13.9.12

José Augusto de Almeida – De Reiseiro a ALMA-MATER do Museu de Ovar

Revista REIS/1986
TEXTO: Maria Deolinda Cascais, Manuel Pinho e João Costa

José Augusto de Almeida,
um dos fundadores do Museu de Ovar
Poderá parecer estranho que esta revista, evocando, cada ano, uma figura «reiseira» da nossa Terra, venha falar de José Augusto de Almeida, o JOSÉ AUGUSTO DO MUSEU, como é mais conhecido.
Mas há razões para isso. É que, embora a maior parte dos vareiros o não saiba, nos finais da década de cinquenta o «nosso Homem» esteve ligado a uma Troupe de Reis criada com a finalidade de angariar fundos para, em conjunto com o Grupo de Escutas, manter uma Exposição Permanente. E terá sido essa primeira Exposição Permanente o «gérmen» do que, algum tempo depois, seria o Museu de Ovar.
Valerá a pena recordar alguns factos ocorridos por essa altura. Havia uma estreita ligação entre o grupo de Escutas e a JOC, por serem organismos de juventude e com ligação à Igreja.
A oferta, por parte do Senhor Manuel da Silva Coelho (Capôto), de alguns objetos de arte indígena – peles de cobra, armas, etc. –, levou os Escutas a procurar mantê-los em Exposição Permanente numa sala, para o efeito cedida, no antigo edifício do Quartel.
Começaram então a surgir as primeiras dificuldades: instalações acanhadas, paredes com salitre e a cair, janelas a desfazerem-se, etc. Apesar de tudo, e com o dinamismo do José Augusto, após algumas obras de beneficiação levadas a efeito pelos próprios escutas, a Exposição realizou-se. O entusiasmo foi tal que se pensou ir mais além, inclusive em instalações próprias a ceder pela Paróquia.

Os reis e um saco…

Iniciou-se, então,  a angariação de fundos: fez-se teatro, organizaram-se festas, e, como se aproximava a Quadra dos Reis, o Padre Torres (assistente eclesiástico do Grupo dos Escutas), o José Augusto de Almeida e o João Costa resolveram sair para a rua com uma Troupe de Reis chamada JOC-ESCUTAS.
À frente ia o Padre Torres que, com a sua influência, ia conseguindo que as pessoas não deixassem de dar vinte ou cinquenta escudos (o que para o tempo era muito bom!), dádivas essas que o José Augusto ia metendo para o saco…
Como se queria ir por diante, e em colaboração com o Pároco de Ovar, pensou-se na construção de um edifício próprio, servindo os dois organismos, num terreno a ceder pela Paróquia. No entanto, desinteligências surgidas não permitiram a concretização da ideia, determinando que cada um dos grupos caminhasse por seu próprio pé.
Foi então que se alugou uma pequena parte do actual edifício do Museu, onde se instalou a Exposição Permanente. E, porque não faltavam incitamentos e dádivas, havia que avançar. Com a valiosa colaboração do «Notícias de Ovar» e o interesse do seu Diretor, que desde a primeira hora apoiou todas as iniciativas, a obra foi singrando.
Havia a parte etnográfica, mas faltava a parte artística. Para a conseguir foi pedida, com insistência, a colaboração de vários artistas, com o que alguma coisa se foi conseguindo.
E assim, aos poucos, volvidos todos estes anos, o Museu de Ovar é aquilo que todos sabemos, e o seu nome já se projetou além fronteiras.
O Museu de Ovar será mesmo um caso único, e José Augusto de Almeida, com a sua «ALMA», um exemplo a apontar e a seguir.

Os vareiros não conhecem o seu Museu…

Quase um quarto de século dedicado, dia-a-dia, persistentemente, a uma Instituição Cultural que honra a Cidade de Ovar, tal é o «palmarés» deste Homem simples, de muito valor, sem quaisquer títulos académicos, mas com vastos conhecimentos adquiridos à própria custa.
E assim, algumas perguntas lhe pusemos:
– Será que, depois de tanto trabalho e tanta incompreensão, alguma vez houve, da sua parte, arrependimento?
– Ah, não. Nem pensar nisso… Se tivesse de voltar ao princípio, apesar de todas as contrariedades –, e muitas têm sido –, não desistiria. Veja-se que, logo no início, quando se pensou na transformação da Exposição Permanente em Museu, não deixou de se dizer: – Então a Câmara já o quis fazer, e, apesar de lá estar o Senhor Doutor, não o conseguiu, e querem vocês, uns borrabotas, fazer alguma coisa!? 
O que a gente ouviu, e tem ouvido ao longo destes anos!...
– Esta sua inclinação e tenacidade foram adquiridas na juventude, com a educação, ou apareceram assim mesmo? Ou será por ter estado lá fora?
– O facto de ter estado fora, muito novo ainda, permitiu-me uma visão menos acanhada das coisas. Tive sempre horizontes largos, e, sobretudo, sonhos… Daí, persistir, e, por isso, a obra foi para a frente.
– Pela sua longa experiência, pelo conhecimento que tem de outros meios, como define o nosso nível cultural? Estará Ovar à altura de compreender a riqueza que tem, e o valor do seu Museu?
– Penso que não. Aliás, já o afirmei há muitos anos, perante o País, quando fui ao Programa Televisivo do Zip-Zip, dizendo que os Vareiros eram os primeiros que não ligavam ao seu Museu, nem o acarinhavam, apesar de nessa altura, a cota do AMIGO DO MUSEU ser de 2$50!... Quando cheguei a Ovar disseram-me que isso era uma vergonha, mas a verdade é que praticamente se continuou na mesma…
Estou convencido de que os habitantes de Ovar são os que menos apreciam o nosso Museu, ao contrário do que se passa com os de fora que, depois de o visitarem, expressam a sua admiração.
– Como reage o público às exposições levadas a efeito?
– Embora façamos anualmente varias exposições – e quantas vezes com que sacrifício! – muito pouca gente cá vem. Temos vários exemplos, e até mesmo a nível Escolar.
– E quanto às exposições de carácter didáctico?
– Há idêntico desinteresse, o que, aliás, não se costuma passar com escolas de fora. Em alguns casos, os professores chegam a fazer uma prévia visita, de modo a que posteriormente, com os alunos, ela possa ser devidamente explorada. Ainda há pouco isso aconteceu com uma Escola Inglesa do Porto.
Temos feito Exposições Itinerantes a vários pontos do País, sobretudo em Trás-os-Montes, e ainda há cerca de quinze dias recebemos uma carta de Macedo de Cavaleiros, dizendo que esperavam pelas nossas Exposições.
Isto, alguns exemplos, para mostrar o contraste com o que se passa em Ovar.

