2.8.12

Ovar e as suas fontes

Revista REIS/1991
TEXTO: Pinho Lopes

Fonte da Ribeira, Ovar, antes de 1910, demolida anos mais tarde
Eram em tempos heróicos, puros e virginais em que o homem vivia paredes meias e em comunhão com a natureza, sem competir, conquistar ou destruir, antes colaborando, fruindo e usufruindo de todas as dádivas que esta mãe generosa sempre nos ofereceu e serviu ao longo da nossa existência.
Desde que o homem pisou as areias da camargue portuguesa, quer atravessando-a à procura do mar ou vice-versa, quer sulcando-a com o arado e charrua para dela receber o seu sustento ou dos seus animais, aprendeu a desejar, apreciar, amar e cantar as suas fontes que lhe ofereciam a água que o esforço, cansaço e sede reclamavam.
A devoção e reconhecimento dos homens das Terras de Ovar? Foi tão sentida e praticada que à principal, mais nobre e rica rua do seu povoado deram o nome de RUA DA FONTE, festejando também as diversas fontes existentes ao longo da sua extensão. E em tempo que não ultrapassa os 150 anos construíram uma praça centrada à volta de um digno e majestoso chafariz presidido pelo Neptuno dos romanos, mas a que os gregos sempre chamaram de Posídon.
Tudo isto foi do tempo em que a água se bebia das fontes e se transportava em cântaros ou jarras de barro ou então em canecos de madeira, mais resistentes e duradoiros. Ainda as águas, vendidas em frascos de vidro ou na praga de plástico, não tinham feito a sua aparição e o vareiro comprazia-se, orgulhava-se e cultuava as suas fontes que além de o dessedentarem a si, aos animais e às suas hortas ou campos, eram sempre pretexto para encontros e desencontros de bisbilhotice, amizade e amor que, se não davam em casamento, garantia falatório das comadres e sofrimento dos padecentes.
Para tudo serviram as nossas abençoadas fontes.

Antigo chafariz do Lamarão

Poetas de rima fácil e pensamento profundo sentaram-se nas suas orlas e sentiram que a vida flui como a sua água: nunca pára, nunca se repete, nunca é igual nem a mesma.
Há cinquenta anos atrás, a geração que nos precedeu olhou e preocupou-se com as fontes de Ovar: melhorou-as, tratou dos seus acessos e dos espaços circundantes, zelando para que as suas águas não fossem conspurcadas por meia dúzia de irresponsáveis egoístas que atentam contra os direitos, saúde e vida duma população inteira.
E, perante o abandono, desmazelo e descalabro a que deixaram chegar as nossas abençoadas e cantadas fontes,só nos resta sonhar!... Com quê? Com Posídon ou Neptuno.
“Levantou-se do mar e, com o seu tridente bem erguido e visível sentou-se no seu trono, no coração de Ovar, convocando, com ordem de urgência, todas as ninfas, náiades, nereides, oreades e as dríades para, reunidas em assembleia geral e plenária, deliberarem sobre todas as fontes, nascentes e ribeiros com que ornaram e dotaram a terra vareira.
Aberta a sessão e postas ao corrente da ordem de trabalhos que aprovaram por unanimidade, acomodaram as caudas e deram início à discussão:
– Chafariz de Neptuno, trono do nosso deus e nosso centro deliberativo.
“Não mais permitir que a água deixe de correr e cantar, mesmo que salpique algum humano descuidado que lhe passe ao lado, ou que ao seu redor pratique o tão apreciado desporto destas desenferrujadas e santas línguas vareiras.
 Fonte da Vila: Ao abandono, água conspurcada, obrigando a líquida assembleia a tomar medidas severas e drásticas para que a humana gente não volte a desprezar e abandonar tão generosa oferta. Única atenuante: a poesia bem inspirada e tão do agrado das náiades que reza assim.

