20.8.12

Arte e memória dum povo – Pirotecnia em Ovar

Revista REIS/1984
TEXTO: Maria Júlia Rangel

Não há memória de quando e como foi a origem da arte do fogo. Sabe-se que os povos antigos, principalmente os asiáticos, tinham grande entusiasmo por esta arte, que animava os festejos. Não havia festa nocturna que não fosse animada por uma esplendorosa variedade de fogos de artifício de toda a ordem.
Foram talvez os chineses os primeiros povos a dedicarem-se a esta arte. Mais tarde passaram os seus conhecimentos aos gregos e romanos. Estes últimos deixaram descrições de festas nocturnas nas quais a arte do fogo tinha papel importante. Podemos mesmo dizer que foram os romanos, de todos os povos, aqueles que maior desenvolvimento, sob o ponto de vista técnico, deram a esta arte.
Como nessa altura a pólvora era ainda desconhecida, o elementos principal era o óleo de nafta, ao qual se misturavam diferentes resinas e gorduras, bem como as substâncias minerais. As combustões faziam-se com grande fumo e um forte cheiro, finalidade que preocupava os mestres pirotécnicos dessa época.
Só em fins do século XII teve início o fogo do ar. Com a invenção da Pólvora, a pirotecnia teve um grande impulso, mas só foi no século XVIII que a indústria do fogo de artifício teve maior incremento, dado pelos franceses e espanhóis. Mais tarde, tirando-se partido dos progressos da química, introduziu-se a inovação das cores, o que produziu uma completa mudança na arte dos foguetes e lhe deu uma nova vida.
Em Portugal, os fogos de artifício tornaram-se muito populares, figurando em todos os festejos públicos e procissões.

