15.4.12

O Torreão do ti Afonso

Revista REIS/1980
TEXTO: Manuel António da Silva Costa

Torreão do ti Afonso, em Ovar
Saudades sinto, do tempo passado
Tempo em que sorria meu coração
Tempo vivido, quimera!, sagrado!,
Em que só via aquele Torreão…

Meus sonhos eram gaivotas brancas!
Meus dias doces sementes da ilusão!
Voavam meus olhos, frases francas
Até às ameias daquele Torreão…

Assim escrevia o poeta vareiro, revivendo cada instante da sua melopeia, seus dias doces sementes da ilusão…
Também a mim e, desde pequenino, esse Torreão tem suscitado múltiplas fantasias: primeiro, um castelo onde viviam as fadas dos meus sonos de criança; depois, a fortaleza dos heróis que eu próprio inventava e já na adolescência o palácio que servira de guarida a algum rei que por aqui tivesse passado em jornada… E só agora, a resposta às minhas efémeras veleidades!

Veio da Inglaterra a contemplação
Nos olhos dum homem trabalhador…
Embelezou Ovar com um Torreão
Onde nada é pedra, tudo é amor!...

Afonso Martins

É este o homem a que se refere o poeta nosso conterrâneo!
Natural de S. João da Madeira, o Afonso, vinha frequentemente a Ovar. Aqui travou conhecimento com Grácia Lopes, rapariga vistosa e órfã desde tenra idade, que vivia sob protecção de um tio, de cujo nome muitos certamente ainda se recordam: José Maria Vinagre, o ti Cabilha, por alcunha!
O tio de Grácia Lopes era na altura um médico-burguês, casado com a Sr.ª Marquinhas Saborino, irmã do saudoso padre Saborino.
Do casal não houve herdeiros directos, razão porque a maioria dos bens foram legados à sobrinha a quem tanto acarinharam e educaram.
Veio pois, Afonso José Martins encontrar um excelente partido… e o poeta continua:

Falador, cortês, simples, amável
Não era vareiro, mas vareiro morreu.
Aqui, juntou o útil ao agradável
Grácia Lopes a flor que ele colheu…

Foram um casal feliz e exemplar – dizem os actuais que tiveram a ventura de os conhecer. Afonso José Martins era um homem mediano, sensível, rigoroso por vezes, falador e um grande admirador do mundo da Arte.

Em vinhos era mestre entendido
De carinhos enchia a casa ao tecto.
Eis, quem nunca se deu por vencido
Por ser sonhador, familiar, recto!

E aqui temos o homem que viria a construir o Torreão da Praça das Galinhas que encima a nossa Vila e atrai as atenções das gentes que por aqui passam em visita. De todos os lugares se o avista!

Foi numa viagem…

Estas são as palavras duma nossa entrevistada:
– Já lá vão tantos, mas… Olhe, sei que o Afonso deslocou-se em viagem de recreio ou negócios – não sei? – à Inglaterra com o Manuel Soares Pinto, seu amigo íntimo, e a ideia do Torreão, creio, foi influenciada pela contemplação que os dois amigos experimentaram perante a arquitectura inglesa… O Afonso sempre teve o sentido da Beleza, apesar de ter sido um comerciante. E acho que dentro das suas possibilidades demonstrou em Ovar esse particular pessoal. Aliás, o Torreão mais não servia senão para arrecadar amostras de vinho e armazenagem de barris… Envelhecia o vinho, sabe? Ah! E negociava azeite, também. Existe ou existia, sei lá!, uma chaminé afunilada do lado esquerdo por onde evacuavam o fumo e o cheiro do azeite aquecido em caldeiras… isto no Inverno!

O Mestre dos Mestres

Francisco Pomba foi o autor da maqueta do Torreão. Era na altura um homem prático, inteligente, admirado e muito procurado pelas gentes do seu tempo, de tal forma que era considerado o mestre dos mestres. De suas mãos saíram muitos traçados de casas, as quais orientava depois na fase mais dura – a construção!
Francisco Pomba está deste modo ligado à história do Torreão tendo levado alguns meses a conceber a maqueta em madeira, cuja fidedignidade foi respeitada pedra por pedra, ameia por ameia, degrau por degrau, e até o cata-vento…
Como seria interessante vermos hoje essa maqueta no nosso Museu, por exemplo, se porventura ela ainda existe, esquecida nalgum amontoado de velharias! Seria até uma forma de nos relembrarmos mais vezes deste homem ou então de lhe debitarmos uma pequenina homenagem, facto que Ovar tem mantido no monte das coisas paradas, por mal de todos os pecados culturais desta terra.
Como curiosidade, digo-vos que o mestre dos mestres além de construtor civil foi o construtor do seu próprio caixão, e isto, porque era tão alto que temia ser enterrado de fato somente… Assim, manteve o seu caixão debaixo da sua cama durante muitos anos sem ansiedades nem temores. Homem corajoso e decidido, hem?!

O Torreão

Ainda que desligado de qualquer acontecimento ou facto histórico e até mesmo de interesse cultural, penso que o Torreão não merece o olhar de indiferença e a desimportância que lhe debitam.
Se o conjunto da obra não reúne particulares arquitectónicos de realce, o Torreão não deixa porém de emprestar ao panorama vareiro um tónico medieval que nos encanta.

O Torreão do ti Afonso, no Largo Mouzinho de Albuquerque (Praça das Galinhas)
[FOTO: JORNALISTA FERNANDO PINTO]
Descrevê-lo a pormenor seria desnecessário. A gravura que apresentamos no cabeçalho é por demais expressiva, aliás, foi executada a traço leve mas conciso por um dos seus netos mais queridos, de mesmo nome: AFONSO JOSÉ MARTINS.
Contornando a antiga Praça das Galinhas e subindo a Rua do Picoto, ergue-se uma muralha com ameias, quatro portas altaneiras e um portal arqueado, pouco trabalhado, em cujo topo poisa Hermes ou Mercúrio (filho de Júpiter, mensageiro dos deuses e ele próprio deus do Comércio…)
O rés do chão, cavado no morro, outrora ali existente, compreende os grandes armazéns. Os gradeamentos que protegem as portas, são o testemunho do bom gosto, da precisão e da habilidade dos nossos artistas-ferreiros de antigamente. Nesses gradeamentos destacam-se várias datas (1826, 1898, 1901 e 1910), as quais ainda não nos foi possível justificar. Todavia e segundo nos disse uma nossa entrevistada, as obras do Torreão deveriam ter-se concretizado na primeira década de 1900.
O primeiro andar do Torreão ergue-se sobre o lastro que cobre os armazéns; as paredes são encimadas por ameias; uma escadinha estreita e esguia dá aceso, pelo exterior, ao segundo e terceiros andares; quatro vigias ornamentam o primeiro lanço e um cata-vento firma-se num mirante alcandorado no lastro do terceiro andar; há janelas e nichos em todos os andares que permitem boa luminosidade ao interior.
À morte do titular, o Torreão, coube por herança a uma das suas filhas, Aurora Martins Pinheiro, quem por sua vez, legou aos filhos.
E AGORA?
Agora, está nas mãos do nosso Museu! Custou nada mais nada menos que dois mil contos!

Do meu terraço ainda te vejo
Ameias, o cata-vento, pedra nua…
Não será este o derradeiro beijo
Que te atira esta escrava tua…

Texto publicado no n.º 14 da revista REIS/1980

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