13.10.11

Nos 200 anos da Banda Filarmónica Ovarense

Origem da Música Velha (1811-2011)

Revista REIS/2011
TEXTO: Manuel Pires Bastos

O século XIX herdou da Revolução Francesa (1789-1799) um clima de ruptura com o passado.
Em Ovar, e no campo artístico, o Juiz de Fora António José Pereira Coelho de Melo lançou, em 1811, no rescaldo das Invasões Napoleónicas, a ideia de se organizar aqui uma sociedade musical à semelhança das de S. Tiago de Riba-Ul e de Arrifana, as quais, segundo João Frederico, seriam as únicas dignas desse nome então existentes em todo o distrito de Aveiro.

Banda Filarmónica Ovarense
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Após convite, frustrado, ao Padre Fernando Luís de Carvalho, que dirigira a última Capela de Música de Ovar, foi de S. Tiago de Riba Ul que veio o maestro António José Valério, sob cuja orientação se estruturou a Sociedade Filarmónica Ovarense, nascida oficialmente em 4 de Dezembro de 1811, e formada por 19 sócios, dos quais cinco sacerdotes – Fernando Luís de Carvalho, Domingos José Rodrigues da Silva, Francisco da Costa Mendes, Dionísio de Oliveira Pacheco e António Ferreira –, um clérigo minorista – Manuel Bento –, o Capitão Manuel de Sousa Azevedo, o Alferes Bernardino José Gomes Coelho, os Boticários José Manuel Teixeira de Pinho e João Norberto da Silva, e ainda Salvador da Silva Lima, António Joaquim da Costa Monteiro, António Joaquim Gomes da Silva, João Gomes Leite, José de Oliveira Muge e José Lopes Barbosa.
Pela presença de tantos clérigos e pela natureza do primeiro serviço prestado (Procissão dos Terceiros de 1812), constata-se que se tratava de uma “Música a Capella”, embora mais apurada do que as antigas Capelas de Música de Domingos Gomes Campos (séc. XVII e XVIII), de seu filho Francisco Pereira de Campos (séc. XVIII), e do citado Padre Fernando Carvalho (séc. XVIII-XIX).
António Maria Valério de Sousa Brandão
2.º Regente da Banda Filarmónica Ovarense

De facto, segundo o jornal “Regeneração Liberal do Porto” de 21/09/1820, para comemorar a vitória Liberal de 14 de Agosto houve um Te Deum na Igreja Matriz de Ovar, a que se seguiu “uma iluminação nas três noites sucessivas, e uma bem concertada orquestra, em que figuravam alguns italianos, que por acaso ali se encontravam” . Esta “orquestra” era, certamente, a Sociedade Filarmónica dirigida por António José Valério que, na Semana Santa de 1821, por motivo de indisposição física, foi substituído por seu filho António Maria Valério de Sousa Brandão (1808-1895), então apenas com 13 anos, que lhe viria a suceder na regência da Banda, onde permaneceu mais de 70 anos, com algumas interrupções.
Sabe-se que a evolução das filarmónicas dependeu do aparecimento de novos instrumentos musicais e do incremento que lhes foi dado a partir de 1834. Pedro de Freitas acha que só depois dessa data, com a implantação efectiva do Liberalismo e a criação das bandas regimentais – antes existiam gaiteiros e charameleiros –, é que se formaram as bandas civis (que ele chama populares), e que a primeira delas, no distrito de Aveiro, terá sido a Banda Amizade (de 1834, e reorganizada em 1846 com elementos vindos da Guarda Nacional, alguns deles espanhóis), e de que Sousa Brandão também chegou a ser regente. O facto deste maestro e de seu pai terem sido, antes de 1834, os maestros da Filarmónica Ovarense, mostra a maior antiguidade desta em relação à Banda de Aveiro.

Banda Filarmónica Ovarense
No arquivo da Banda Ovarense encontrámos uma selecção da ópera “Norma”, sem data, com os seguintes oito instrumentos: 1.º e 2.º violino, violoncelo, 3.ª flauta, 1.º e 2.º clarinete, 1.ª e 2.ª trompa. Pode corresponder ao primeiro período da Filarmónica. Uma partitura de “A Traviata”, já indicia uma fase mais adulta da Banda, com flautim, requinta, 1.º e 2.º clarinete, corneta, cornetim, trompas (mib), 1.º figle, bassos e contrabasso. São, pelo menos, 12 elementos.
O “Galucho”, um ordinário composto pelo próprio António Maria Valério da Silva Brandão, tem flautim, 1.º e 2.º clarinete, 1.º e 2.º cornetim, 1.º e 2.º “fiscornes” (fliscone, inventado depois de 1842), 1.ª e 2.ª trompa (mib), 1.º e 2.º barítono, 1.º e 2.º tenor, 1 baixo, 2 bassos e 1 bombo.
Mas não esqueçamos que as Capelas de Música foram outra fonte, mais antiga e natural, donde brotaram muitas Bandas, como a de S. Tiago, a de Arrifana e a Ovarense, que nasceu como Sociedade Filarmónica antes das Sociedades Filarmónicas de Londres (1813) e de Lisboa (1822).
Datas célebres figuram na história da Banda Ovarense. Uma delas é 21 de Maio de 1852, quando da passagem da Rainha D. Maria II por Ovar. Por actuar, na Praça, “para a arraia miúda”, e durante a viagem de regresso pela ria a “música dos curiosos de Ovar”, recebeu 5$000 reis. (Ao Regimento de Infantaria 6 de Aveiro foram pagos 12$000 reis pela sua actuação, que também ocorreu “durante o repasto” .
Nessa época, ao mestre Sousa Brandão, ainda era dado o título “Mestre de Capella da Villa de Ovar” (num retrato, à pena, de 1856, e no funeral do Padre Ferrer, em 1863). Mas que também era maestro filarmónico prova-o o facto de executar peças clássicas. (Há uma cópia de “Vivandeira-Sinphonia” assinada em Lisboa em 1866 com a rubrica Br.am.)