Fogueteiros de Arada
No concelho de Ovar, em Arada, há já muitos anos que a família do Sr. Domingos Correia Alves se dedica a esta arte. Há tantos anos que nem mesmo ele sabe desde quando. Mas já o seu bisavô era pirotécnico e falava dos seus antepassados, que naquele mesmo local tinham uma oficina.
Ao contactá-lo, com a sua voz muito calma, mas pondo um grande entusiasmo nas suas palavras, ele diz orgulhar-se de pertencer a uma família com grandes tradições no campo da pirotecnia. Diz que seus filhos também são pirotécnicos e os seus netos hão-de vir a ser também. E acrescenta: “Sabe, é um gosto que já nasce connosco. Aqui somos criados e para a nossa arte vivemos, mais até pelo amor do que pelos lucros que ela nos dá".
Embora os processos de fabrico, bem como os utensílios que o senhor Domingos e seus filhos Manuel Felisberto e Jaime utilizam sejam muito parecidos com os que os seus antepassados utilizavam, os materiais são já um pouco mais modernos e sobretudo as suas oficinas oferecem maior segurança. Tive oportunidade de as visitar, e fiquei assim com uma pequena ideia sobre os materiais e processos usados no fabrico do fogo.
Há três espécies de fogo: o que arde no ar (fogo solto), o que arde no chão (fogo preso) e o que arde na água (fogo aquático).
O foguete divide-se em duas partes: o canudo, onde vai a carga que o faz subir, e o invólucro, onde vão as cores ou as bombas.
O canudo, que antigamente era de cana, mas com alguns inconvenientes, é agora de cartão prensado. Nele se introduz, até certo nível, barro, que tem de ser muito fino e sem impurezas, pois apenas uma areia poderá originar uma explosão, provocando assim um acidente. E a propósito, conta o Sr. Domingos que no tempo do seu pai, na década de 40, a sua família foi vítima de um descuido desses, o que originou a morte de cerca de 10 pessoas. O pirotécnico tem de ser cauteloso, atento e corajoso, pois todos os dias ele brinca com a morte.
O barro colocado no canudo tem a função de impedir que a pólvora se escape por essa extremidade. Com um maço de madeira, ele bate na cavilha da pua, calçando repetidas vezes (36 marteladas de cada vez que introduz pólvora) para melhor a acamar, pois quanto mais pólvora levar mais forte fica o foguete e mais alto ele sobe.
A escorva é a quantidade de pólvora necessária para a subida. Se estiver mal batida, o foguete poderá rebentar nas mãos do lançador. É no escorvar dos canudos que está todo o saber da fabricação do foguete.
Depois de concluída a confecção do canudo, faz-se a cabeça com uma tira de papel apropriado. Esta operação tem o nome de empapuçar. Fica assim feito um reservatório (maior ou menor) para introduzir as caixas de pólvora de tiros ou de cores. Depois de atada, prende-se à cana. A carga de uma cabeça poderá ir desde 100 gr. até 1 kg.
Segundo diz o Sr. Domingos, os produtos químicos utilizados são quase todos de origem estrangeira (especialmente de origem inglesa, sueca e alemã), o que torna mais caro o fogo. Hoje uma dúzia de foguetes poderá custar três mil escudos.
Na confecção do fogo de tiros entra o clorato de potássio, enxofre e alumínio forte. Este dará uma violência ao arder, e faz rebentar o clorato de potássio, provocando o tiro.
Outros produtos como o carbonato de potássio de estrôncio, o oxalato de sódio, o nitrato de Chile, antimónio da pólvora, magnésio alva, carbonato de cal, etc., são também utilizados na confecção dos foguetes e, quando devidamente combinados, dão bonitas cores e belos efeitos ao explodirem.
Fogueteiros de Arada
Neste campo, em Portugal tem-se já aperfeiçoado bastante. Cada pirotécnico, valendo-se dos seus conhecimentos e das velhas receitas, apresenta invenções suas, estabelecendo assim uma vasta concorrência, em face da diversidade de elementos de que a pirotecnia dispõe e da facilidade de os combinar.
No que diz respeito a cores, cada uma é formada a partir de um determinado elemento. Assim, o vermelho é originado pelo carbonato de estrôncio, o amarelo pelas sodas, o branco pelas potassas, etc.
Quanto às canas, quanto mais direitas forem, melhor o foguete subirá na vertical. A cana, que pode atingir 1,70 m, tem por finalidade guiar o foguete que, por vezes, poderá atingir 170 m de altura. Devem ser leves, para facilitar a subida.
Uma sessão de fogo pode ter diversos tipos de foguetes:
- girândolas (o seu nome pirotécnico é bouquet) é a largada simultânea de muitos foguetes com cerca de 100 gramas de carga, de uns caixilhos de madeira, com uns orifícios, onde os mesmos se encontram;
- balonas de cores, que são enormes cartuchos de papel, onde são introduzidos diversos foguetões;
- fogo preso (foguetes presos em armações de madeira com pés altos e fixas no solo). Estes foguetes são envolvidos em papel forte e ligados pela guita de estopim, para que todos sejam activados conforme o efeito e o seguimento dos feitios que se pretendem, por vezes de uma grande variedade. Os movimentos, neste tipo de fogo, são gerados pela força centrífuga dos canudos;
- fogo com pára-quedas, que funciona por meio de pára-quedas (quando se pretende que os motivos desçam lentamente no espaço). Pode levar um ou dois, conforme se pretende que o motivo desça na vertical ou horizontalmente;
- fogo aquático, construído unicamente por tubos de papel muito forte, sem cabeça. Numa das extremidades leva um peso (geralmente areia e cimento) para equilibrar o resto do canudo, que leva uma parte com carga e outra oca. A carga é feita com caixas de cores, e leva um rastilho, que sai pela parte oca do canudo, demorando o tempo necessário para que a carga expluda mal caia na água. A cachoeira ou queda de água, que é um efeito especial do fogo aquático, simulando uma cascata, é originada pelo reflexo, na água, de muitas caixas de cor agarradas por um fio e unidas pela guita de estopim. O fio atravessa o rio, ou o local onde o fogo é apresentado, agarrando-se ao tronco de duas árvores ou de estacas colocadas para esse fim.
Após estas explicações, e depois de ter feito algumas demonstrações de fogo de cores, o Sr. Domingos, de 55 anos, cuja viuvez recente o tornou mais triste, diz: “Até as mulheres da minha família são pirotécnicas; os meus netos sê-lo-ão também”.
É bom que todos os vareiros saibam que na sua terra há pirotécnicos que, de alma e coração, se dedicam à sua arte.    

Texto publicado no n.º 18 da revista REIS/1984
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2012/08/arte-e-memoria-dum-povo-pirotecnia-em.html


ADENDA -----------------------------------------

Foguetes em 1775
Na festa do Santíssimo de 1775 em Arada, Ovar, gastaram-se 3 mil reis em pólvora e foguetes e 600 reis com os "pretos que tocaram no dia da festa", e 3.360 reis, em 1780, em "foguetes e roda". Em 1813, 9 mil reis foram para o fogo, 1.300 para os padres e 12 mil para a Música.
Em 1818 gastaram 32.600 reis com o fogo e tambor, custando a música 4.800 reis.
Em 1832, a música levou 5. 400 e a armação 1.205 reis (Livro da Confraria do Santíssimo de Arada, folha 170).

Explosão em 1938
Em Abril de 1938 numa oficina de Pirotecnia de Arada houve uma explosão atiçada por um foguete fora da oficina ficando várias mulheres envolvidas pelas chamas, duas das quais viriam a falecer e três ficaram em estado grave, com queimaduras no rosto, nos braços e nas pernas. (Jornal "João Semana", 28/04/1938)

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