13.8.11

VAR – Vareiras e Varinas

Revista REIS/1988
TEXTO: António Duarte
Vareira

Não tem sido pacífica, através dos anos, falar do tema em epígrafe.
A terra e as gentes que a cobrem têm, todavia, sua raiz própria que, nascida e desenvolvida naturalmente, sem arrebiques de erudição deve ser buscada, respeitada e amada.
Pretende vestir gentes de trabalho, no campo, nos rios ou no mar, de fraque, camisas engomadas e cartola; ou saías e vestidos de seda munidos de enchumaços ou tournures, blusas de rendas, chapéus com ornamentações extravagantes de flores ou frutos, não parece coerente com enxadas e rapichéis. Mas isto se tem pretendido fazer, com menosprezo do que a História, a Sociologia, a Economia e a própria Arqueologia nos apontam. E, porque uma colaboração me foi solicitada, e eu tenho procurado responder aos apelos da terra, alguns ligeiros considerandos aqui vão sobre o tema que me foi sugerido – VARINAS. Procurarei estribar-me em realidades, que não em académicas ou laudatórias opiniões de… “sábios”.

1 – O VAR

A civilização castreja, tão marcante no Noroeste Peninsular, aceite pelos Celtas invasores e por eles apurada e continuada que os romanos mais tarde procuraram destruir, embora sem total sucesso, aculturou e facetou os noroestinos peninsulares. E isto nos costumes da sua vivência, inclusive na sua idiomática, muito anterior à latinização. E embora o latim dos vencedores se viesse a impor com a sua disciplina linguística, uma mestiçagem substitui com as línguas pré-latinas. O que, bem o sei, tem repugnado a “eruditos e latinistas”; mas o povo, o fazedor do idioma, não embarca facilmente em erudições que… ultrapassam seus trabalhos costumeiros.
A alguns tem repugnado a antiga expressão popular “O VAR”, entendendo que o certo é Ovar, com “O” agarrado e aberto. Ora as línguas, através dos tempos, sofrem alterações fonéticas, morfológicas e, até, sintácticas e semânticas. E mesmo enquanto que uns termos avançam na sua evolução, outros vão ficando mais para trás.
Nós sabemos que o idioma galego-português permaneceu unido até à independência de Portugal. Só depois é que… o Português se afastou levemente do Galego – aliás só se tornando idioma obrigatório em Portugal com o rei D. Dinis… Mas a estrutura linguística manteve-se. E não se confunda o Galego com o Castelhano, este por muitos chamado Espanhol, embora incorrectamente, já que Espanhol seria o idioma de toda a Espanha. Mas na Espanha há o Castelhano, o Basco, o Catalão… E o Galego, irmão gémeo do Português. E, no Noroeste, mantiveram-se através dos tempos, e ainda perduram, topónimos precedidos de artigo, como a seguir se transcreve: O Viceto, O Barqueiro, a Cruña, O Grove, A Toxa (La Toja), A Estrada, A Pedra (mercado típico de Vigo) – designações galegas de locais, vilas ou cidades –; e até, do lado de cá, O Porto, que os ingleses, tão avessos às alterações ortográficas, mantêm “Oporto”, designação esta muito internacional. Isto pacificamente se aceita. E, porque não, O VAR? Por causa do O aberto inicial?
Quem ler Rosalia de Castro, que escreveu seus Cantares antes da formação da Real Academia Galega (Corunha, 1906), verá nesta obra que o artigo definido masculino aparece sempre aberto (até com acento gráfico); e a poetisa escreveu – ela o proclamou – na Língua que falava, o antigo idioma galego-português. Isto me explica como O VAR deu Ovar.

2 – Uma terra demarcada

Vista parcial de Ovar (princípios do séc. XX)
Rio Cáster, junto à Rua da Fonte

Num litígio judicial, cerca do ano 1700, entre Aveiro e Ovar, por causa da capela da Senhora das Areias, na costa hoje de S. Jacinto, a sentença da 1.ª instância subiu à Relação. E este tribunal sentenciou que os limites de Ovar abarcavam a referida costa, indo até mais além – até à barra velha de Mira, onde foi colocado um marco de pedra com a palavra VAR a indicar-lhe o termo. Isto se lê na página 148 do “Monumentos e Instituições Religiosas”, do Padre Manuel Lírio. Certo que a palavra foi gravada de acordo com o que a entidade administrativa vareira, saída vencedora de um pleito, lhe terá ordenado. E foi gravada a forma antiga do nome, o que é muito significativo.
E este era o limite sul da terra do VAR. E qual seria o limite norte? Costumam fixá-lo no rio Douro, embora na altura deste pleito já as administrações da Feira e de Gaia ocupassem terras a sul do Douro. Mas colónias vareiras estavam radicadas até ao Douro e ainda mais a norte – por terras de Bouças (hoje Matosinhos), onde o termo vareiro, e apelidos como hoje nós os temos, se mantêm ainda.

