24.7.12

Telha da Regedoura em Válega

“Ó tio, bote!…”

Telha da Regedoura
FOTO: FERNANDO PINTO
Revista REIS/1994
TEXTO: Américo Matos

Era no tempo da Segunda Guerra Mundial, como já havia sido, anos antes, com a Guerra Civil de Espanha. Diz-se que, então, o pão de Portugal matou a fome às tropas franquistas que abafaram a proclamada República Espanhola.
O caminho da Regedoura, frente à linha, estava cheio de lenha para abastecimento das locomotivas a vapor. Havia falta de carvão, e os comboios faziam, ali, paragem forçada. As carruagens eram logo envolvidas pela “canalha”, faminta, que rogava aos passageiros que deixassem cair alguma moedinha. “Ó tio, bote, bote!…” era a prece lúgubre titubeada pelos pequenos mendigos de olhos arregalados para os “tios” que viajavam no comboio, símbolo do conforto que muitos deles não haviam experimentado ainda. A “canalha” de então, ou o que sobrevive dela, anda hoje pelos sessenta anos.
Quarenta e tantos anos antes, um grupo de proprietários e negociantes requerera à então Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses a implantação de uma paragem dos comboios junto à passagem de nível ao quilómetro 296, 934 da Linha do Norte. Alegavam a necessidade de deslocações frequentes a Espinho e Aveiro.
O apeadeiro de Válega entrou ao serviço em Novembro de 1902. O negócio era, então, o da cerâmica rudimentar da telha da Regedoura, considerada de boa qualidade e muito procurada em toda a região.
O barro preto era extraído nos barreiros cujos vestígios se podem admirar a meio caminho entre a Regedoura e a Senhora de Entráguas. Era necessário remover uma grossa camada superficial de areia e destruir, a machado ou picareta, uma segunda camada de terra castanha, compacta e dura, a que aqui chamam “zorra”. Só então ficava a descoberto a camada de barro, extraído a braço e transportado para os terreiros em carros de bois.
Cais do Puxadouro, Válega, onde muitas das telhas da Regedoura
eram embarcadas para a região de Aveiro

FOTO: MANUEL PIRES BASTOS
Esgotado o barro, surgia o lençol freático, que inundava de água o barreiro, sendo então necessário desviá-la para pequenos poços, donde se extraía com bombas, à força de braços, para que se pudesse alargar e continuar a extração.
Uma vez no terreiro, o barro era amassado com os pés, e estendido em camada fina sobre grades formadas por toros de madeira, que serviam de molde às telhas. Cortado o barro com um fio ou arame no tamanho adequado, os moldes eram colocados sobre areia, de modo que, ao serem ripados, ficavam as telhas moldadas.
Depois de ganharem consistência durante um dia ou dois, as telhas eram colocadas nos fornos colectivos, alimentados durante um dia inteiro a queimar rama ou lenha de eucalipto. Logo a seguir eram tapados, deixando-se a telha a cozer de quatro a dez dias, conforme a força do sol. Então, cada proprietário desenfornava as suas telhas e ocupava-se da sua venda e respectivo transporte.
Trabalhadores com alguns amigos e familiares, junto a um dos fornos
de telha da Regedoura, Válega
Havia famílias que se dedicavam quase em exclusivo a este fabrico artesanal. Outras, porém, faziam-no apenas nas épocas em que a lavoura o permitia, aproveitando, assim, a mão-de-obra disponível.
Não se conhecem fortunas ou sequer valores patrimoniais avultados decorrentes desta actividade.
O golpe de misericórdia nesta indústria descapitalizada foi dado com o aparecimento das cerâmicas mecanizadas, com a matéria-prima a ser transportada muitas vezes de barco, pela Ria de Aveiro, a partir do Boco, de Vagos e de outras proveniências.
Desaparecidos os fornos e os terreiros, já não restam sequer os barracos toscos de adobes ou de pedra de lousa, argamassada com barro, adaptados, posteriormente, a humildes habitações dos raros protagonistas ainda vivos.
Sobraram apenas as covas dos barreiros, hoje ocupadas por pinhal, autênticas lanças apontadas à memória dos vindouros, para que não se esqueçam de que aqui houve trabalho insano de mãos e de pés extraindo e amassando o barro preto, com sangue, suor e lágrimas.
Telha da Regedoura - FOTO: DR

Do trabalho agreste
à doçura do vira…

A famosa telha da Regedoura, também chamada telha “grossa” ou nacional, era fabricada no lugar com aquele nome, da freguesia de Válega, onde, segundo Monsenhor Miguel de Oliveira na monografia “Válega”, havia, em 1884, seis fábricas de telha”.

