achegas e com a sua rara sensibilidade para tudo o que de melhor se pensasse em ordem ao engrandecimento de Ovar; ele que, quantas vezes no anonimato, contribuiu, como mola real, para muito do que hoje nos orgulha como vareiros: – a adaptação da actual esplanada do Furadouro, a transformação luminosa da Praia do Areinho, sua ilha e restaurante, o primeiro desdobrável turístico, o empenhamento e valorização do Rancho da Marinha, crismado, mais tarde, de “Rancho Folclórico de Ovar”, a actualização da Biblioteca Municipal, e a criação, na mesma, duma secção da Biblioteca da Gulbenkian, e a edição do Guia Turístico, Comercial e Industrial de Ovar de parceria com o artista Zé Penicheiro.
Por toda uma vida de disponibilidade a Ovar, achamos de toda a justiça a resolução tomada pela nossa edilidade ao conceder-lhe recentemente a “Medalha de ouro de Bons Serviços”.
A José Maria Fernandes da Graça aqui deixamos também a nossa homenagem. (Pela equipa da revista REIS/1985)

Reiseiro em busca de qualidade e pureza da tradição

No meu contacto quase diário com o Zé Maria, ao longo de tantos anos, pude aperceber-me do grande interesse e amor que ele tem dedicado a todas as coisas de Ovar, particularmente às suas realizações e tradições. Mesmo quando não participou directamente em alguma actividade, não deixou nunca de manifestar por ela um cuidadoso interesse, como nunca faltou com uma palavra de incentivo, uma crítica saudável, ou um elogio oportuno.
A tradição vareira do “Cantar os Reis” não podia, por isso, ser excepção. Se bem que, tanto quanto me lembro, ele nunca tenha participado numa trupe, nem por isso foi menos importante a sua influência nos Reis. De facto, foi por sua sugestão, por seu interesse ou por sua acção directa, que foram tomadas algumas medidas que tiveram indiscutível impacto quer na consolidação da tradição, quer na sua mais perfeita caracterização, ou mesmo na procura de uma maior pureza. Refiro-me, concretamente, à ajuda material dada às trupes para o trabalho de impressão dos folhetos com os versos das suas canções, à melhoria das condições acústicas e de apresentação no cumprimento da “obrigação” tradicional de cantar para o povo na Praça da República, à divulgação desta manifestação vareira quer pela Rádio quer pela TV, e, finalmente, à adopção de músicas originais de compositores vareiros ou radicados em Ovar, em vez das adaptações musicais, na verdade pouco características, que ao longo de tantos anos serviram de base às canções de Reis.
Felicito a JOC por ter decidido prestar esta homenagem a um homem que muito amor tem dado à sua e nossa Terra. (TEXTO: António Coelho)

Dar às procissões quaresmais o seu antigo esplendor

Pouco depois do primeiro quartel deste século, começou a declinar o brilhantismo e imponência das nossas Procissões Quaresmais. Era notória a falta de participantes. Reinava a indiferença por este legado religioso dos nossos antepassados, indiferença que se patenteava ainda no desleixo pelas nossas tradições e pelos próprios monumentos que chegaram até nós.
Na hora em que tudo parecia ter o seu fim, surgiram alguns homens devotados à sua terra que procuraram reacender o acendrado bairrismo dos vareiros em ordem a salvar as nossas tradições.
Foi num fim de tarde de Junho de 1964 que o meu grande Amigo José Maria Fernandes da Graça, pondo, uma vez mais, o seu indesmentível vareirismo ao serviço da nossa terra, me falou na possibilidade de se organizar uma Comissão de rapazes com o fim de se reatar o fulgor e grandeza das nossas Procissões Quaresmais. A semente germinou e, apesar da indiferença de uns tantos, aqueles trinta rapazes conseguiram dar nova vida às Procissões Quaresmais. E tudo isto se deveu ao incansável obreiro José Maria Fernandes da Graça.
E todo esse historial está por fazer!...
Obrigado, Amigo! (TEXTO: Arada e Costa)

