5.7.12

Costureiras de Ovar

Revista REIS/2006
TEXTO: Rosa d'Assunção

Há umas décadas atrás, era quase tradição, em Ovar, as meninas oriundas de famílias pouco abastadas, feita a instrução primária, irem aprender a costura. É preciso dizer que, nessa época, só as meninas de maiores possibilidades financeiras continuavam a estudar, pois o Ensino Secundário, quase só ministrado em colégios particulares, ficava fora do alcance da maioria das bolsas.
Porque não se tinha desenvolvido ainda a Indústria e o Comércio do “Pronto-a-Vestir”, havia muitas modistas e costureiras, que se dedicavam não só à confecção, mas também ao ensino de corte e costura.

Carma Pinovai, Emília Mantilha, Celeste Guarda-fio, Lídia Maurícia, Rosinha Silva
 (futura mestra, com atelier - Rua Padre Ferrer), Nazaré Taira, D. Odete Carvalho (Saramago)
D. Odete Carvalho, aos 103 anos (foto tirada em 2009)
Em 2012, ano da edição do artigo na Internet,
está prestes a completar 106 anos

FOTO: MANUEL PIRES BASTOS
Pelos anos 30, era fácil encontrar-se, em qualquer bairro de Ovar, uma sala cheia de meninas aprendizes de costureiras, com a respectiva “mestra”, geralmente modista de gabarito, trabalhando quer para gente humilde, quer para senhoras da alta sociedade de Ovar.
D. Olímpia (do Benjamim)
Em S. Miguel, havia as grandes modistas D. Olímpia (do Benjamim), Marquinhas Ré, Rosinha e Marquinhas Castro, Raquel do Amaro, Maria do Céu Amaro, Conceição Lopes, Alicinha “Pombo”, Otília Pinho, Aninhas e Isaura Lírio, Maria do Carmo (Chapéu de Uvas), Idalina (Tanoeira), Verónica Patrício, Rosarinho (Brejo), Maria Fernanda Campos) e a Mariazinha Soares Couto que, mais tarde, passou para os Campos.
No Casal, havia a Rosinha Semanas e as irmãs Clara e Palmira Teixeira.
Na Praça, a Ester Craveiro, onde eu própria aprendi, e a Glorinha Lima.
Nos Campos, a Dorinda Arouca, Amélinha Tróia, Dalila Costa, Rosinha Silva, Maria Adelaide (Lai-lai Cacena).
Na Rua Padre Ferrer a Otília Muge.
No Outeiro, a Cecília Marcelino, Natália Rosas, Maria Arminda, Idalina Ferreira, Rosinha Vilas, Odília Sá, Mariazinha Sousa, Adélia Laborim e as irmãs Maria de Lurdes e Ana Laranjo.

Do grupo de colaboradoras e aprendizes de costureira – Mestra, Conceição Lopes
com residência na Rua Visconde de Ovar – S. Miguel. No 1.º plano da esquerda
 para a direita: Carma Rico, Almira e Rosa Pinho. No 2.º plano: Fernanda
 Patarena, Lurdes Pinho, Regina, Alice Lopes, Milu Patrício,
Conceição Teles e Lucinda
Destas modistas (mestras) saíram outras modistas, algumas até com Diploma de Corte e Costura, que fizeram carreira na arte de bem costurar como, por exemplo, a Aninhas Carapinha, Maria do Céu Peralta, Maria Raquel Travessa, Alzira Costa, Maria José Ribeiro, Deolinda Gomes, Clara Costa, Beatriz Oliveira, Maria Glória Pacheco, Ana Dias, Maria da Conceição Teles, Maria Graça Costa, Encarnação Duarte, Nazaré Loureiro, Isilda e Maria Ventura, entre tantas e tantas outras.
Algumas delas optaram, mais tarde, por outras profissões, talvez menos cansativas e mais lucrativas, mesmo em termos de futuro.

Mestra das Castro, na Rua Visconde de Ovar (lugar da Poça). De pé da esq. para
 a direita: Isaura Lírio, Rosinha Lírio, Marquinhas Castro (Mestra), Aninhas
Carapinha, Aninhas Lírio, Lurdes Pereira, Rosilha Linda e Nina. 
Sentadas: Rosinha Castro (Mestra) rodeada de duas irmãs de Lurdes Pereira

É justo dizer-se que quase todas estas costureiras, enquanto aprendizes, não tinham qualquer remuneração.
Havia outras que, para aprenderem, pagavam uma mensalidade, trabalhando para si e não para a mestra.
Para além destas modistas, havia costureiras menos conhecidas – mas não menos importantes –, que optaram por trabalhar em casas particulares e que, para além de confeccionaram as várias peças de vestuário, executavam arranjos em roupas usadas, por vezes bem difíceis de concretizar. Do velho faziam novo!
Lembro-me que em casa dos meus pais trabalhavam duas irmãs, a Margarida e a Maria, de apelido Oleiras, de quem tenho gratas recordações.
Ali, no Outeiro, havia ainda a Sr.ª Rita Gomes (mulher lutadora que, apesar de ter uma deficiência motora, fazia todo o género de costura, inclusive calças de homem), a Maria José Lopes (a Zezinha, que também foi catequista durante muitos anos), e a Sr.ª Dina Martins, entre muitas e muitas outras.
Ovar era, realmente, um alfobre de boas modistas e costureiras, com os seus ateliês montados nas próprias residências, confeccionando, segundo as tendências da moda de então, e apurando os seus gostos pelo gosto das suas clientes, ou pela consulta das parcas revistas da especialidade que existiam na época.
Ateliê de modista de Margarida Oliveira Luzes.
Grupo com as discípulas, na sua escola de Ovar (1913/1915?)

FOTO: RICARDO RIBEIRO - OVAR
Texto publicado no n.º 40 da revista REIS/2006

2 comentários:

  1. Gostei muito de ler este artigo, mas há uma correcção a fazer na legenda da terceira fotografia:a menina referida como Palmira na verdade não se chamava Palmira, mas Almira.
    Obrigada

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  2. Cara Almira,

    a correção foi feita de imediato. A Almira em questão é sua familiar? Pode dizer algo sobre ela de interesse para a nossa revista? Pode escrever-me para o mail fernandomopinto@gmail.com Obrigado, desde já, pela atenção. Cumprimentos do jornalista Fernando Pinto

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