10.3.12

A primeira planta da vila de Ovar

Revista REIS/2008
TEXTO: Manuel Bernardo

I- INTRODUÇÃO

Pormenor da «PLANTA DA COSTA DESDE A VILLA DE OVAR ATÉ AO PORTO
 com a demarcação de hum canal projetado por Izidoro Paulo Pereira» - desenho s/papel, 1778 (2261x459 mm)
Encontra-se na Biblioteca do Instituto Geográfico Português, cota CA 277 IGP

No início de 2006, o Padre Pinho Nunes referenciou a existência de uma «Planta da Villa de Ovar» na Biblioteca do Instituto Geográfico Português.
Vista e analisada essa planta, concluiu-se que deve ter sido desenhada nos finais do século XVIII.
O documento em apreço(1) é um desenho sobre papel, com um formato irregular (564 x 510 mm) e só não é uma carta muda porque nela aparecem as anotações «R. dos Pellames», «R. das Ortas» e «Pinhais».
O Instituto não dispõe de elementos que permitam identificar o autor ou autores da planta e determinar a data em que foi produzida, limitando-se a conjecturar que este documento poderá, eventualmente, ter sido um dos que «emigrou» para o Rio de Janeiro (quando D. João VI para lá embarcou, em 1807, na sequência da 1.ª Invasão Francesa), regressando a Portugal ao abrigo de um convénio de troca de documentos, celebrado entre o nosso País e o Brasil.
Seja como for, o documento tem uma enorme importância para a história de Ovar, uma vez que poderá ser a primeira representação gráfica da povoação, de que temos conhecimento.

 «Mappa Thopografico da Barra, Rios e Esteiros da Cidade de Aveiro com parte do Rio Vouga, e de toda a Costa, para o Norte, desde a dita Barra athe à do Porto, e para o Sul da mesma Barra athé defronte de Mira, com as sondas dos mayores cais nos Rios Salgados», de Izidro Paulo Pereira e Manuel de Sousa Ramos (510x205 mm). Biblioteca Pública do Porto. Reservados, pasta 19/23. Refere a Capela do Furadouro (séc. XVIII), a primeira das três engolidas pelo mar.

II - UM ALVITRE

Que razão poderia motivar a execução de uma planta de Ovar, nos finais do século XVIII?
Salvo melhor opinião, só podemos descortinar uma, a saber: no reinado Josefino, Pombal levou a cabo uma série de políticas tendentes a reorganizar o sector das pescas e a combater a concorrência galega na comercialização do peixe salgado (especialmente sardinha), no interior do nosso País(2).
Nessa época, o peixe salgado foi ganhando cada vez maior importância na alimentação das populações do interior, sendo a produção nacional insuficiente para o consumo e abrindo espaço para a actividade dos mercadores galegos.
Na procura de uma maior produção nacional de peixe salgado, Pombal aceitou, de bom grado, o estabelecimento, em Portugal, de catalães peritos na salga de peixe e de negociantes estrangeiros.
Entre estes recém-vindos, arribou à nossa terra Jean-Pierre Mijoulle, francês, natural do Languedoc, que, tanto quanto sabemos, introduziu entre nós as Artes Grandes e fundou um estabelecimento de salga na Costa do Furadouro, por volta de 1772.
Esta data, pelo menos, é a que podemos fixar, com base num documento do Arquivo Histórico da Cidade do Porto, já transcrito e divulgado por Aurélio de Oliveira(3).
Mijoulle deve ter sido um abastado comerciante e, sobretudo, um homem bem relacionado com a corte, facto que lhe permitiu estar bem no tempo do Marquês, e continuar tranquilamente os seus negócios após a queda de Sebastião José (Março de 1777), sem sair sequer beliscado pela «Viradeira».
Jean-Pierre Mijoulle foi também homem de vistas largas e, rapidamente, percebeu que o contínuo entupimento da Barra de Aveiro não favorecia os seus empreendimentos. Daí que tivesse avançado com a proposta de construção de um canal, «como em Languedoc», entre a Ria e a foz do Rio Douro.
Esta obra, a dar fé num documento apresentado às Cortes Constituintes realizadas no início do século seguinte, seria completamente custeada por Jean-Pierre Mijoulle(4) que, por isso, ficaria dono dos direitos de passagem pelo canal, que, devido ao entupimento definitivo da Barra, seria a melhor via de comunicação entre Mira e a cidade do Porto.
Sendo, na época, o canal alvitrado por Mijoulle, uma obra que só poderia ser projectada por engenheiros militares, foi (em Novembro de 1777, já em reinado Mariano) esse plano entregue a uma equipa liderada por Gilherme d’Elsden e formada pelo Sargento-Mor Engenheiro Isidoro Paulo Pereira e por Manuel de Sousa Ramos, Ajudante Engenheiro.
Nos documentos que possuímos, a transcrição das instruções dadas à equipa de engenheiros militares reporta-se unicamente às complexas obras de hidráulica referentes à resolução do problema da Barra de Aveiro e à navegabilidade do Vouga. Mas, na documentação cartográfica, que já foi referenciada por diversos autores e que se encontra na Biblioteca do Instituto Geográfico Português e na Biblioteca Pública Municipal do Porto, podemos verificar que aparece o traçado do canal que foi «projectado pelo Francez d’Ovar»(5).
Ora, é justamente na documentação cartográfica de que dispomos que podemos observar um facto: Isidoro Paulo Pereira e Manuel de Sousa Ramos já tinham conhecimento da topografia de Ovar, uma vez que a miniatura da planta da Vila já aparece representada em duas cartas, desenhadas em 1778.
Ao que parece, a «Planta da Villa de Ovar» o desenho incompleto que possuímos será um desenho preparatório da planta de Ovar, levantada e desenhada por Isidoro Paulo Pereira e Manuel de Sousa Ramos.
Com efeito, quem mais, na época, poderia ter-se ocupado do levantamento da planta de Ovar?
A razão do traçado da planta também parece límpida. Afinal, o canal projectado pelo «Francez d’ Ovar» passaria pelo centro da Vila.