Crucifixo no altar da Capela de S. Gonçalo,
em Válega
 - FOTO: MANUEL PIRES BASTOS
Pinho Leal, no “Portugal Antigo e Moderno”, onde descreve pormenorizadamente todo o processo de extracção, diz acerca da Regedoura: “É célebre pela óptima telha que ali se fabrica, a melhor do reino”.

É voz corrente que na crusta superior ao barro, formada por terrenos de aluvião, têm aparecido madeiros, mastros e outros despojos de navios, o que comprova ter o mar chegado até esta zona da costa, para aquém da Ria.
Junto à Senhora de Entráguas, na fronteira entre Válega e Avanca, mas já nesta última freguesia, ainda se encontram restos de telha redonda. Aí se localizava, segundo a tradição, um segundo núcleo de fabricação da telha do mesmo tipo, chamada de Fontela, povoação que fica mais para sul.

É da tradição popular que num destes fornos de Fontela foi queimado o corpo de uma mulher, vítima de homicídio, e que, em consequência disso, o forno foi destruído, dando lugar a uma Capela, de que restam alguns vestígios, e cuja imagem do Sr. Crucificado foi transferida para a Capela de S. Gonçalo (na foto).

Conversámos com o Sr. Manuel Joaquim da Silva (na foto), um venerando e ainda lúcido e activo ancião de 88 anos, ali nascido em 1905 e que na sua juventude e nos primeiros anos depois do casamento, realizado em 1927, trabalhou na extracção do barro para Delfim Rodrigues (de Santo Amaro), dono de um forno, e para Manuel de Pinho (Poeira) e António Fonseca (Padáchinha), que também o utilizavam.

Manuel Joaquim da Silva, ainda escorreito nos seus 88 anos. Foi carreteiro de telha
e trabalhador nos barreiros e fornos da Regedoura
- FOTO: FERNANDO PINTO

Havia, nesse tempo, mais a nascente, perto da linha férrea, outro forno de telha, pertencente a Manuel José da Silva e, posteriormente, a seus filhos, onde também laborava, por aluguer, a família dos Irmãos Unidos (pai e filhos).

Um terceiro forno, o mais antigo, fora adquirido, juntamente com o primeiro, a José Casanova, do lugar de Vilar, e a outros sócios, por Delfim Rodrigues, que logo o destruiu, por estar arruinado.

Afirma o nosso entrevistado que nesses dias, em que trabalhava em permuta de serviços e, portanto, gratuitamente, se juntavam mais de cem pessoas, na maioria mulheres.

Nos intervalos das suas ocupações agrícolas, o Sr. Manuel Joaquim fazia carretos de louça dos diversos fabricantes para a Granja, Espinho e para os mais diversos locais, ganhando 50$00 por viagem, normalmente feita durante a noite.

Segundo informações recolhidas há poucos anos de D. Maria de Jesus da Silva, então com 87 anos, os “poços” tinham cerca de 9 a 10 metros de profundidade, e o serviço era muito perigoso, chegando a morrer algumas pessoas quando o barro “arrunhava”.

As mulheres ganhavam nesse trabalho 4 vinténs (moeda de cobre que valia 20 réis), e algumas 1 tostão (100 réis ou 10 centavos), e os homens o dobro.
Aplicações várias da telha da Regedoura
FOTO: MANUEL PIRES BASTOS
Quer um quer outro destes informadores salientam que, apesar de a vida ser muito dura e pouco compensadora, a Regedoura era alegre, pois os trabalhadores, sobretudo as mulheres, juntavam-se todos os domingos para recolher a telha, acabando por ali passar a tarde a dançar o vira e outras modas populares dessa época.

Pela Equipa redactorial

Texto publicado no n.º 28 da revista REIS/1994

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