1.11.11

Pontes de Ovar – Onde as margens se abraçam

Revista REIS/1998
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Ponte de S. Roque (Ribeira, Ovar)
Pontes. Margens que se tocam para eliminar barreiras. Mãos que se apertam para construir fraternidade. Rodas para o progresso. Asas para a circulação da cultura.
Quem diz pontes, diz estradas. Para que a fraternidade avance, para que o progresso caminhe, para que o pensamento voe.
Primeiro, eram os vazios desertos, as perigosas veredas, os pântanos impossíveis. Depois, paulatinamente, foram as caravanas, a pertinácia dos homens e das bestas.
E nasceram os trilhos de torna-viagem e as grandes rotas intercontinentais. Por terra e por mar, com a ajuda das pontes, fixas ou levadiças.

Em Ovar, no século XII (1186), segundo o Tombo do Mosteiro de Grijó, havia uma estrada (strata) que vinha daquela povoação de Gaia por Santa Marinha (Cortegaça) e Cabanões, que, “um pouco a nascente da linha férrea, entrava em Ovar pela Ponte Nova, passava no lugar de Ações e seguia em Válega pela Ponte de Pedra” (Padre Miguel de Oliveira “Ovar na Idade Média”, pág. 129).

Sande - Pontão para a fonte do Esporão
A ser este o percurso desta estrada ao longo do litoral, deveria haver outro do lado nascente (das terras da Feira), que servia Cimo de Vila, Sande, S. Donato (1101), fazendo ligação para o sul (Pereira Jusã) e para poente (Ovar). Há que lembrar que estes itinerários eram péssimos. Ainda em 1758 (“Memórias Paroquiais”), em Arada havia só uma ponte “de um só pinheiro”, em Maceda algumas, só de pé, “a do Lambo de uma só pedra, pela qual se passa só de cavalo”), em Cortegaça cinco, todas “para gente de pé”, sendo a do rio das Cabras, de lousa, na estrada pública.
A passagem de carros por essas estradas só era possível quando o leito dos ribeiros estava seco.
Pedonal era também o concorridíssimo trilho próximo à linha de água do mar, que, partindo do extremo norte da Ria, no Carregal, seguia em direcção à Barrinha de Esmoriz (atravessada de barco) e ao Porto.
No Foral de Ovar (1514) vem referida a rua direita, a mesma estrada que em 1768 é citada na Sentença dos Portados de Ovar, e que em 1857 é alvo de uma representação da Câmara a D. Pedro V. Saía do cais da Ribeira em direcção à Vila da Feira, a Arnelas e ao Carvoeiro, no rio Douro, atravessando a nossa Praça e seguindo pela rua direita da Fonte (actual Alexandre Herculano), Ponte João de Pinho (sobre o Cáster), cruzamento da Ponte Nova com a estrada atrás referida, e Sobral.
Era neste sentido poente-nascente que se processava o escoamento do grande tráfego pedestre e comercial que vinha desde Águeda e Aveiro, através do Vouga e da Ria, e se destinava ao norte e ao nordeste do país.
Em 1852, D. Maria II, na viagem de ida e volta às províncias do Norte, seguiu este rumo, aproveitando as beneficiações introduzidas, pouco antes, no cais e na rua direita da Ribeira.
Em 1821 tinham sido desviadas para estas obras as verbas do real do vinho provindas de Ovar e que, até então, eram destinadas à barra de Aveiro, em construção. (Este itinerário fluvial só foi deixado com a chegada do caminho-de-ferro (1864) e com a construção da E. N. 109 (começada em 1879).

As pontes de Ovar

Estradas e cursos de água têm destinos cruzados. Sempre que se encontram, entram em conflito. É então que, para encontrar a paz, se criam as pontes.
Nem sempre, porém, a harmonia é perfeita. Sobretudo quando as pontes são frágeis.
As águas revoltas punham-nas em risco, fossem de madeira ou de pedra. Eram o seu pior inimigo.
Em Ovar, em 9 de Fevereiro de 1879, após muitos dias de chuvas intensas, “as pontes foram todas nas correntes, à excepção d’uma ou doutra”, e “os rodízios dos moinhos voaram no torvelinho das águas”. Por causa disso ficou-se sem ter onde moer nos dois concelhos de Ovar e Oliveira de Azeméis. Nesse ano, a Câmara gastou 7 contos para reparos de pontes. (Almanaque de Ovar 1915, pág. 127).
Quais seriam essas pontes de há 120 anos? Para tal inventário, bastaria traçar o mapa viário da vila de então, e marcar a sua intercepção com os diversos cursos de água.

