18.5.12

Maria Amélia Dias Simões – Uma artista vareira

Revista REIS/1967
TEXTO: António Coentro de Pinho

Pedem-nos para escrever duas linhas, traçando a biografia duma personalidade bem conhecida em Ovar – Maria Amélia da Silva Dias Simões.
Tarefa relativamente fácil se pudéssemos, e devêssemos, cingir-nos unicamente à pessoa visada.
Mas absolutamente impossível fazê-lo. E aqui começam, imediatamente, as inúmeras dificuldades que a tarefa nos apresenta, visto a necessidade de nos referirmos às fontes donde dimana aquele conjunto de faculdades, que deu à nossa biografada uma personalidade ímpar no nosso acanhado e restrito meio artístico.
E vemos na nossa frente o termos de falar daquela famosa dinastia – chamemos-lhe mesmo assim sem qualquer outro intuito que não seja o de dar o exacto sentido a estas palavras – o ter de falar, repetimos, dessa ilustre família de Vareiros, chamada Dias Simões, e que todos conhcecem.
Mas numa época em que quase só pontificam o futebol e o Yé-Yé, e em que manter o nosso Orfeão – damos apenas este pequeno exemplo – impõe uma tarefa verdadeiramente ingrata e abnegada, aqueles todos passa a ter uma amplitude bastante restrita.
Por tudo isto teremos, portanto, de nos alongar um pouco mais do que pensávamos, e fazer uma ligeira retrospectiva, especialmente dirigida às novas camadas, tanto mais que este despretensioso trabalho nos é solicitado por jovens e estes também serão os seus leitores mais numerosos.

Maria Amélia Dias Simões
(18/11/1900 - 02/10/1980)
D. Maria Amélia Dias Simões é, apenas, uma das muitas vergônteas duma frondosa árvore que começou a florescer em Ovar há mais de três quartos de século, e que, embora já contando três gerações de artistas, felizmente, ainda não feneceu.
Foi sem dúvida o seu espírito mais pujante e de maior brilho, justamente aquele que lhe deu origem e que em vida se chamou – António Dias Simões – nascido em 29 de Setembro de 1870 e desaparecido aos 22 de Dezembro de 1922.
Mas deixemos que, sobre o pai de D. Maria Amélia, fale um outro vareiro, ilustre a todos os títulos – o saudoso Dr. António Zagalo dos Santos e que no seu livro “Ovar na literatura e na arte”, e de que vamos transcrever uns tópicos, assim se exprime:

“Foi um dos filhos de Ovar melhor dotados para deixar de si, na lembrança dos seus conterrâneos, um rasto imperecível. Poeta, dramaturgo, historiador, calígrafo, miniaturista, tudo isso foi e de tudo poderia legar mais documentos de raro valor se, a cada um dos ramos de actividade mental, tivesse associado estudo sério, cuidados de acabamento. Foi um perdulário do talento com que o destino o mimoseou, mas um bairrista entusiasta, espontâneo, desprendido de qualquer interesse material como ninguém. Deveram-lhe os seus contemporâneos horas muito agradáveis, proporcionadas pelos seus trabalhos dramáticos, e Ovar, para as suas instituições de beneficência, encontrou-o sempre na primeira fila, à primeira voz para servir. A Misericórdia, os Bombeiros, a Associação dos Socorros Mútuos, o Orfeão, numa palavra, tudo e todos, quantos lhe bateram à porta para ajudar uma boa iniciativa, quando se lhes não antecipava, sempre o encontraram de braços abertos, sorridente, prestável, apagando-se em modéstia. Quanto fez, pagou-lho a consciência com a satisfação do dever cumprido; mas Ovar é que ainda o não fez, pelo menos condignamente”.

E nós, a propósito deste final, acrescentaremos: daqui a quatro anos todos os vareiros, terão oportunidade – impõe-se-lhes! – que paguem esta dívida em aberto, comemorando, condignamente, o primeiro centenário do nascimento deste distintíssimo Vareiro!
Do seu casamento com D. Leolina Pires da Silva, professora oficial do ensino primário, nascem-lhe quatro filhos – José, Manuel, Dulce, e Maria Amélia, mas somente esta última sobrevive, pois todos os outros a morte implacavelmente levou, e bem cedo.
E foi pena. Qualquer dos falecidos também honrava, e honrou, largamente, a sua ilustre ascendência.
Dos dois filhos barões, especialmente o José, foi notável em todas as modalidades artísticas que o pai havia largamente cultivado e, como ele, também sempre dentro do mais puro amadorismo.
Foram ainda o José e o Manuel Dias Simões, que mantiveram, e ainda mais alargaram e afervoraram, criando novas Troupes, o culto da bela tradição das noites de Reis, que seu pai, conjuntamente com João José Alves Cerqueira havia lançado ao organizar a saudosa Troupe dos Velhos, desaparecida com ele. D. Maria Amélia que, desde menina, teve uma marcada propensão para a música, vive também intensamente, ainda vivos os seus irmãos e com eles, e ainda depois de mortos, esta tão simpática tarefa.
Pode-se afirmar que de há quarenta anos para cá, ininterrupta e dedicadamente, esta ilustre Senhora vem alimentando, quase sozinha, as sucessivas Troupes de Reis que, ano após ano, vão surgindo, e para as quais já deve ter escrito centenas de letras e não menor número de músicas.
Foi este natural pendor que a levou, na altura própria, a matricular-se no Conservatório de Música do Porto e ali acabar por concluir, com brilho e distinção, o curso de piano.
Ainda em vida de seu pai e irmãos, com eles colaborou em todas as festas realizadas em Ovar, e não era possível efectuar nenhuma, então, sem a ajuda, a iniciativa e colaboração preciosíssimas da Família Dias Simões.
Extintos estes, D. Maria Amélia com o seu espírito compreensivo, nada dado a espavento ou ostentação, incapaz de dizer não a quem quer que seja, continua a colaborar em todas as festas quer profanas quer religiosas levadas a efeito em Ovar.
Durante muitos anos, e ainda hoje, maestrina do nosso Orfeão, ali continua a afirmar a sua competência e sensibilidade artísticas e a manter uma gloriosa tradição de família em tudo o que diga respeito à arte e à cultura.
Tradição de família, acabámos agora de escrever.
E como não o acentuar, se, além de tudo aquilo que já dissemos, não podemos deixar de referir que outros membros daquela ilustre família vareira vêm confirmar que “a voz do sangue” não é uma afirmação vã?
Manuel Dias Simões – já que seu irmão José não teve descendentes – deixa dois filhos que, conhecidíssimos artisticamente pelos nomes de Clara d’Ovar e Zéni, dispensam qualquer outra apresentação junto daquele vastíssimo mundo, que hoje se interessa e bem conhece o que vai pelo Cinema, pelo Teatro, pela Televisão e até pela Literatura, já não falando da extraordinária propaganda feita da nossa Ovar por essa Europa inteira.

