18.1.13

António Dias Simões

Um perfil – sua vida e obra

Revista REIS/1971
TEXTO: Maria Deolinda Cascais Lopes Palavra

Conferência proferida pela Sr.ª D. Deolinda Cascais Lopes Palavra no fecho das Comemorações do 1.º Centenário do nascimento do poeta Dias Simões, ocorrido em 18 de Novembro do ano findo, no Colégio de Nossa Senhora da Esperança (posteriormente Liceu de Ovar e actualmente Escola Secundária Júlio Dinis). 

António Dias Simões (1870-1922)
Não seria eu, por certo, a pessoa mais indicada para vos vir falar do grande Homem que foi António Dias Simões. No entanto, os laços da mais profunda amizade que, desde há longos anos, ligam a minha família à do homenageado, impediram-me de negar o meu modesto contributo à Troupe dos Reis da Acção Católica que tomou sobre si o encargo de promover tão justa e bem merecida homenagem.
Depois do muito que sobre Dias Simões se tem dito ao longo dos diferentes actos das Comemorações do 1.º Centenário do seu Nascimento, receio que algumas das ideias ou afirmações aqui feitas possam parecer repetição. Por outro lado, que me perdoem, o homenageado e todos os presentes, as palavras falhas de eloquência, mas repassadas dos sentimentos do mais profundo respeito e da maior admiração pela vasta e valiosa obra legada por tão insigne vareiro.
Ovar, terra muitas vezes madrasta para com os seus próprios filhos, quando é certo que recebe de braços abertos e da maneira mais acolhedora os que lhe são estranhos, está hoje a procurar saldar uma dívida que, desde há muito, mantinha em aberto para com um dos seus mais ilustres filhos – António Dias Simões.
É certo que, em 1910, um grupo de amigos e admiradores seus a quando da publicação do drama "O Amor e a Natureza", organizou uma festa íntima em que lhe foi oferecida uma pena de oiro e, após a sua morte, conseguiram que a Câmara desse autorização para que passasse a ser designada com o seu nome a rua onde se situa a casa em que nasceu, viveu, idealizou e escreveu a maior parte das suas obras. Anos depois, a Associação Desportiva Ovarense também lhe presta homenagem, colocando uma placa evocativa na mesma casa. Mas tudo isso nada é comparado com o seu real valor e mérito e com tudo aquilo que fez para engrandecimento de Ovar.