Mapa com a mesma informação, mas de maiores dimensões (1470x421 mm).
Biblioteca do Instituto Geográfico Português - Cota CA 312 (IGP)
III - UM DEBATE EM ABERTO

É óbvio, que o alvitre aqui dado poderá ser alvo de contestação, por carecer ainda de base documental explícita. Repare-se que todos os trabalhos feitos pelos engenheiros militares eram descritos em ordens muito claras e ainda as não conhecemos, salvo num pequeno comentário, incluído numa obra de Adolfo Ferreira de Loureiro, transcrevendo um documento de 1780(6).
Todavia, é incontestável a prova documental das 2 cartas do acervo do IGP.
Para a objecção de que em apenas um ano não seria possível a Isidoro Paulo Pereira e a Manuel de Sousa Ramos levantar e desenhar todo o litoral desde Mira ao Porto, traçar a planta de Ovar e apresentar sondas de canais e ideias de projectos para melhorar a Barra só há uma resposta: quem mais poderia tê-lo feito, antes de 1778?(7)
Muitos problemas ficam, certamente, por resolver. Muitas perguntas continuarão a aguardar resposta. Por que razão se perdeu a memória desta planta? Por que é que ainda não foi descoberta documentação sobre os trabalhos de levantamento da planta de Ovar? Por que motivo os ovarenses do século XX estavam convencidos de que a planta apresentada em 6 de Agosto de 1911 era a primeira planta da sua Vila?

Notas:
(1) Cota CA 397, do Catálogo de Cartas Antigas do IGP.
(2) Cfr. OLIVEIRA, Aurélio de, Póvoa de Varzim e os centros de salga na costa noroeste nos fins do século XVIII: o contributo da técnica francesa.
(3) Idem, p. 117-118.
(4) V. Diario das Cortes Geraes e Extraordinarias da Nação Portugueza, Acta 173, Sessão de 11 de Setembro de 1821.
(5) Ver «Mappa Thopografico…» que se encontra depositado na BPMP [Reservados, pasta 19 (23)]. Cfr. Reprodução em anexo.
(6) V. LOUREIRO, Adolfo, Porto de Aveiro, p. 18.
(7) Humberto Gabriel Mendes, que já historiou toda a actividade dos engenheiros militares na zona de Aveiro no período pombalino, só referenciou trabalhos relacionados com a Barra e com a navegabilidade do Vouga. Provavelmente, os trabalhos de engenharia e cartografia efectuados durante o reinado de D. José passaram para a posse de Isidoro Paulo Pereira e Manuel de Sousa Ramos. Sabemos, agora, através de um mapa referenciado pelo senhor Padre Pinho Nunes [documento que se encontra na Biblioteca Pública Municipal do Porto – Pasta 19 (19)], que Isidoro Paulo Pereira trabalhou na nossa região entre 1777 e 1793, e que, após essa data, foi mobilizado para participar na Campanha do Rossilhão. Com efeito, um mapa das trincheiras na fronteira do Rossilhão, que foi «tirado» por Isidoro Paulo Pereira, tem a data de 1794.


Texto publicado no n.º 42 da revista REIS/2008
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2012/01/primeira-planta-da-vila-de-ovar.html

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