26.11.11

A Indústria de peles no concelho de Ovar

Revista REIS/2009
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Diz o “Almanach de Ovar” de 1911: “Da indústria de preparos de pele, em tempos remotos tão desenvolvida no bairro chamado hoje Pelames, não restam nem vestígios”.
Por esta referência e pelo próprio topónimo Pelames, concluímos que em Ovar se curtiam peles, nomeadamente no referido local, por onde, depois de receber as águas da ribeira das Lajes, passa o rio Cáster, em direcção ao centro da cidade, no velho caminho que ligava, a norte, a Igreja Matriz à rua Alexandre Herculano(1) .
A arte de curtir voltaria a Ovar no primeiro quartel do século XX, quase um século depois de estar florescente em S. Tiago de Riba-Ul (no “alto da fábrica” desde 1845, e no Cercal desde 1858)(2).

Empresa Fabril & Comercial de Ovar, Lda. (“Fábrica dos coiros”)

Destinada “a comércio e indústria de pelarias e curtumes”, foi implantada em 1920 numa extensa área de terreno a poente da então vila de Ovar, na confluência das Ruas do Loureiro e Fernandes Tomás, junto ao actual Bairro da Misericórdia (perto da Oliveirinha), tendo a sua sede na Rua Padre Ferrer, 79(3).

Local da antiga Fábrica de Curtumes, ao cimo da Rua do Loureiro, Ovar
Dr. António Santiago

O semanário “João Semana” de 11/09/1921 refere-se a esta fábrica como sendo “nova” e “com óptimas condições”. Eram seus sócios: Banco Regional de Aveiro (cota de 10 000$00), Dr. Albino Borges de Pinho (3 000$00), Dr. António Lopes Fidalgo (3 000$00), Domingos Pereira Tavares (2 500$00), Ernesto Augusto Zagalo de Lima (3 000$00), José Pinho da Cruz (4 000$00) e Dr. António Gonçalves Santiago (4 500$00)(4).
Desactivada cerca de 1925, foi posta à venda em 1929(5). Cerca de 1953 o terreno foi posto de novo à venda pelo Banco Regional de Aveiro(6). Dela restam os tanques, desde há dezenas de anos enterrados debaixo de entulho e silvas(7).


Silva & C.ª (Fábrica dos Calrotes)

Nasceu esta fábrica no lugar de Porto Igreja, S. Vicente de Pereira, cerca de 1925, por iniciativa de Domingos Fernandes da Silva (1888-1939), filho de João Fernandes da Silva († 05/09/1925) e de Emília Correia Gomes da Silva Leite († 18/03/1928), os Calrotes(8).

No Ameixial da quinta de Porto Igreja. Da esq. para a direita: Laurindo Fernandes da Silva (com arma), Caseiro Manuel Pinho; empregada; Maria, Emília, Delfina e Domingos Fernandes da Silva (com arma)

A Fábrica era composta por um vasto edifício com bons maquinismos, alimentados a energia térmica e hidráulica. O negócio prosperou devido à boa técnica utilizada e à qualidade dos produtos, a maior parte dos quais importados da Argentina.
Adoecendo Domingos Fernandes da Silva, a gestão da fábrica passou, cerca de 1938, para o sogro, Elias Correia da Silva Leite(9), que assumiu os compromissos financeiros da firma. Entretanto o falecimento de Domingos Fernandes da Silva, em 1939, aos 51 anos, e a grave crise da 2.ª Grande Guerra Mundial (1938-1945), forçaram o restringimento da produção e mesmo o encerramento da empresa, com intenção de a voltar a reabrir(10), o que viria a acontecer com outra gerência (Pablo Galli).

Fábrica de Curtumes Porto Rio (Pablo Galí, Limitada), de Pablo Galí e Soares de Almeida

Situava-se no Porto Igreja (Rio da Graça), sucedendo à anterior, nas mesmas instalações, mas com nova gerência. (Escritura de 21/03/1938)(11).
Por morte de Pablo Galí(12), e após nova paragem, a empresa retomou a actividade, em menor escala, sob a orientação de António da Silva Rocha, funcionário da Quimigal e genro de Domingos Fernandes da Silva(13) , em sociedade com Alberto da Silva Rocha, cessando o seu funcionamento antes de 1974, após um incêndio que destruiu o prédio, de que restaram apenas algumas paredes(14), obrigando os últimos operários a procurarem outras empresas do ramo, inclusive em Alcanena.

António J. da Silva Figueiredo (Fábrica de Curtumes Marialva)

No lugar de Aveneda, São Vicente de Pereira. O fundador e único sócio, António Joaquim da Silva Figueiredo, nascido em 11/11/1911 na Aveneda, fora empregado da Fábrica dos Calrotes, de onde saiu para tentar a sua sorte, e donde levou o fiel encarregado Augusto Araújo.


Em 1921 tratava “peles de raposa, coelho, cabra, lontra, texugo, carneiro, cão, etc”(15). A princípio só curtia couro e sola. Mais tarde, introduziu a camurça, com empregados especializados vindos do Porto e de Loureiro(16).
Compravam à FANAFEL (Ovar) peças de feltro grosso (manchons) para a máquina de dois cilindros, destinada a espremer a água das peles.

Adoecendo, o proprietário alugou as instalações, continuando a fábrica a funcionar com o seu nome durante cerca de uma década, até ao seu falecimento, aos 73 anos, em Junho de 1984, e, posteriormente, em nome da viúva(17), que teve de se colectar, criando a firma Maria Amália Gomes da Rocha – Armazém de Solas e Cabedais, até à concretização da venda das instalações à sociedade seguinte.