Nasceu António Dias Simões na Rua Fernandes Tomás, aos 29 de Setembro de 1870, quando o Outono, a estação dos poetas, há pouco se iniciara. Foram seus pais D. Ana Soares Barbosa Simões e Manuel Pereira Dias, que era, ao tempo, recebedor do concelho de Ovar.
Após o exame de instrução primária, frequentou, como aluno interno, o Colégio de Nossa Senhora da Glória, no Porto, adquirindo aí uma cultura muito vasta para aquela época. A formação que então recebe contribuirá para que, mais tarde, procure dar igualmente a seus filhos uma cuidada instrução.
Se é certo que muitos dos dotes intelectuais e das virtudes de carácter dos filhos são herdados dos seus progenitores, António Dias Simões não constituiu excepção a essa regra, tendo deles herdado, a par de uma natural bondade e do permanente anseio de ser útil aos que dele se abeiravam, o talento que se revela nas diversas facetas da sua obra.
Apesar da sua ocupada vida de funcionário público – foi Aspirante de Finanças –, soube transcender as coisas puramente materiais e conseguiu tempo para cultivar os talentos com que havia sido tão abundantemente dotado, deixando-nos uma obra a todos os títulos notável.
Foi um exemplar chefe de família, vivendo em constante apreensão pelo bem estar dos seus, especialmente dos filhos, parecendo adivinhar que a sorte não lhes seria benfazeja como, de facto, aconteceu. A expressão máxima dessa sua apreensão está bem patente no soneto que lhes dedica, intitulado "A meus filhos".
O interesse pelo desenvolvimento da instrução não foi apenas tema de um dos seus mais belos sonetos, mas preocupação do seu espírito, o que o levou a fundar o primeiro Colégio que existiu em Ovar – o Colégio Júlio Dinis –, por onde passaram muitos dos homens de certa projecção no nosso meio e outros que, sem ele, não teriam possibilidades de continuar a sua instrução.
Tudo quanto fosse para engrandecimento de Ovar, no campo da Arte, tinha o seu apoio e, mais do que isso, a sua colaboração, em que punha todo o seu entusiasmo.
Sempre que se pensava organizar qualquer festa, fosse ela festa escolar ou récita com finalidade beneficente, lá se encontrava Dias Simões, de alma e coração, ao lado dos organizadores, dando-lhes o melhor do seu talento e do seu esforço para que tudo resultasse em pleno.
E foi esse seu entusiasmo que fez com que a Festa da Beneficência a favor da Misericórdia de Ovar, realizada quando já se encontrava um tanto alquebrado pela doença que o havia de vitimar, fosse um mimo de beleza, um verdadeiro Sarau de Arte.
Por certo alguns dos presentes, e que hoje já são avós, ainda se lembrarão, com saudades, do encanto que eram as festas escolares, e, quem sabe! se não teriam sido mesmo alguns dos pequeninos artistas que deram vida às personagens criadas, com tanto amor, por Dias Simões.
A ele se deve a criação de um Coral Infantil assim como do Orfeão do Colégio Júlio Dinis, que foram os fundamentos donde, mais tarde, há-de nascer o nosso tão glorioso "Orfeão de Ovar".
Também foi ele o criador dum Grupo Cénico, constituído por amadores da nossa terra, mas que poderiam enfileirar, sem receio, ao lado de muitos profissionais, e que proporcionou representações inesquecíveis.
Tudo isto, e tantas outras coisas, foram obra de Dias Simões.
A sua afabilidade de carácter, a sua delicadeza de maneiras, o seu espírito observador e crítico tornaram-no verdadeiramente popular e fizeram com que granjeasse inúmeros amigos.
Foi Homem duma integridade ímpar, amigo do seu amigo até ao sacrifício, mas não suportando uma deslealdade, visto que ele era incapaz de a cometer.
A par dessas qualidades nota-se também nele uma crença profunda, mas sem qualquer sombra de fanatismo, afirmada desassombradamente em inúmeros passos da sua obra, mas, vincadamente, no poema intitulado "O Céptico", escrito com 21 anos apenas.
No entanto, nunca será demais fazer ressaltar a sua modéstia que, por fim, o levou a desejar descer à sepultura amortalhado no hábito do Poverello de Assis e descalço, e que o seu corpo fosse levado por quatro Irmãos dessa Ordem, escolhidos entre os mais pobres.
Como todas as pessoas de valor, passou quase totalmente ignorado e esquecido dos seus conterrâneos. A quando do seu falecimento, ocorrido a 22 de Dezembro de 1922, relativamente poucos foram os que se associaram ao desgosto da Família pela perda que acabava de sofrer e, menos ainda os que o acompanharam à última jazida. Aí, apenas Ângelo Zagalo de Lima enalteceu o valor do Homem que, para sempre, desaparecia do convívio dos vivos.
O jornal local "A Pátria", no qual publicara muitas das suas produções, no seu número de 4 de Janeiro de 1923, pela pena do ilustre colaborador Padre Rodrigues Lírio, presta-lhe uma sentida e bem merecida homenagem, lamentando que dentre os seus inúmeros amigos e admiradores não houvesse nenhum que recordasse o Homem e a sua obra.
Mais uma vez se patenteia aqui a ingratidão dos mortais que, bem depressa, lança no esquecimento as benesses recebidas, sejam elas de que espécie forem.

