6.7.11

Uma figura dinisiana – Mestre Bento Pertunhas

“Chefe Postal provinciano do seu tempo”

Revista REIS/1990
TEXTO: João Campelo

Tal como Mestre Alberto de Sousa no-lo apresenta num belo trabalho artístico da sua autoria, e também como o próprio Júlio Dinis no-lo descreve, parece-me que estou a ver Mestre Pertunhas, não tanto como nos surge nas páginas de “A Morgadinha dos Canaviais”, com um ar um tanto severo, para mostrar ao seu interlocutor, Henrique de Souselas, a sua importância e o apreço em que é tido pela gente da sua terra como homem dos sete instrumentos, mas sim em Ovar, como chefe do correio local, o tal “homem a quem chamam aqui doutor”.

Parece-me que estou a vê-lo, óculos encarrapitados na ponta do nariz, fixando, atentamente, o endereço da carta que empunha na mão esquerda, “todo cheio de nove horas”, segundo a expressão feliz do nosso Povo, como se todo o mundo dele dependesse. É, no entanto, mais uma daquelas figuras criadas pelo génio de Júlio Dinis, figura plena de bondade e de bons sentimentos.
Não consigo dissociar duas figuras: a de Mestre Pertunhas, tal como nos surge em “A Morgadinha dos Canaviais” e a do chefe do correio de Ovar que é referido numa carta de Júlio Dinis para seu amigo Passos, datada de 16 de Maio de 1863, e na qual descreve, em pormenor, a chegada e distribuição do correio. Pelo seu pitoresco e, até, por ser a única referência conhecida aos correios da época, não resisto à tentação de, mais adiante, a transcrever na íntegra.
O escritor viveu, como se sabe, em Ovar, no curto período que vai de Maio a Setembro de 1863, procurando cura para o seu mal: uma doença pulmonar. Relacionado como era, esperava sempre, com natural ansiedade, notícias da família e dos amigos nas terras onde acidentalmente se encontrava, único meio de comunicação então existente.
Diz a carta:
“Entre as poucas distracções que esta vila oferece aos seus visitantes, nenhuma tanto do meu gosto como a da chegada do correio.
Todos os dias me levanto mais cedo para estar às nove horas na loja em que distribuem as cartas. Imagina tu uma pequena sala humildemente mobilada, com bancos e mesas de pinho e uma estante ao fundo, contendo “in-fólios” de formidável aspecto. Um idoso, a quem chamam aqui doutor mas de cujo grau ainda não tive informações, como decerto teria já feito um nosso conhecido, toma, fleumaticamente, a sua pitada conservando, ele só, uma imperturbável indiferença no meio da curiosidade de quantos o rodeiam.
Mais de trinta pessoas, homens e mulheres e crianças, sentadas no chão, no limiar da porta e na rua fitam com impaciência a esquina donde deve surgir o portador das cartas.
Quando ele aparece, todos se levantam a um tempo e apinham-se sobre o mostrador, como se pretendessem abafar o pobre do doutor.
Este, cônscio da importância da sua pessoa, retira-se, de uma maneira grave, ao seu gabinete, sujeita a cartas recebidas a uma tal ou qual classificação e volta para distribui-las . O homem lê, pausadamente, o nome da pessoa a quem vem sobrescritada, estende-se um braço, entrega-se a carta e, às vezes, é ali mesmo aberta e lida. À medida que o maço se vai esgotando, é para ver as transições por que passa a fisionomia dos que ainda nada receberam desde que principia o recreio até quando se desvanece de todo a última esperança.
Faz pena vê-los partir tão desconsolados. Escuso dizer-te que eu não sou espectador desta cena, mas actor e dos mais possuídos do seu papel. É com uma grande sofreguidão que eu recebo a correspondência do Porto, que leio ali mesmo pela primeira vez”.

