19.10.12

As leiteiras [da Ribeira de Ovar]

Revista REIS/1987
TEXTO: Pela equipa da REIS

Todos conhecerão, certamente, a Ribeira, zona da Beira-rio, verdejante e fértil em pastagens, situada na periferia de Ovar. Mas poucos saberão que durante 60 anos era daí que provinha grande parte do leite consumido pela gente vareira.

Algumas das mulheres vareiras, a maior parte da Ribeira, que há cerca de meio século distribuíam o leite às famílias de Ovar: 1.º plano - Zélia Marques, São da Benedita, Guida do André, Zézinha Reisinho, Ana da Chica, Rosa Franciscão, Rosa Duarte, Marquinhas Farraia e ? do Gaspar, do Sobral. 2.º plano - Margarida Pereira, Margarida Caleira, Joaquina Roçadas, Conceição Magista, Rosa Veiros, Maria Duarte, Idalina Adriana e Rosa Balgona. 3.º plano - Angelina Caldeira, Ana Duarte, Céu Caldeira, Maria José Manata, Marquinhas Amaral, Margarida do Pêgo, Domingas Neto, Rosa Farraia, Domingas Farraia e Laura Covas

Todo o lavrador, tirando partido dos dons da natureza, investia em gado bovino, nomeadamente na vaca leiteira.
Eram raras as famílias que não tinham uma vaca, pois o leite era de excelente qualidade, tornando-se assim a principal fonte de riqueza daquela gente.
O leite aí produzido tornou-se famoso e, consequentemente, bastante procurado, sobretudo para a cura de certas doenças, como a tuberculose e ainda para alimento das crianças.
Havia mesmo quem viesse do Sobral, a pé, especialmente para esse fim.
Surge, assim, uma actividade  a venda de leite  que irá proporcionar a muitas mulheres o seu ganha-pão, em troca de muito sacrifício e doação.
Era duro ser leiteira naquele tempo em que as dificuldades de acessos as faziam percorrer, a pé, quilómetros e quilómetros, canado à cabeça, à chuva, ao frio e ao relento da noite. Sim, porque para chegarem a horas a casa de cada um se levantavam com as estrelas... Era um dever quase sagrado...


Capela de S. Roque, Ribeira, junto aos campos de lavoura (anos 40)
Quantas vezes cantavam: para espalhar o sono, espantar o medo, ou embalar as mágoas do coração...
O pior era quando o sono era mais forte e as fazia tropeçar, deixando cair o canado! Vinha, então, a desolação, a aflição...
Mulheres zelosas procuravam sempre remediar a situação de coração aberto sorriso nos lábios, embora chorando interiormente a perda do ganho do mês.
Muitas vezes acontecia que no fim do "giro" sobrava leite. Algumas recorriam à "pedra do leite", espécie de posto de venda, ao ar livre, situada no centro da então vila, em frente da Câmara Municipal.
Aí se juntavam as leiteiras que não tinham freguesia certa, procurando vender o produto aos transeuntes.
Outras aproveitavam o leite das sobras para fazerem o "leite amassado", que era considerado uma especialidade das gentes da Marinha e Torrão do Lameiro, e que consistia em meter o leite em cântaros de barro, onde ficava a coalhar 24 horas, sendo batido com um batedor de cortiça. Após esta operação, retirava-se a gordura que ficava ao de cima e que depois de fervida, dava origem à manteiga. Esta era posta em tigelas de barro e vendida junto à Capela de Santo António, tendo como principais compradores as parturientes.
A parte restante, uma massa branca, pastosa, era aproveitada para consumo caseiro, sendo comida com pão de boroa, em substituição da sopa. Podemos dizer que isto seria muito semelhante aos iogurtes de hoje.
Porém, outros ventos irão soprar...
É o avanço da técnica que vai dar solução a este difícil problema. As sobras do leite passam então a ser canalizadas para as indústrias que começam a surgir em Ovar e arredores: Colares Pinto no Carregal, Artur Santos na Arruela, e, mais tarde, a Sul, na Vila da Feira.
Todos tinham ao seu serviço algumas mulheres que andavam de porta em porta a recolher o leite.
À medida que se vão desenvolvendo, estas novas indústrias passam a querer absorver toda a produção do leite desta zona.
Origina-se assim uma luta entre as leiteiras, que querem manter a sua actividade, e a prepotência das indústrias, que montam um processo de perseguição.
A partir daí, estas mulheres vêem-se constantemente ameaçadas por fiscais...
Foi por tais motivos que muitas desistiram, pondo termo a uma actividade que hoje faz parte apenas do passado.
Tivemos o prazer de falar com algumas destas heroicas mulheres, quase todos ainda vivas, e que, certamente, alguns recordarão.
Quem não se lembra da Sr.ª Zélia, da Sr.ª Ana, da Marquinhas da Ribeira, Sr.ª Margarida e tantas outras. A que mais anos andou com o leite, foi a Sr.ª Zélia. Ainda criança, com oito anos, começou a acompanhar a mãe, que já era leiteira, e pouco a pouco foi assumindo esta tarefa.
Servia várias zonas de Ovar, e na época estival, que se prolongava até ao S. Martinho, incluía o "giro" do Furadouro, difícil de fazer, dada a escassez de acessos e transportes.
A maior parte do leite que para ali era levado destinava-se ao Hotel Mar e Sol e à Guarda-Fiscal.
Os pescadores, esses, não o compravam, pois há 70 anos nem todos tinham tostão e meio para gastar num litro de leite... [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Leiteira, uma das figuras do "Desfile
de Trajes do Concelho de Ovar" (16/10/2011)

[Frame de um vídeo de Fernando Pinto]
O leite, que hoje faz parte integrante dos nossos hábitos alimentares, foi, outrora, privilégio de alguns.
Mas a Sr.ª Zélia, apesar do muito que passou, recorda com saudade os momentos de alegria que viveu com as companheiras ao som de numerosas cantigas.
Uma ficou para a história...

As leiteiras da Ribeira
Com a lata cheia, todas contentes.
Vem um polícia da Câmara
Oh, que caramba! Aqui vai a gente.

E as leiteiras, todas matreiras
todas gaiteiras, falaram ao Presidente
Liberdade, sem maldade
no seu canado leva tudo liberalmente.

Fale verdade, não minta.
Fui condenada, tão inocente
Meu leite é puro e distinto
É o que eu digo ao Presidente.

Texto publicado no n.º 21 da revista REIS/1987
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2012/10/as-leiteiras.html

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