Curtumes Miguel Branco, Lda.

Após a compra do alvará, das instalações e da maquinaria a Maria Amália Gomes da Rocha, os sócios Miguel Félix Branco e João Carreira, de Matosinhos, e Joaquim Antenor Lopes dos Santos Silva, de Seia, ampliaram a fábrica dos Marialvas, que reiniciou a actividade em 1979, vindo a criar, pouco depois, a nova firma, que funcionou até 1998, altura em que foi alugada a novos gestores, todos pertencentes ao pessoal da empresa (encarregados de secção e de finanças), que lhe alteraram o nome, como segue.

Curtumes Aveneda, Lda.

Actual Fábrica de Curtumes Aveneda, S. Vicente de Pereira
José Manuel Andrade, António João Rodrigues Novo, de Ovar, e Pedro João Salgueiro Marques da Silva, de Matosinhos, apostaram na actualização das estruturas fabris (com ETAR privativa) e na fabricação de produtos ecológicos (sem cromos e sem metais pesados), para exportação.
É a única fábrica de curtumes que ainda persiste na região.

Notas:
(1) Ainda se mantêm ali as velhas casas de moinhos e uma fonte de águas férreas. O caminho passava junto ao cemitério.
(2) Annaes do Município de Oliveira de Azeméis, 1918.
(3) Esta era a residência do Dr. António Gonçalves Santiago, que, como notário, era uma pessoa influente.
(4) Cf. Jornal “A Pátria”, Ovar, 18/11/1920 e 15/09/1922.
(5) “Povo de Ovar”, 21/11/1929, pág. 3: “Vende-se Fábrica de Curtumes desta vila. Para informações, Dr. António Santiago”.
(6) O empreiteiro Abel Andrade tinha tentado adquiri-la, mas sem resultado.
(7) A poente da fábrica ficava (junto ao referido bairro) ficava um terreno a pinhal, e a nascente um quintal com uma pequena casa de habitação com pomar e um portão de acesso às ruas do Loureiro e Fernandes Tomás, de que restam, ainda hoje, vestígios do muro exterior. Frente à fábrica, a sul da rua do Loureiro, paralela à Rua Fernandes Tomás, ficava a quinta do Dr. Salviano, onde estava instalado um armazém de marceneiro e onde existia um poço de engenho. A nascente da rua Fernandes Tomás ficava a quinta do Zezinho do Arrais.
(8) João Fernandes da Silva e Emília Correia Gomes da Silva Leite casaram em 12/07/1877, ele com 33 anos e ela com 19. Os Calrotes tinham ares de alemães ou normandos (olhos azuis e pele muito branca) e, segundo uma versão familiar, eram monárquicos, relacionando-se com o Conde de Campo Belo (Macieira de Sarnes), e frequentando a casa dos Corte-Reais, de S. João da Madeira, vindo a ser, por isso, perseguidos pela República. Seria este o principal motivo porque vários deles preferiram permanecer no Brasil.
(9) Além da Maria Joaquina, o casal Elias Correia da Silva Leite e Emília Alves Soares teve mais 10 filhos o mais velho dos quais foi Elias Correia Soares de Azevedo, nascido em S. Vicente de Pereira em 06/08/1911, que fez o 4.º ano no Colégio dos Carvalhos e que partiu, em 1927, com 16 anos, para o Brasil, onde trabalhou na firma F. Jorge de Oliveira & C.ª Lda., que comercializava couros e peles, à qual dedicou toda a sua vida, primeiro como auxiliar de armazém, depois como empregado de balcão, vendedor-viajante (cargo que lhe permitiu conhecer todo o Brasil), depois como sócio (1933) e, finalmente, quando a firma passou a Sociedade Anónima (1958), como seu Presidente.
Pertenceu a diversas associações luso-brasileiras, tais como o Real Gabinete Português de Leitura, de que foi dos mais dedicados dirigentes (Vice-Presidente na área de finanças, com Medalha de Ouro), a Caixa de Socorros D. Pedro V (Benemérito e 1.º tesoureiro), Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro (Benemérito), Irmandades de N.ª S.ª da Candelária (Irmão graduado e mordomo dos educandários da instituição), e de Santo António dos Pobres (Irmão graduado), Clube Ginástico Português e Iate Clube do Rio. Foi condecorado com a Comenda da Ordem do Infante pelo Embaixador do Presidente Ramalho Eanes, e Medalha de Prata do Real Gabinete (quando do 80.º aniversario desta instituição) e a Cruz de Mérito D. João V.
(10) Padre Augusto de Oliveira Pinto, “Resenha Histórica das Freguesias de Souto, S. Vicente de Pereira e S. Martinho da Gândara”, 1935-1937.
(11) “O Povo de Ovar”, 27/05/1942.
(12) Pablo Galí, conceituado comerciante espanhol ligado ao sector de curtumes e praticante de Tiro aos Pombos, residia no Porto, onde se situava o escritório da firma (na Rua Sá da Bandeira, 605, 2.º).
(13) Em correspondência de S. Vicente, o “Notícias de Ovar” de 14/01/1950 fala de duas fábricas de curtumes na freguesia, “que se vão aguentando apesar da crise que tudo avassala”.
(14) No local está instalado um armazém de recolha da Junta de Freguesia.
(15) “A Defesa”, Ovar, 28/08/1921.
(16) De Loureiro veio o Cândido Valente (†2008).
(17) Nascida em Arouca em 1927.

Texto publicado no n.º 43 da revista REIS/2009
Edição especial comemorativa de 50 anos da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/11/industria-de-peles-no-concelho-de-ovar.html

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