A Ponte da Vila

Segundo as “Informações” de 1758, também conhecidas como Dicionário Geográfico, havia, então, no meio da freguesia de Ovar, uma ponte “de cantaria, com quatro arcos grandes e cinquo pequenos, e quatro vazadores, que he onde se ajunto os dous Rios chamados da Villa e Ruella”. Dela se diz que é muito vistosa, “porque no meio dela está a Capela da Sr.ª da Graça”, tem “várias árvores de huma e outra parte, que a fazem muito aprazível”.
A actual Ponte da Vila em 1915, enquadrada na paisagem da época
Ficava no sítio da “ponte da vila”, junto à Capela de N.ª Sr.ª da Graça, de que também o rio recebia o nome, “por passarem os seus dois braços por baixo da ponte do mesmo nome contígua à capela de igual ivocação” (Corografia moderna do Reino de Portugal, Vol. 3).
Pela descrição, tratava-se de uma ponte diferente da actual, muito mais comprida, e mais perto da Capela, onde atravessava o rio, na estrada em direcção à Igreja, seguindo por S. João, para Cucujães e Oliveira de Azeméis (Estrada Distrital n.º 40).
O seu desmantelamento deve ter sido coevo do desvio da ribeira das Luzes para o sul, motivando a necessidade de duas pontes, uma para cada curso de água. A do rio da Vila (o Cáster) assentava (e ainda hoje assenta) sobre arcos, e mantém uma certa monumentalidade.
Esta ponte, denominada da Vila, era não só a mais central, mas a mais estratégica de Ovar, por nela concorrerem não só a estrada da Igreja, mas ainda a que trazia à Praça, pela (Ar)ruela, os povos que vinham da parte alta de Ovar (S. Miguel, Ações, Guilhovai).
Da Arruela partia um caminho de pé para a Igreja, pelo Serrado e pelas Luzes, onde havia uma ponte muito estreita.

Ponte do Casal

Ponte do Casal (1913)
A inauguração da primeira ponte do Casal deu-se, segundo informa o monumento erigido à entrada, em 21 de Abril de 1825, ao tempo de D. Carlota Joaquina. Arrasada pela cheia de 1879, foi reconstruída, mantendo-se de pé até aos dias de hoje. A sua antiguidade mostra a importância do respectivo caminho, que ligava o centro da vila, pelo exterior, do lado sul, com a Ruela, pela Rua do Sobreiro (actual Rua Camilo Castelo Branco).

Ponte do Sobral
(A 1.ª em betão em Portugal)

Ponte do Sobral
Fica na antiga Rua Direita (Distrital n.º 27), entre Ovar (Cais da Ribeira, Praça, Ponte Nova, Sobral) e Vila da Feira, com ligação ao Porto (pela antiga E. N. n.º 1) e ao Carvoeiro, nas margens do Douro.
Nesta entrada, à saída do Sobral, há uma depressão de terreno que dá passagem a um pequeno curso de água, ainda em terras de Ovar. Quando foi necessário construir uma ponte sólida, adequada às exigências de uma nova época, estava em Ovar, às voltas com obras do caminho-de-ferro, o Engenheiro Tito de Noronha, que foi encarregado da sua concepção. Conhecedor de modernas técnicas de construção, resolveu aplicá-las ali. E o facto é que aquela pequena ponte passou a ser apontada como a primeira em Portugal em cimento armado!

Ponte João de Pinho

Ponte João de Pinho

A velha ponte der(reada)
Fica na mesma rua direita (ao fundo da actual Dr. José Falcão), a caminho da Ponte Nova, no atravessadouro do Rio da Vila (Cáster).
Já citada no século XVIII, foi palco, em Março/Abril de 1809, de uma emboscada perpetrada por soldados de Aveiro contra uma guarnição francesa, comandada por Guarin, que não respondeu com represálias. (Almanaque de Ovar, 1913, pág. 154).
Dois meses depois (11/05), 3000 soldados ingleses rechaçaram os franceses num “recontro além da Ponte Nova”, empurrando-os para a Feira e, daí, para o Porto.
O termo Ponte Nova, ainda hoje ligado a um conhecido lugar no cruzamento das E. N. 109 e 223, recorda o momento importante no avanço do processo viário em Ovar (construção da E. N.), e tanto poderá reportar-se à ponte sobre o Cáster, a norte, que substituiu a velha ponte der(reada), que lhe ficaria um pouco mais a nascente, como a ponte sobre o rio das Lajes, a sul.
Nesta mesma estrada, há pequenas pontes sobre a levada dos moinhos das Luzes (a sul da estação da CP) e sobre o rio da Arruela (ou das Luzes), junto ao Lopo (Madria).

No caminho da Moita, por onde o rio Cáster se estende até à Ria, há uma ponte de pedra, hoje semi-destruída. (Com o derrube da parede do lado esquerdo perdeu-se uma grande pedra de granito onde estava gravada uma legenda que tive oportunidade de ver há alguns anos atrás, mas que não consegui interpretar totalmente). 
Ponte da Moita
No caminho da Moita, por onde o rio Cáster se estende até à Ria, há uma ponte de pedra, hoje semi-destruída. (Com o derrube da parede do lado esquerdo perdeu-se uma grande pedra de granito onde estava gravada uma legenda que tive oportunidade de ver há alguns anos atrás, mas que não consegui interpretar totalmente).

PONTE PAROQUIAL ANNO 1860   F E I T A
 PELLOS SEGUINTES MANOEL GOMES
COENTRO JOSÉ GOMES PAXECO FRANCISCO
GOMES LEITE JOÃO ESTEVÃO

ANTÓNIO (?) SANTOS SOBREIRA   MANOEL 
DE OLIVEIRA BARBOZA   ANTONIO MAR
QUES DA SILVA FRA.co DE OLIVEIRA
LEITE    FRANC.º OLIVEIRA
DAMIAO DE OLIVEIRA
SILVA
DE

Texto publicado no n.º 32 da revista REIS/1998
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2011/11/pontes-de-ovar.html


ADENDA -----------------------------------------

Ponte João de Pinho
Esta ponte, mais airosa e larga que a anterior, custou 747.000$00, abriu ao trânsito em novembro de 1962. (Jornal "João Semana", 10/11/1962)


Sem comentários:

Enviar um comentário