Maria Amélia Dias Simões apreciando uma pintura do artista ovarense Emerenciano

D. Maria Amélia, tem também nos seus dois filhos – Edwiges Helena e António Manuel – mais dois lídimos representantes das honrosas tradições da Família, ambos distintos amadores da arte de Talma, como o foram seu pai, seus tios e seu avô, a primeira, ainda possuidora duma voz de verdadeiro encanto, largamente comprovado em inúmeros saraus artísticos de alto nível e o último, senhor dum diploma de médico distinto, obtido no Brasil e conseguido, unicamente, à custa da sua inteligência e de muito e muito sacrifício e extraordinária força de vontade.
Vai por demais longa esta nossa pequena digressão. Mas nenhuma culpa nos cabe de, por amor à verdade, termos sido obrigados a escrever, não apenas um esboço de biografia, mas um pequeno, embora descolorido, álbum biográfico.
Fui assim forçado, pelas razões já expostas, a não respeitar o pedido que me haviam feito de falar unicamente de D. Maria Amélia Dias Simões, a quem as nossas L. O. C.-J. O. C., e em muito boa hora e com todo o a-propósito, vão  prestar uma homenagem de gratidão e de respeito, absolutamente merecida.
Com esta, e felizmente, vai Ovar pagar uma dívida em aberto.
Sendo assim, ficamos certos duma coisa: que ao espírito gentil, delicado e sensível, e principalmente modesto de D. Maria Amélia Dias Simões, mais agradará, e melhor satisfará, que tenhamos falado mais dos Seus do que d’Ela própria. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]

Maria Amélia Dias Simões,
com sua filha Edwiges Helena


Outono

As folhas caem, tombam tristemente
O sol apaga-se no mar sem fim…
Lá vem a lua, branca e refulgente!
Qual puro lírio feito de marfim!

Cantam as aves, choram os ribeiros,
As fontes gemem canções divinais
A neve linda guarnece os canteiros
Morrem as folhas, soluçam pinheirais…

A mim eu te comparo, Outono lindo,
Que mesmo triste vais sempre sorrindo,
Quadra singela, de fascinação!...

Tuas folhas caem, tudo vão cobrindo…
Minhh’alma sofre… Que martírio infindo!
Cai neve dentro do meu coração!

D. Amélia Dias Simões
(Ovar, 23/XI/1939)

Texto publicado no n.º 1 da revista REIS/1967
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2012/05/maria-amelia-dias-simoes-uma-artista.html

Adenda -----------------------------------------



MAESTRINA

No Centenário de Maria Amélia Dias Simões

Há cem anos, abriram-se-lhe os olhos
à luz esplêndida de Ovar.
Do seu berço, rescendendo a rosas,
pendiam, preciosas,
colchas de névoas
com franjas e folhos
de espuma do mar.

Uma gaivota, fugida
da solidão das águas,
trouxe-lhe augúrios
de mágoas.
E numa voz doce,
como se fosse
mensagem dos Céus,
um anjo deixou-lhe
a bênção de Deus.
Nos canteiros floridos
colheu rosas.
Ornou-se delas, e disse:
 Coragem!
A vida é uma viagem
para aprender-se,
para cantar-se,
para sorrir-se.

E foi um hino de amor
a sua vida inteira,
entre alegrias mimadas
e horas amarguradas
de dor.

No fim,
na hora derradeira,
falou-lhe o anjo assim:
 Parte,
Maestrina,
e leva contigo a tua Arte.
E ela partiu
com música em surdina,
levando nos seus braços,
libertos já de cansaços,
um ramo de rosas para o Céu.

M. Pires Bastos
(Jornal "João Semana", 15/11/2000)

1 comentário:

  1. Conheci a D.Amélia e conheci bem a casa dela,por lá brinquei quando era criança,ainda me lembro,o Piano estava no salão de entrada do lado direito,eu teria na altura cerca de 8 anos. eram bons tempos!!Mais tarde com 16 anos também cantei no Reis da JOC,ensaiado pela D.Amelia,Grande senhora vareira:Paz á sua alma;José da Silva Lopes

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