A identidade das duas figuras – Mestre Pertunhas de “A Morgadinha” e o chefe da estação de correio de Ovar – parece-me tanto mais exacta quando é certo que Júlio Dinis, inicialmente, começou a escrever um romance em Ovar e, mais tarde, talvez pela variedade e riqueza dos personagens criados, talvez, até, por querer dar a um ou outro, papel mais relevante, decidiu cindir a obra e escrever “As Pupilas do Senhor Reitor”. Assim fez, e, mais tarde, “A Morgadinha”, aproveitando, para o efeito, alguns personagens então imaginados ou mesmo reais. Segundo a opinião autorizada do falecido Professor Egas Moniz, a recolha dos materiais feita em Ovar pelo autor de “As Pupilas” teve em vista a realização deste romance e, também, de “A Morgadinha”. E isso leva-me a crer que Mestre Bento Pertunhas seria “o chefe de correios de Ovar, o tal homem a quem chamam aqui doutor", e que Júlio Dinis resolveu transportar para o outro romance, como personagem inconfundível, possivelmente porque a sua visita diária à loja o levasse a criar especial simpatia por esta figura.
Da própria loja, onde o correio era distribuído, na vila de Ovar, diz para o seu amigo Passos: “Imagina tu uma pequena sala humildemente mobilada, com mesas e bancos de pinho”. Daquele recanto minhoto onde decorre a acção de “A Morgadinha”, lê-se, acerca da “repartição” onde trabalha Mestre Pertunhas: “consistia esta numa loja apenas, mobilada com um banco de pinho e dividida por um mostrador”, para dentro do qual se alojava o pessoal de serviço, isto é, um homem por junto: e era esse o Sr. Bento Pertunhas.
Creio, pois, que Mestre Pertunhas é bem o chefe postal provinciano do seu tempo, mas em Ovar, vila já de certa importância naquela recuada época. Assim, aceita-se, perfeitamente, que esteja investido de tais funções num meio já desenvolvido; porém, já custa acreditar que numa aldeia perdida num qualquer recanto do Minho existisse alguém a desempenhar aquela função. O autor transporta-o para ali com intenção, sem dúvida louvável, de lhe atribuir um papel de maior relevo, até porque, como já vimos, as descrições das próprias estações postais – chamemos-lhes assim – quer em Ovar quer na aldeia minhota, são idênticas, como idênticas são ainda, e como se poderá ler, a chegada e a distribuição do correio.
Dá-me a impressão de que Júlio Dinis escreve cenas de “A Morgadinha” com os olhos postos em Ovar. Olhos postos naquele chefe postal, então anónimo, o tal homem “cônscio da importância da sua pessoa que se retira de uma maneira grave ao seu gabinete, sujeita as cartas recebidas a uma tal ou qual classificação e volta para distribui-las”.
Tudo isto tem, realmente, muita importância porque é Júlio Dinis o único escritor da época – que eu saiba – que nos dá uma imagem viva, real, humana, da distribuição da correspondência naquele recuado tempo; precisamente dez anos (10) após a emissão dos primeiros selos postais adesivos, que surgiram, como se sabe, em 1853, com a efígie de D. Maria II.
Em “A Morgadinha dos Canaviais”, embora de modo diferente, repete-se a cena da chegada e distribuição do correio, tal como na carta ao seu amigo Passos é descrita cena idêntica, mas em Ovar.
Henrique de Souselas procurou Mestre Pertunhas na sua repartição com a mesma ansiedade com que, em Ovar, Júlio Dinis o fazia, diariamente, em busca de notícias de familiares e amigos. Até nesse pormenor a mesma identidade de pensamento e acção. Ou terá sido Júlio Dinis, ele próprio, enroupado de Henrique de Souselas?
Era, pois, Mestre Pertunhas personagem importante na terra. À sua inteligência e solicitude estavam confiadas mais que uma função. Além de servir, em interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades no nosso País, este cargo, dito por ele, de “director do correio”, “estava na posse de S. S.ª uma das cadeiras de latim e de latinidade com que se procura, em Portugal, fomentar nos concelhos rurais o gosto pelas letras antigas; era ainda regente e director da filarmónica da terra, armador de Igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares e, quando Deus queria, autor de alguns também”.
Era, ao fim e ao cabo, o homem dos sete instrumentos.
Para Mestre Pertunhas tudo estava bem, tudo corria certo, menos o latim. Odiava-o! E não o escondia a Henrique de Souselas. Enquanto aguardavam a chegada do homem com o correio, trocavam impressões, e o nosso homem (Pertunhas) não se cansava de vincar bem a sua aversão a latinidade.
“Ai meu caro senhor, se me vejo livre um dia deste amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei-de regalar de ver arder o Tito Lívio e os Virgílios todos três”. (Quer-me parecer – Dizia Júlio Dinis – que para este intérprete da literatura latina tinham, de facto, existido três Virgílios, possivelmente irmãos, e cada um autor de cada um dos três volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia Virgílio 1.º, 2.º e 3.º, como quem se refere aos monarcas homónimos, que se sucederam no mesmo reino).

Estado actual da Casa-Museu Júlio Dinis (2011)
Como outras figuras da galeria de personagens criadas por Júlio Dinis, é Bento Pertunhas uma figura que não esquece, que permanece viva na nossa memória. “Director do correio”, director e regente da banda, armador da Igreja, ensaiador e autor de autos, com aspirações a recebedor da comarca, eis uma figura que ficou para a posteridade, graças ao talento de Júlio Dinis, que tão bem o retratou, e a Mestre Alberto Sousa, que o imaginou, possivelmente, tal como era, muito senhor do seu nariz, homem dos sete instrumentos, mas avesso ao latim. O tal “senhor doutor” integrado nas funções de “chefe postal provinciano do seu tempo”.

Texto publicado no n.º 24 da revista REIS/1990
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/07/uma-figura-dinisiana-mestre-bento.html

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