Dos apoios oficiais que não há…

Quanto a apoios recebidos da Câmara, José Augusto lamenta que tenham sido praticamente nulos. Embora lhe enviem anualmente o seu programa de realizações, que é bem aceite, os apoios não vêm. Em 1985, por exemplo, apesar de reiteradas promessas, estão sem receber um tostão…
– Infelizmente – remata o nosso entrevistado— a Câmara de Ovar não quer saber da cultura!... Disseram até, ainda que não directamente a nós, que ajudavam o Museu porque queriam; era uma coisa facultativa… Ora, valha-nos Deus! Das duas uma: ou vêem que o Museu é uma Instituição útil e necessária, e que necessita da ajuda de todos, ou então que digam que nada vale! Mas que haja a hombridade de o dizer! E, contudo, dão-se subsídios a associações para finalidades que não se percebem muito bem… 
– Quanto a planos futuros, o director do Museu respira fundo, como que a aliviar-se de um grande pesadelo – ou sonho? ­– e afirma-nos que, se visse feito o novo edifício para o Museu, poderia morrer descansado…
– Há mais de dez anos chegou a estar muito bem encaminhada a sua construção, mas algo de inesperado surgiu, e a ideia não foi por diante. Agora já vejo nova hipótese, porque, parece, a Fundação Gulbenkian volta a interessar-se por esta Obra.
– Mas, não deveria ser a própria Câmara a acarinhar o Museu da Cidade?
– Sim, mas o que é que a Câmara se tem interessado com isso? Aliás, mesmo aqueles que concordam com os temas das nossas Exposições, raramente as vêem.


Sala do antigo Quartel onde esteve patente a Exposição Permanente referida no texto

… A colaboração que faz falta

– Apesar do ostracismo a que o Museu de Ovar tem sido votado pelas Autarquias locais, os seus dirigentes não desistem.
– É aqui que me sinto REALIZADO. Idealizei uma obra que vai sendo feita. Os outros, depois, que a continuem, pois há muito que fazer… Quanto a colaborações recebidas, José Augusto de Almeida cita os elementos da Direcção e do Grupo de Apoio, que têm sido de uma dedicação exemplar. E também alguns beneméritos e amigos, que têm contribuído com ajudas em objectos e dinheiro. Mas precisamos de mais amigos e de mais ajudas.
– Acha que se houvesse mais disponibilidades económicas as pessoas sentir-se-iam mais atraídas pela Obra?
– Não sei, não sei! Penso que se o Museu está hoje como está, é porque os dinheiros são sempre escassos. Se os tivesse, não havia dificuldades, é certo, mas isso não teria interesse algum. Fazer dia-a-dia o que é urgente, vencer as dificuldades que vão surgindo, e engrandecer a obra sonhada e nunca concluída, isso é que interessa e tem valor!

E assim se procura prestar homenagem a uma das mais válidas instituições da nossa Terra, e ao Homem que a ela dedicou o melhor da sua vida, das suas disponibilidades, do seu entusiasmo e do seu carinho.
Os homens passam, mas as obras ficam e falarão deles. Ovar e o País têm em José Augusto de Almeida um grande HOMEM, de quem há muito ainda a esperar.
Pena é que nem todos ainda o tenham compreendido e apreciado como merece. Em Ovar. Porque o estrangeiro já há muito reconheceu os seus méritos, através de várias distinções concedidas.

Texto publicado no n.º 20 da revista REIS/1986

1 comentário:

  1. Fico muito feliz por ver relembrada uma figura da nossa terra, tantas vezes e durante tanto tempo esquecida. Um exemplo de vida, trabalho e dedicação a uma obra. Soubessem os continuadores da sua luta merecer o lugar que ocupam. Infelizmente, não me parece que assim seja. As salas do Museu foram desbaratadas do seu conteúdo. Em recentes visitas verifiquei que tudo o que diz respeito a esta terra e região (Sala do Mar, Lavrador, Oleiro, Ferreiro e outras mais) foram "arrecadadas". Opções no mínimo discutíveis, tanto mais que todas as salas referidas viram a luz do dia graças ao esforço (trabalho e monetário)de voluntários e benfeitores da nossa sociedade, não tendo sido perguntado a ninguém se concordavam com o desmantelamento das mesmas. É que teria que haver respeito pelo menos para com os familiares daqueles que ofereceram o dinheiro necessário para a construção das referidas salas. Por isso elas tinham o nome desses benfeitores e/ou famílias. Identifico-me: Sou José Maia, filho mais velho de José Augusto de Almeida.

    ResponderEliminar