3- Uma gente marcada

Se a terra estava demarcada, as suas gentes marcadas foram com um nome – Vareiros –, ou seja, gentes do Var. Evidentemente que o sufixo – eiro, de índole popular (e é o povo quem faz a língua!), denuncia duas coisas: naturalidade e actividade. E, assim, teremos de entender vareiros em sentido lato: vareiros são os naturais das terras do Var. Isto ainda se mantém válido. Em sentido estrito: vareiros (mais ainda vareiras) são os naturais do Var, que se dedicam a determinada actividade – apanha ou venda de pescaria. Ainda hoje, as vendedeiras ambulantes de sardinha (e outros peixes miúdos) são chamadas vareiras na zona litorânea do norte. E, até, a par dos seus típicos pregões “,éer-cáa-sar-díin-nha-frêes-câa!” (fresquinha do nosso mári!), um género musical surgiu em canções, designadas vareiras pelos musicólogos.
E era vê-las, no tempo da safra, corre que corre, “descalças de pé e perna”; saia grossa, ensacada com cinto preto para elevar a roupagem; avental; blusa; xale traçado; lenço na cabeça atado na nuca; rodilha na cabeça para assentamento na canastra… Preferindo a roupa escurinha, mais de acordo com o recato no trajo e também praguejando, por vezes, em modos de desabafos de indignação. Mas, aos domingos e para as procissões (então muito frequentes) com sua roupa melhor, roupa de missa, saia comprida, xale em bico nas costas (com a ponta maior para fora) e, por vezes, com chapelete preto… mas sempre preferindo o escurinho; – que não para a blusa ou volta.
Até que… aconteceram traineiras e motoras, que a princípio ainda descarregavam sardinha nas praias, com suas chalandras. E, então, os navios arrastões?... E as companhas (artes de xávega) foram decaindo, a sardinha emigrando e os homens também. A costa ia ficando rapada. Melhores ganhos se vislumbravam lá para as Lisboas. Os homens… para as fragatas do Tejo, por lá se iam ficando. E as vareiras, suas mulheres, os acompanhavam. E então… nasceram as Varinas. O sufixo – eira não agradava, por certo, aos delicados ouvidos alfacinhas, por demasiado provinciano. Agradaram-se mais os lisboetas do sufixo – ina. Assim a vareira de cá, vendedora ambulante, surgiu varina em Lisboa, terra onde até havia poetas e fadistas que a cantavam.
Em “O Livro de Cesário Verde” (1901, pág. 60), no poema Avé-Marias, podem ler-se estas quadras finais:

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as Varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas do carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

E porque Lisboa é um empório comercial, a varina tornou-se mais conhecida e a vareira mais apagada. E até numa fábrica de conservas “A Varina”, com estabelecimentos fabris em Ovar, Furadouro e Matosinhos, levou aos quatro cantos do mundo o nome e a figura da varina. Mas a varina é menos autêntica que a vareira. Esta, é nortenha, é legítima representante do seu habitat: aquela é da capital (talvez, até, mais capitalista!), mas menos representativa, porque arredada do seu habitat. Esta, como peixe na água; aquela, peixe fora da água que lhe é própria.
Mas, ambas mulheres de trabalho, duras de perna para as caminhadas e firmes de voz para os seus pregões, bem merecem da terra de origem. E até, bem pensando, talvez que em nossos brasões, a par de uma enxada se deva pôr um rapichel – símbolos que engrandeceram a nossa terra, hoje feita cidade, ainda em dívida escultórica para quem a faz grande – em evocação de respeitandas memórias e para exemplo.

Porto, 08/12/1987

Texto publicado no n.º 22 da revista REIS/1988
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/08/var-vareiras-e-varinas.html

1 comentário:

  1. Sempre ouvi dizer que as Varinas chamavam-nas assim por serem de Ovar, Ovarinas.

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