Texto publicado no n.º 45 da revista REIS/2011
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/10/nos-200-anos-da-banda-filarmonica.html


Adenda -----------------------------------------

1812: o ano da fundação

Aos interessados por este tema aconselhamos a leitura do texto das “Músicas” às Filarmónicas: nos 200 anos da Banda Ovarense, que publicámos nos n.ºs 11 (2011), 12 (2012) e 13 (2013) de “Dunas – Temas e Perspetivas”, revista anual da cultura, de que aqui deixamos alguns pequenos excertos.
A nossa primeira busca continua a assentar na página 78 das “Memórias e Datas”, imprescindível obra clássica da historiografia vareira, donde transcrevemos as palavras essenciais sobre o assunto, aconselhando o leitor a procurar a própria fonte e ali e ali se saciar na frescura das suas águas.
Escreve o Dr. João Frederico Teixeira de Pinho:

“Anda alguma névoa a acompanhar o toque de alvorada da bissecular Música Velha, ou Banda Filarmónica ovarense, que vive a efervescência própria da aproximação do dia de 4 de Dezembro de 2011, data que tem sido apontada como comemorativa do 2.º centenário da sua fundação, mas que merece ser revista, dado haver razões de sobra para isso.(…)” (Revista “Dunas & Perspetivas”, 2011)

A frescura das águas. O registo do nascimento e a certidão de batismo
“(…) Sendo aqui Juiz de Fora o nosso patrício António José Pereira Coelho de Melo, em 1812, tomou a peito estabelecer uma filarmónica e pretendeu encarregar a sua regência ao Padre Fernando Luís de Carvalho, que se escusou disso com o fundamento de se achar sobrecarregado de serviço em diversas comissões eclesiásticas, além de ter a seu cargo uma cadeira de primeiras letras e uma farmácia, a melhor e mais concorrida do seu tempo.
À vista disto, resolveu convidar o insigne professor António José Valério, natural da freguesia de S. Tiago de Riba Ul, que efetivamente a organizou com dezanove sócios, dos quais se conserva ainda a lembrança (…)”

A desconstrução da data e um falso centenário
Porquê, a desorientação cronológica que a Banda vem alimentando, como uma praxe, desde há um século, quanto à data do seu nascimento? Somos de opinião que para isso contribuiu, em primeiro lugar, a circunstância de o conteúdo das “Memórias e Datas” ter permanecido praticamente inédito após a morte do autor (1870), apenas com alguma divulgação em jornais regionais (“Voz do Douro”, em 1870, “O Jornal do Povo”, de Oliveira de Azeméis, 1881-1882) e “O Ovarense” (1916).
O facto de o Padre Luís Carvalho ter dirigido antes uma “música de capela” (a chamada “música dos Padres”) e de ter entrado, como sócio, na nova sociedade, ao lado de mais seis sacerdotes e um minorista, terá também contribuído para se criar, em pessoas menos atentas, a ideia de que o novo agrupamento não seria mais do que a continuação do anterior, ideia esta que é contrariada pelo historiador, ao designá-lo como “filarmónica”.
A confusão que reinava ganhou foros de escândalo em 1905 quando, segundo se lê no jornal “A Tradição”, de 10 de dezembro desse ano, pela pena de “Um Caturra”, ao maestro Benjamim Nábia “se lhe meteu na cabeça fazer o centenário da sua música no dia 5 do corrente, quando é certo que poderia fazê-lo no ano de 1912. É uma bagatela de 7 anos!”
Deveria bastar ao maestro e aos dirigentes de há um século aquela admoestação do jornal para adotarem como definitiva a data de 1812. Não dando crédito à sequência cronológica registada pelo Dr. João Frederico, os responsáveis pela Banda, sem qualquer explicação plausível, terão convencionado tomar o ano de 1811 como o ano da fundação. (…)” (Revista “Dunas & Perspetivas”, 2013)

TEXTO: Manuel Pires Bastos

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