… e o Carnaval impôs-se como Festa n.º 1

Também me pedem uma ligeira achega a respeito do Zé Maria, mas que, especialmente focasse a sua acção e interferência no lançamento e criação do Carnaval de Ovar.
Já que teve de ser, por se tratar do Zé Maria, não posso ser “ligeiro”, nem, especificamente, só tocar a tecla do Carnaval. É que ELE foi, sempre, um extraordinário “músico” que tocou todos os instrumentos possíveis e imaginários, desde que os seus sons e notas levassem, pelo éter, o nome de OVAR!
Prefiro focar, essencialmente, o Homem que, sempre, soube SERVIR e, nunca, servir-se.
E isto porque o José Maria Fernandes da Graça foi sempre, e sempre, um Vareiro incomum, que deveria andar na boca de todos os seus conterrâneos e muito especialmente como vero exemplo de todos os actos dos filhos da sua OVAR!
E também porque, tendo sido, durante 40 anos, o verdadeiro e o mais castiço Anfitrião e Embaixador da nossa Terra (sem ninguém lhe encomendar ou muito menos impor o “sermão”), o fez, sempre, com uma lhaneza, discrição, competência e modéstia invulgares, unicamente por feitio, educação, temperamento e nítida visão do lugar que oficialmente ocupava, chegando até a impor um total e absoluto anonimato em muitas das suas atitudes, iniciativas ou sugestões, sempre, e sempre, todas viradas e devotadas à propaganda, progresso e bom nome da nossa Ovar, que ele sempre amou, e ama, como raríssimos.
Anfitrião e Embaixador, inexcedível, perante quem quer que fosse, que desejasse ou procurasse saber algumas coisa sobre a nossa Ovar, os primórdios da sua multissecular história, as suas diversificadas actividades, as suas extraordinárias belezas naturais e, até (justiça se lhe faça como vareiro honesto e conhecedor do seu meio) as tão gritantes carências de que sempre enfermou e ainda enferma.
Era quase chocante a maneira como se apagava ao ver uma sua ideia ou sugestão, sempre pertinentes, tornadas realidades ou a dar frutos, tanto mais que nunca ninguém o fez com tão acendrado desinteresse pessoal.
Estamos até convencidos de que deve ter sido ELE que descobriu essa mágica palavra, hoje tão correntíssima, chamada VAREIRISMO, enraizando-a e fazendo-a florescer, frondosa e rica.
Desde que o conhecemos, há tantas décadas, para o Bem de Ovar – o Zé Maria nunca se furtou a dar a sua valiosa contribuição ou colaboração, apesar da falta de saúde e dos muitos afazeres, que os tinha efectivamente, ao contrário dos milhentos que, nada fazendo ou tendo feito pela sua terra, desta tão elástica palavra se servem para sempre se escusarem a fazer seja o que for, por ELA!
ELE foi, na realidade, um dos principais motores da criação do nosso Carnaval; do ressurgimento da belíssima tradição das Procissões Quaresmais; da manutenção da cerimónia, tão tocante e ingénua, da bênção do gado no dia de Santo António; da lembrança à Câmara de Lisboa para que perpetuasse, numa das suas ruas, com o nome de OVAR, a passagem e vivência da “Varina e do Fragateiro” na capital, ele que fez despertar as seculares raízes entre a Régua e a sua “Rua das Vareiras” para com Ovar e que, pelo menos, alimentou e desafiou esses dois espíritos de artistas – o vareiro já falecido, Mário Almeida, e o sanjoanense tão amigo de Ovar, Carlos Costa, para fixarem, no celuloide, as belezas naturais e os usos e costumes da nossa terra.
Finalmente, quase posso afirmar que, nestes 40 anos, nada se fez em Ovar, nos mais variados campos de actividades artísticas, associativas, desportivas ou culturais, desde a arte popular à modernista, da alegre romaria ao circunspecto congresso, da tradição dos Reis à Festa do Mar, etc., sem que o José Maria Fernandes da Graça tivesse posto o selo e o zelo da sua presença ou colaboração, como funcionário do Turismo ou Vareiro, anónimo, mas amante da sua Ovar! (TEXTO: António Coentro de Pinho)

Disponibilidade e vocação,
para que Turismo se traduza em progresso

Lembro com satisfação os anos que contactei com ele como membro da Comissão de Turismo do Furadouro.
Zé Maria, como eu lhe chamava na intimidade, era profissionalmente um indivíduo cheio de amor e de entusiasmo por tudo quanto envolvia Ovar.
O seu Furadouro com a sua praia.
A sua Ria.
O seu Carnaval.
Eram para ele como entes queridos.
Sendo respeitador de todos e respeitado por todos, tinha sempre tempo disponível e boa vontade para ajudar em todos os problemas que na sua mente fossem para o bem de Ovar.
Contar com ele para o desenvolvimento de Ovar era coisa certa, mas, além de tudo, a sua divisa era trabalhar para bem da causa, e não apenas conversar.
Formulo os mais sinceros votos de felicidade e de saúde para o Zé Maria, e resta-me esperar que o Turismo saiba encontrar um substituto que o defenda com tanto ardor, trabalho e boa vontade quanto o Zé Maria o fez durante tantos anos. (TEXTO: Manuel Ramada)

Texto publicado no n.º 19 da revista REIS/1985
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/07/jose-maria-fernandes-da-graca-corre-lhe.html

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José Maria Fernandes da Graça (1921-2011)

José Maria Fernandes da Graça, que foi "Figura Vareira" da nossa revista em 1985, faleceu em 15 de Julho de 2011. Aqui lhe prestamos, uma vez mais a nossa homenagem, mostrando dois momentos da sua acção interventiva em Ovar.

José Maria Fernandes da Graça (o 2.º a contar da direita), 
numa visita a lugares de memória vareira (aqui no Largo Santa Camarão).
Em Espinho, em casa da escritora Fernanda Miguel, descendente
de ilustres ovarenses e defensora de uma maior ligação entre as duas cidades
 (José Maria Fernandes da Graça é o 2.º da esquerda)

1 comentário:

  1. Grande homem que apreciava pela sua simplicidade e disponibilidade...
    Até mais Zé Maria

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