DIAS SIMÕES  ARTISTA

António Dias Simões aos 40 anos
A Arte nasce com o Homem, seja ela no campo da Pintura, da Música, da Literatura ou da Poesia. E António Dias Simões nasceu, de facto, Artista.
Historiador, Poeta, Dramaturgo, Comediógrafo, Pintor, Miniaturista e Calígrafo, tudo isso ele o foi, e de que modo!...
Como historiador escreveu "Ovar  Biografias", uma das suas poucas obras impressas, mas cuja edição há muito já se encontra esgotada. Felizmente a nossa Câmara chamou a si o encargo de as reeditar, agora com ortografia actualizada, para que todos possamos conhecer a vida e os feitos dos nossos mais ilustres antepassados.
Ainda com o propósito do engrandecimento da nossa terra, e como reflexo do seu amor à verdade, escreveu uma série de artigos intitulada "Ovar e Júlio Dinis – Desfazendo um equívoco" – artigos esses que se conservaram inéditos até à sua morte, tendo sido dados à publicidade, mais tarde, por seu filho José, aparecendo no jornal "A Pátria" de 18 de Outubro a 20 de Dezembro de 1923. Esse trabalho surge como reacção ao facto de, na edição de luxo de 1907 de "As Pupilas do Sr. Reitor", ilustrado por Roque Gameiro, aparecerem as personagens dessa obra enroupadas em tipos do Minho, quando é certo ter sido aqui que Júlio Dinis as colheu e estudou. Ao longo dessa série de artigos que, se outro merecimento não tiveram, serviram para situar a acção no seu lugar próprio, António Dias Simões indica as verdadeiras pessoas a partir das quais o escritor teria criado as personagens do romance. No caso pessoal do Homenageado, talvez nem todos saibam que seu avô Tomé Simões terá sido a pessoa que no romance nos aparece como Reitor. Quanto à sensata figura de Margarida – uma das "pupilas" do Reitor – ela foi, sem sombra de dúvida, a própria mãe de Dias Simões.
No entanto foi como poeta que ele mais se evidenciou. Dias Simões nasceu Poeta e assim permaneceu até ao fim da sua vida. Aliás é ele próprio que no-lo afirma no prólogo do seu primeiro livro de versos – "Vozes da Alma" –, em que oculta o verdadeiro nome sob o pseudónimo de Silvestre Ameno. Diz-nos ele:
– "Dizem, e é assim, o dom da poesia nasce com o homem.
Julgo ser verdade ele ter nascido comigo, mas é certo que ainda não está tão desenvolvido quanto é preciso.
Mas havia eu de deixar, por esse motivo, de coleccionar os meus primeiros versos?
Não. E não, porque eu não quero ser conhecido no mundo das letras, nem tão pouco o mereço".
À primeira afirmação que, para alguns espíritos, poderia ser interpretada como manifestação de vaidade, segue-se-lhe imediatamente a justificação de "não querer ser conhecido no mundo das letras" e, além disso, a extrema modéstia de "não o merecer". Foi esta modéstia excessiva que fez com que os seus valiosos trabalhos literários se tivessem mantido ignorados do grande público, até mesmo dos seus conterrâneos, tendo apenas como apreciadores os seus familiares e algum dos seus mais íntimos amigos.
Esta obra foi impressa em 1892, quando o autor contava 22 anos mas com uma tiragem reduzidíssima de apenas uns 20 exemplares, por certo oferecidos aos seus amigos, e dos quais, segundo ele, nem com um único teria ficado.
António Dias Simões com sua esposa
D. Leolina Pires da Silva
O que mais nos impressiona nesta sua primeira obra é, a par de um grande lirismo verificado pelo sopro do Amor, o misticismo de alguns dos seus versos, a fé profunda com que deparamos a cada passo, e, tudo isto, aliado a um elevado sentido de humor. Se as primeiras manifestações são absolutamente naturais, dada a juventude do autor, as segundas revelam-nos uma alma já amadurecida pelo sofrimento e bem conhecedora da psicologia humana.
A sua vasta produção literária encontra-se dispersa por várias publicações e alguma mantem-se ainda inédita.
A única colectânea manuscrita de poesias suas hoje existente foi feita a pedido de um seu ilustre amigo, Dr. Pedro Chaves, e nela se encontram 87 produções, muitas destas anteriormente publicadas no livro "Vozes da Alma" e algumas escritas posteriormente.
O pedido de um amigo tinha, para Dias Simões, o valor de uma ordem. É ele que no-lo diz na carta que serve de prefácio a esse manuscrito, onde escreve:
"Quando o meu bom e Ex.mo Amigo se lembrou de me pedir (o que valeu o mesmo que ordenar) a colecção de todos os meus versos, melhor fora que se lembrasse de me mandar resolver a trisecção do ângulo ou descobrir a pedra filosofal. É certo que eu não chegaria a fazer tais descobertas..."
Se bem que este pedido tivesse ferido a sua extrema modéstia, deu-nos a possibilidade de nos podermos deliciar com os seus poemas que, doutro modo, se poderiam ter perdido, como aconteceu a tantos outros, dado o pouco apreço que o autor tinha pelos seus trabalhos literários.