Água pura e cristalina,
Fresquinha de consolar,
Vem de ti prós nossos lábios,
Mata a sede a quem passar

 Fonte da Mota: Abandono, irresponsabilidade e porcaria são crimes passíveis de penas graves. Nas traseiras, o esgoto a céu aberto, que outrora foi artéria de vida, até pelas lavadeiras foi abandonado. Apesar de enternecidas pela poesia ali gravada:

Pobre ou rico, isso que importa?
Dá-lhe a todos de beber
Canta, canta eternamente,
Não te canses de correr.

as  ninfas deliberaram que o bicho homem nem é merecedor de tão generosa oferta. Decidido estudar, em profundidade, se os animais não apreciarão mais uma fonte que os homens. Quem saberá esta resposta? Será difícil?
E, depois de descida a encosta que da Rua da Fonte nos leva aos Pelames, procurámos, por entre silvas e lixo a fonte das águas férreas. As lavadeiras já há muito que abandonaram o local que foi disputado e onde dirimiram muitas contendas entre dois carregos de roupa.
Já não há físicos que receitem as águas férreas nem anémicos ou tísicos que se abeirem do seu caudal para recuperarem a saúde. Sem atenuantes a considerar, o Neptuno decretou:
 Tirar o sono aos responsáveis dos mortais, para que limpeza e obras sejam feitas e os lavadouros preparados para o trabalho. Foi aqui, ninfas minhas, que noutros tempos apreciei belas, garridas e azougadas vareiras. Subir a encosta do Sul, ladear o belo jardim da estação e descer a rua João Semana, a caminho das Luzes. Que vemos nós?

Fonte que choras de mágoa
Como tu é a dor do mundo
Começa num fio de água
E acaba num mar profundo.

Com esta quadra por atenuante e com numeroso grupo de lavadeiras, logo à frente, no rio da Senhora da Graça (lindo nome), perdoamos a incúria e desmazelo, mas, para que insónias não sejam decretadas, sugerimos uma limpeza e desinfeção que baste.
Subindo o Seixal e virando a nascente, descemos por bela mas abandonada alameda, outrora calcorreada por poetas e animada por buliçosas lavadeiras.
A bela quadra no seu frontispício não serve de atenuante nem desagrava a inqualificável e criminosa lixeira na sua traseira que, além de limpeza imediata, exige castigo exemplar. Vamos esperar pela humana decisão!... A gravidade assim exige.

Dizem que as fontes choram?
Cantando espalham seu bem!
Só chora a fonte que nunca
Matou a sede a ninguém.

Voltemos ao Seixal, desçamos a poente, ao Largo dos Combatentes e choremos na monumental e abandonada Fonte do Hospital!...

Fonte dos Combatentes (Ovar)
Aqui a poesia é feita em pedra e a escadaria imponente, embora atenuando, não perdoa a humana falta do abandono e da porcaria. Para este caso vamos consultar Zeus para que uma sentença inapelável seja decretada!...

Fonte Júlio Dinis, junto à ponte do Casal (Ovar)
Dos Combatentes, pelo Carril até ao Casal, encontramos a fonte que lembra e festeja o homem que estes vareiros mais veneram e de que se orgulham: o seu romancista e poeta de eleição: Júlio Dinis. Mas que gente é esta que assim abandona e despreza os seus maiores? Para falta tão grave terá de ser pedida a sentença de Minerva, depois de ouvidas as Musas.

Ó Rio das águas claras
Que vais correndo p’ró mar
Os tormentos que eu padeço
Ai, não os vás declarar.

Andava a pobre cabreira
O seu rebanho a guardar
Desde que rompia o dia
Até a noite fechar

Vamos virar a nascente e pela Granja, por Guilhovai ou por Cimo de Vila, chegamos a Sande, seguindo para Esperão. Transposto o rio do mesmo nome pela ponte rústica e à sombra dos moinhos que ainda giram, moendo o milho, subimos por íngreme e difícil carreiro para atingir a Fonte de Esperão. À sombra dos carvalhos, eucaliptos e pinheiros, bebemos na bica de granito a sua apreciada água. É leve, fresca e cristalina e era receitada para todas as doenças. Fonte rústica e antiga com datas gravadas desde 1691. Em pleno funcionamento e procurada por todos.
Pelo rio, pelos moinhos que ainda moem e pelo seu estado mau, mas aceitável, vamos sugerir à humana autoridade que ponte e estrada sejam construídas para que todos possam, também, beber desta água.

Texto publicado no n.º 25 da revista REIS/1991
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2012/08/ovar-e-as-suas-fontes.html

Post em construção - vão ser colocadas mais fotos das fontes vareiras

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