4.3.12

Aurora Almeida Libório – Uma perspectiva, duas dimensões

Revista REIS/1980
TEXTO: António Poças e João Costa       

Há quem diga e com razão que os poetas, e de certa forma os artistas, são o cadinho das transformações sociais ou o seu leitmotiv.
Todos aqueles que pretendem um mundo criador e progressivo estarão de acordo com esta ideia que vai muito além dum mero conceito estético. Quem não conjectura e não arrisca, auto-condena-se ao imobilismo e compromete o avanço dos outros.
O “Pro-activismo” não é cómodo. É fonte de riscos e incompreensões. Exige persistência, sem ser, necessariamente arrivista. É agressivo, sem ser violento.
O seu ideário é apodado, muitas vezes, de temerário e deslocado para além do tempo.
Tememos os teóricos porque o comodismo da vida pretende não ir para além de muita matemática exacta, sem acidentes de percurso. A ideia de progresso traz consigo um sentir, um pensar e um querer que transpõe esse conceito matemático, imbuindo-se de um inconformismo onírico. Por isso se diz que “cada vez que um homem sonha, o mundo pula e avança”.
Achou por bem a revista REIS 1980 trazer às suas páginas uma figura que pode afiançar muitos dos pressupostos a que acima nos referimos. Trata-se da artista Aurora de Pinho Almeida Libório, com quem, a pretexto da elaboração da capa da revista, tivemos o privilégio de privar por algumas horas. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

A pintora Aurora Almeida Libório
Artista vareira, nada e criada nesta Ovar, terra que tem sido tantas vezes má mãe e boa madrasta, fomos encontrá-la plena de ideias e de projectos que muitos benefícios irão trazer a este rincão vareiro.
Sabemos que, por modéstia, apanágio, aliás, das grandes almas, Aurora Libório preferiria não ver tratada a sua pessoa nestas páginas. Perdoar-nos-á, porém, o arrojo que pecará, isso sim, por ficar muito aquém do quanto haveria para dizer-se. Achamos que Ovar, sendo boa madrasta, tem que ser melhor mãe e não pode condenar ao anonimato, às vezes até a um certo ostracismo, os melhores dos seus filhos. Isto vale como confidência!
Por outro lado, a sua simpatia e vontade de viver, sobressaem de tal maneira nos seus diálogos, que se torna difícil a qualquer interlocutor libertar-se de contágio. Sem termos necessidade de recurso a quaisquer dotes de empatia, logo descobrimos um querer que não conhece procelas. Por isso, acreditamos nela. Do pouco que vamos dizer apercebemo-nos de duas coisas: primeiro que a artista Aurora Almeida Libório, através da sua pintura expressionista, patenteada em diversas telas, cheias de força expressiva, feita de tonalidades a um tempo fortes na expressão e suaves na harmonia, é bem o campo de uma batalha sem tréguas, que se interroga sem recorrer à escolástica. Facto curioso na sua pintura: não é repetitiva.
Tela pintada por Aurora Almeida Libório
(Igreja Matriz de Válega, Ovar)

FOTO: M. Pires Bastos
Não pretendemos esmiuçar o seu palmarés artístico que se cifra em algumas exposições já efectuadas. Para um futuro próximo, irá participar num intercâmbio cultural no Japão, englobando artistas de todo o mundo.
Efectuou trabalhos a óleo, aguarela, pastel, carvão e outros.
Muitas das suas obras enriquecem colecções no Brasil e na Itália.
Falamos no título em duas dimensões. À de artista já nos referimos. Da segunda vamos falar de seguida. Pretende levar a cabo um empreendimento turístico em Ovar que é a “menina dos seus olhos”.
Trata-se de um hotel de 4 estrelas a implantar em terreno situado na quinta das luzes, propriedade sua, localidade aprazível, junto aos velhos moinhos, que envolve números realmente avantajados para uma terra onde impera um cepticismo inato.

Em cima, a casa da pintora Aurora Almeida Libório, na antiga Quinta das Luzes, do Dr. João José da Silveira
(o "João Semana" das Pupilas do Senhor Reitor). Em primeiro plano, os antigos moinhos das Luzes e, à esquerda,
o Hotel Meia-Lua, obra sonhada e construída pela artista ovarense 
Podemos adiantar que está superiormente aprovado e a obra, em fase de arranque, estando o aspecto financeiro (que envolve cerca de uma centena de milhar de contos) desbloqueado, por parte do Fundo de Turismo, em Lisboa.
Comportará 5 pisos, com 54 quartos, cave, biblioteca, sala de leitura, piscina, salas para reuniões e ainda salões de barbeiro e cabeleireiro.
Em terrenos próximos ao hotel prevê-se a construção de uma zona residencial, constituída por dois blocos e algumas moradias.
Um dos óbices, entre outros, que terá levado a edilidade local e outros organismos a desinteressar-se do empreendimento, poderá ter sido a ocupação efectiva do hotel, ao longo de todo o ano, sem quebras sazonais.
Tal facto não se verificará dado que certas firmas garantem, por parte de alguns dos seus quadros técnicos, uma ocupação em épocas menos fortes do afluxo turístico.
Para rematar, já que não fomos exaustivos na linguagem dos números, podemos dizer que, finalizado esse empreendimento, ele será o maior e o mais moderno do distrito de Aveiro.
Aurora Libório lutou contra muitos empecilhos que não vamos identificar, mas a sua fé inquebrantável no sucesso e no bairrismo (como ela diz), impeliram-na sempre na concretização daquele sonho já antigo, prestes a tornar-se realidade.
É claro que dois amores tão profundos o da pintura e do projecto do hotel são fortes demais para os realizar ao mesmo tempo. Assim, como pintora, refreou um pouco o seu idílio com a pintura, até que o hotel se erga, sobranceiro, para vergonha dos tímidos e incrédulos e estímulo dos que acreditam no sucesso com risco.
Então, vê-la-emos de novo dedicada à pintura, talvez com outro estilo inovador, porque a artista não se repete, insinua, procura…

Antigas instalações do Almeida dos Vinhos, pai de Aurora Almeida Libório, onde a artista
pintou a tela da Igreja de Válega (ver foto em cima)

Texto publicado no n.º 14 da revista REIS/1980

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