14.7.12

Ourivesarias de Ovar

Há 150 anos eram uma “fartura”…

Revista REIS/1988
TEXTO: Manuel Pires Bastos
  
Diz Zagalo dos Santos em artigo do “Notícias de Ovar" de 28/10/1948, que em 1836 havia aqui estabelecidos onze ourives, acrescentando que “entre as artes e ofícios que nesta terra houve, o de ourives era o preferido e nele se contavam os homens mais instruídos e apresentáveis. Era ali que se recrutava a fina-flor do proletariado de então”,filhos-família que, à míngua de meios, não se podiam afoitar à conquista dos canudos de Coimbra, Lisboa ou Porto, e tinham artes de se esgueirar dos seminários”. Tantos eram os artistas, que “alguns se viram na necessidade de se fazer de vela para outras paragens, à cata de melhor pesqueiro”.
Por falta de poder de compra, a profissão foi desacreditada. “Ficaram apenas de pé as lojas dos ourives-vendedores, que no começo deste século, bem contados pelos dedos, eram ainda as melhores e as piores, umas sete ou oito”.
Mercadejavam-se os artigos (caixas de prata de rapé, castiçais, botões de punho, arrecadas, cordões com corações de oiro) em Santo Amaro, Alumieira, Arrifana, Coimbra, Tomar e Pombal, feiras afamadas “onde Ovar marcava nobre e exuberante sua presença”. Pouco a pouco, a crise chegou ao sector, ficando apenas uma casa que realmente é vareira e poderosa e mais outra e outra, que vieram para aqui pela gentileza de artífices agradecidos à simpatia que justamente merecem”.
Zagalo dos Santos evoca José Lopes Fartura, falecido em 1918, e que começara por artífice de prata, o qual, sendo de uma honestidade a toda a prova, acabou por abrir a mão à caridade, sobretudo, através de uma irmã, que pedia para ele, chegando a dizer de si: – “Tenho tanto de “Fartura” como o outro tem de sabedoria e aquela de rainha do Poço de Baixo” (Referia-se a um indivíduo meio demente e a uma mãe cheia de filhos e de miséria). Escreveu um folheto – “O Comunismo como devia sê-lo ou Nova Reforma Social, opúsculo romântico, ao alcance de todas as inteligências” (Out. 1872) – que, pelos seus disparatados conceitos, fez escândalo em Ovar.
Em 1868, havia oito lojas de ouro e prata, e em 1911 apenas cinco, a saber: “A do Carvalho, mais conhecida pela d’Amália de Sousa, situada no Picoto, a de José Plácido Ramos, na Rua de S. Tomé, a de Francisco Maria d’Oliveira Ramos, na mesma rua, a de José Maria Gomes Pinto e a de Manuel de Oliveira Ramos, na Rua das Pontes”. Em 1917, havia quatro.
Tentando sintetizar as nossas buscas, eis o elenco das ourivesarias vareiras que conseguimos detetar:

- Ourivesaria Moreira
Uma das mais antigas de Ovar. Localiza-se na Rua Alexandre Sá Pinto, e o proprietário, de sobrenome Moreira, veio a ser sogro de José Maria Lúcio Guedes, a seguir referido.

- Ourivesaria Guedes
José Maria Lúcio Guedes era natural de S. Miguel de Lobrigos (Santa Marta de Penaguião), indo trabalhar, muito novo, para o Porto, empregando-se, por volta de 1860, como oficial do ramo, em Ovar, na Ourivesaria Moreira atrás citada, vindo a casar com a filha do patrão, D. Amália do Sacramento Vaz Moreira, nascida em S. Vicente de Pereira.
Em 1876 José Maria Lúcio Guedes estabeleceu-se por conta própria, fundando a Ourivesaria Guedes, que viria a transferir-se em 1883, para Oliveira de Azeméis, vila que então não possuía qualquer casa da especialidade, e onde ainda perdura, na mão de um descendente.

Anúncio do "Almanaque Ovar" (1911)
- Ourivesaria Gomes Pinto
Pertenceu a José Maria Gomes Pinto, membro de uma ilustre família local, e situava-se, em 1911, na Rua de S. Tomé, e, posteriormente na Rua Elias Garcia, onde está hoje a Confeitaria Progresso.

- Ourivesaria de Francisco Maria de Oliveira Ramos
Situava-se, em 1911 na Rua de S. Tomé (atual Rua Luís de Camões).

- Ourivesaria de Manuel de Oliveira Ramos
Situava-se, em 1911, na Rua das Pontes (atual Rua Elias Garcia).

- Ourivesaria de Plácido de Oliveira Ramos
Citada num anúncio de 1911 como antecessora da que se segue.

- Ourivesaria de José Plácido Ramos
Que ficava no n.º 47 da Rua de S. Tomé (actual Luís de Camões).

