13.4.12

DOLOROSA MAIA – Dolorosa no nome e na vida…

Revista REIS/2003
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Dolorosa de Pinho Resende Maia
Completa 90 anos em 2003, e mantém o pleno uso das suas capacidades mentais, bem reflectidas no seu gosto de conversar – é uma comunicadora nata – e ainda há pouco tempo se ocupava das tarefas domésticas normais.
Dolorosa  de Pinho Resende Maia [CLIQUE NO LINK A AZUL] reside na Lagoa de Assões desde 1950, na casa que construiu com o marido, quando a variante da EN 109 lhe cortou a meio uma propriedade, e onde nasceram os últimos dos seus 10 filhos, todos ainda vivos.
A lavoura, na casa dos pais, na Ribeira, absorveu-lhe a infância e a adolescência, embaladas pelos serões das desfolhadas e por algum trabalho de costura.
A família marcou-a profundamente, desde os actos religiosos, que transbordavam de casa para a Igreja Matriz, onde cantava no coro da D. Carolina do Antero, e para a Capela de Santa Catarina, onde o próprio pai presidia às novenas de Maio e das almas e à devoção dos dias 13, até às tradições locais (ela é uma verdadeira enciclopédia do saber popular).
Pelos 16 anos foi duramente provada. Nem os termómetros tinham graduação para as suas elevadíssimas temperaturas. Desenganada pelo Dr. Tavares, a quem foi recomendada pela família Chaves, foi sacramentada. Sempre serena, confidenciou à mãe, compreensivelmente aflita: – Não chore, porque eu não morro!
- Tinha uma coisa dentro de mim. Nosso Senhor deu-me a vida, porque tinha de passar coisas mais tristes! – afirma ainda hoje. Não se chamasse ela Dolorosa…
Aos 17 anos, mulher forte e atraente, rejeitou o primeiro conversado. (Não queria homem de fora nem lavrador).
­– Poderias ser senhora de chapéu, mulher!
Com uma voz de excepcional qualidade, aos 18 anos foi “Verónica” nas procissões quaresmais.
­ ­– A Dolorosa nem teve catarro! – comentou com o marido a mulher do ensaiador, o Mestre Roma, ao escutá-la num dos ensaios. E “Verónica” ficou até ao casamento.
Ao escolher o consorte, um merceeiro de S. Miguel, alguém não se conteve:
­– Ele é mesmo como tu queres: rico, bonito e com emprego!
Só que os sonhos foram atraiçoados. Pela ganância do sócio, de lojista virou lavrador. Tentou novo negócio – primeiro uma pensão, na Rua Luís de Camões, junto à Praça das Galinhas, depois uma loja no rés-do-chão do mesmo edifício e, finalmente, a mudança do estabelecimento para a nova casa.
Ela, que não queria marido lavrador, teve de continuar lavradeira e de experimentar a vida do negócio. Ela, que não queria homem embarcadiço, sujeitou-se a ficar na loja e a aturar uma ranchada de filhos para que o marido, no trabalho duro, tentasse, no Brasil, aliviar o peso das hipotecas.
No último esforço de salvação, fechou a loja, deixou vários filhos e foi juntar-se ao marido, perdido no insucesso da padaria.
­– Sofri muito, mas nunca fazia nada sem me aconselhar com Deus! Certa vez, depois de chorar muito, ouvi na rádio que uma senhora, em cumprimento de promessa, subia, de joelhos, os 360 degraus da Senhora da Penha.
­– Mãe Santíssima, valei-me, que eu também os subirei! (Antes, por não estar para festas, não aceitara um convite para ir lá de carro…)
E cumpriu a promessa.
– Ao chegar lá cima, foi como se estivesse no Céu. Só me apetecia cantar. Cantei tudo o que me lembrou, confiante no poder de Deus.
A vida prosseguiu, não isenta de aflições suportadas e de muita dor sofrida, culminada com o regresso a Ovar e, pouco depois, com a morte do marido.
A tudo resistiu a sua personalidade forte, bem apoiada na robustez da sua fé e no carinho das suas filhas, que sempre a apoiaram.
Alguém a qualificou um dia: – Heroína, que venceste tudo!

Texto publicado no n.º 37 da revista REIS/2003

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Dolorosa Maia
Dolorosa de Pinho Maia, falecida em 21 de Dezembro de 2005 em Assões, com 92 anos de idade, viúva de António Maria de Pinho Alho Maia.
Mulher de grande fé e de grande coragem, foi interveniente, desde criança, nas actividades religiosas de Ovar.
Memória viva das tradições locais, como há poucos anos demonstrou no programa televisivo de Manuel Goucha, manteve-se em perfeita lucidez e serenidade até aos últimos momentos de vida, confiando no mistério da comunhão dos Santos.


Adeus, mãe!

Uma homenagem singela,
Ó mãe, te quer prestar
Esta tua filha Nela,
Dolorosa Maia com o apresentador Manuel Luís
Goucha (Programa "Praça da Alegria" da RTP 1)
Na hora de te sepultar

O senhor Abade chegou
Para encomendar o corpo teu,
E a tua alma voou,
Feliz, ao encontro, no Céu,

Do Deus que amaste em vida,
Amando-o na tua cruz.
Sê feliz, ó mãe querida,
Nos braços do bom Jesus.

Serei eu um porta-voz
Do sentir de todos os teus?
Então, manda para nós
A bênção do nosso Deus.

Recebe o meu último beijinho
E o meu amor também.
Damos-te com todo o carinho,
O nosso obrigado, ó mãe!

Nela Maia
(Filha de Dolorosa Maia)

(Jornal "João Semana" - 15 de Janeiro de 2006)

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