Uma Ourivesaria «vareira e poderosa»

- Ourivesaria de Maximina e Emídio de Sousa
Situava-se no Largo do Chafariz (actual Largo da Família Soares Pinto). Trata-se da casa que realmente é vareira e poderosa”, referida pelo Dr. Zagalo dos Santos, e que deu origem à conhecida e forte Ourivesaria “do Carvalho”, de que fala o Almanaque de Ovar de 1911. Esta ourivesaria foi deixada pelos proprietários a sua sobrinha Amália de Sousa, que casou com Manuel Dias de Carvalho, transferindo-se então para o Picoto (esquina das actuais Ruas Heliodoro Salgado e 31 de Janeiro).

- Ourivesaria Viúva Carvalho & Filhos
Após a morte de Manuel Dias de Carvalho, em 10/04/1916, o estabelecimento atrás citado passou a pertencer à viúva e aos filhos João e Afonso Dias de Carvalho, com a designação de Ourivesaria Viúva Carvalho & Filhos.

Afonso Carvalho no dia do seu 70.º aniversário (02/08/1955), rodeado pelos filhos Amélia e Américo
e seus empregados. 1.º plano: da esquerda para a direita - António de Jesus, Alberto Neves e José Ribeiro.
Sentados - Frutuoso Ascensão, Amália Carvalho, Afonso Carvalho e Américo Carvalho.  De pé - Eduardo Elvas,
João Padrela, Mário Fonseca, José Neves (Peúgas), António Duarte, Carlos Viana e José Joaquim
Por morte de D. Amália, em 26/08/1956, aos 88 anos de idade, tomou conta da firma o filho mais velho, Afonso Dias de Carvalho, que a ela dedicou praticamente toda a sua vida (02/08/1885 - 23/09/1971, dando sociedade, alguns anos antes da sua morte, a seus filhos Amália e Américo, passando o estabelecimento a designar-se Afonso Dias de Carvalho & Filhos, Lda., que ainda se conserva.
A Ourivesaria Carvalho  –  é com esta designação que é conhecida há várias dezenas de anos – granjeou fama em todo o Norte e Centro do País, rivalizando com as melhores do Porto e com a Gomes, da Póvoa de Varzim. Procuraram-na as gentes da Beira Interior, usando a expressão “ ir à fábrica” para significar vir aqui.


A sua expansão contribuiu para o enfraquecimento das casas congéneres de Ovar, que por isso mesmo foram fechando. Chegou a ter uma dúzia de empregados, entre joalheiros e relojoeiros.
Na década de 50, trabalhavam ali: ourives- António Simões e José Peúgas (joalheiros), João Padrela, Eduardo Elvas e António (consertos); como relojoeiros:- Albino Neiva, Moreira (que fundou a relojoaria com o seu nome, na Rua Elias Garcia,  n.º 56), Rodrigues, António Salvador Vieira (do Porto), Alfredo (de Arouca), António Jesus ( hoje com relojoaria no Furadouro), Frutuoso (relojoaria grossa), Francisco Soares Couto, Joaquim e Áureo Neves, este com estabelecimento de relojoaria e óptica na Rua Cândido dos Reis desde 1967).

Mais recentemente…
Ourivesaria de Miguel Queirós Mesquita (em sociedade com João Bonifácio), na Rua Elias Garcia (na casa hoje rebaixada), perto da ponte. Quando fechou, parte do seu stock foi adquirido, juntamente com as ferramentas, pela Ourivesaria Carvalho.
Ourivesaria Neiva, de Albino da Costa Neiva, ourives-joalheiro formado na Ourivesaria Carvalho, e hoje ausente no Brasil. Ficava na Rua Dr. Manuela Arala, frente à actual Relojoaria Ovarense.

Relojoeiros
O primeiro e mais forte relojoeiro de Ovar foi António da Cunha Farraia, importador, estabelecido na Rua Elias Garcia (actual casa da Agência Queirós), que cunhava peças com o seu nome.
João Laranjeira, de Cimo de Vila (Ovar) ao regressar do Brasil com dinheiro e com experiência em relojoaria, montou uma oficina na casa natal e uma barraca na antiga praça da hortaliça (junto à escola Conde de Ferreira). Esse quiosque, que passou, sucessivamente, para seu filho António José Ferreira Laranjeira (ainda vivo, com 97 anos), foi demolido quando da construção do Palácio da Justiça. (Um outro filho, também de nome João, e que também foi emigrante no Brasil, estabeleceu-se como ourives em Albergaria-a-Velha).
António Ferreira Laranjeira (à esquerda)
e Manuel Augusto Ferreira Laranjeira (quando relojoeiro e na actualidade) 
Augusto Ribeiro possuiu uma relojoaria na Rua Elias Garcia, junto ao rio (actual Agência Barbosa), passando-a a um filho que, por sua vez, a cedeu, em 1956, a António José Moreira.
António José Moreira instalou-se junto ao Rio (actual casa de Seguros), mudando-se, dois anos depois, para o actual estabelecimento, que passou, em 1987, para seus filhos António Manuel e Ana Maria e para Virgílio Dias Trindade.

Texto publicado no n.º 22 da revista REIS/1988

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