A propósito da dedicação de Dias Simões aos seus amigos, talvez não seja descabido contar o seguinte episódio:
Aproximava-se o dia 1.º de Janeiro, data em que, tradicionalmente, os Bombeiros Voluntários de Ovar apresentavam uma récita de gala. A Direcção estava preocupada porque não tinha peça para levar à cena e, um dos seus membros, o Dr. António dos Santos Sobreira – íntimo Amigo de Dias Simões – lembrou-se de a ele recorrer. Este encontrava-se bastante doente e, como tal, não deu a certeza de poder satisfazer o pedido. No entanto, na madrugada seguinte, chama o seu filho José para escrever a peça que, mentalmente, já havia sido elaborada. E assim nasceu a "Noite de Natal", peça em 1 acto, na qual se enaltece a bravura e a abnegação dos Soldados da Paz, representada pela primeira vez em 1 de Janeiro de 1919.
Daqui, dois factos são de salientar: o desejo de ser útil, aliado à circunstância de não saber recusar o pedido de um Amigo, mesmo com prejuízo da própria saúde, e a sua extraordinária capacidade criadora.
Desde muito novo manifestou um grande interesse pelo teatro. Os seus folguedos de criança eram, a maior parte das vezes, preenchidos com representações de peças em que intervinham, como actores, entre outros, seus irmãos, minha avó materna e o próprio homenageado que, além de encenador, era também o ensaiador e o responsável por todo o sucesso da brincadeira.
Como comediógrafo e dramaturgo escreveu cerca de 30 peças, entre comédias, operetas e dramas. Muitos destes trabalhos destinaram-se a festas infantis, sendo tratados os mais variados temas.
Nelas ressaltam: graça, leveza, humorismo, sátira, aliados mesmo a certas superstições populares, como na comédia "O Cometa"; a simplicidade de costumes piscatórios, como na opereta "À Beira-Mar"; ao espírito irrequieto e aventureiro dos rapazes, como no "Napoleão Petiz", etc.
Dentre todos merece especial referência o drama em 4 actos, escrito em verso, "O Amor e a Natureza" (na foto, ao lado), editado em 1910 e levada à cena em 27 de Novembro do mesmo ano em benefício da Misericórdia de Ovar. 
Todo ele é um verdadeiro rendilhado onde, a par da beleza da forma, se entrelaçam os mais variados sentimentos: a candura, o amor, a dedicação, os preconceitos sociais e tantos outros. No seu entrecho encontramos, de mãos dadas, a juventude e a velhice, a alegria e a tristeza, o prazer e a dor. É, sem dúvida, o espelho onde se reflecte toda a sensibilidade do Artista e a sua delicadeza de alma.
Como pintor deixou-nos alguns retratos a crayon, de tal maneira fiéis e perfeitos que quase se confundem com as fotografias, e ainda outros trabalhos de aguarelas.
António Dias Simões com o seu amigo
e colega Alfredo
Como miniaturista e calígrafo elaborou uma verdadeira obra-prima – "O Epítome da Vida de Santa Rita de Cássia", escrita a nanquim e ilustrado com iluminuras. Muitos dos presentes a terão visto, por certo, a quando da Exposição Bio-Bibliográfica. No entanto, não lhes terá sido possível avaliar a grandeza do trabalho realizado, pois, para isso, seria preciso observá-lo minuciosamente. É necessário ter uma grande acuidade visual para conseguir lê-lo sem auxílio de lente, tão diminuta é a letra em que está escrito. Para se aquilatar do esforço despendido nessa obra, basta dizer que o seu autor demorou na sua execução cinco longos anos e que, por força da sua ocupação profissional, apenas podia trabalhar nela de noite, à luz da vela (pois ao tempo, não havia luz eléctrica), e que, tendo iniciado o trabalho com uma única vela, o acabou com uma mesa cheia delas, tal o cansaço causado por tão delicado trabalho. De salientar ainda a persistência e paciência notáveis para levar a cabo tão preciosa obra.
No mesmo género tinha iniciado um outro trabalho que ficou pouco mais que esboçado.
E muito mais nos teria legado se a morte o não tivesse roubado, tão novo ainda e quando tanto havia a esperar daquela fonte inesgotável de talento.

Tudo aquilo que aqui se disse, quando muito, ter-nos-á dado uma pálida ideia da Vida e Obra desse homem extraordinário que foi António Dias Simões.
Foi uma verdadeira alma de eleição, um artista de génio.
Pena foi que, por condicionalismos vários, a que não é estranho o facto de não ter nascido bafejado pela deusa da Fortuna, não lhes tivesse sido possível entregar-se unicamente ao cultivo das qualidades com que fora tão excepcionalmente dotado, pois, de certo, teríamos hoje, para deleite nosso, uma obra incomparavelmente mais vasta e mais completa.
Mas Dias Simões não morreu!
A sua obra perpetua-se na sua descendência, na pessoa de sua ilustre filha, D. Maria Amélia Dias Simões, e de seus netos.
D. Maria Amélia Dias Simões, distinta maestrina do nosso Orfeão, dos corais sacros e de tantas outras festas a que dá a sua colaboração e empresta o brilho da sua grande intuição e talento musicais.
Como outrora o havia sido seu pai e seu irmão José, é ela a alma das Troupes de Reis escrevendo, todos os anos, a maior parte das letras e criando ou adaptando as músicas, já de colaboração com sua filha D. Edwiges Helena que será, por certo, a depositária e continuadora da herança artística da Família, elo de uma cadeia que não se quebrará.
E para finalizar quero agradecer a todos aqueles que abrilhantaram com a sua presença os diversos actos das Comemorações do 1.º Centenário do Nascimento de António Dias Simões e, dum modo muito especial à Ex.ma Câmara de Ovar, na pessoa do seu ilustre Presidente - Sr. Francisco José Correia de Almeida – a reedição de "Ovar – Biografias" e pedir a concretização da promessa feita, a quando da abertura da Exposição Bio-Bibliográfica do Homenageado, de editar toda a sua obra.
Será esta, sem dúvida, a mais justa Homenagem que poderemos prestar ao grande valor de António Dias Simões – tornar conhecidas as suas obras. Com isso estamos a contribuir para o engrandecimento do património da nossa Terra e a contribuir igualmente para a promoção espiritual da geração presente e das futuras.

Ovar, 18 de Novembro de 1970
Maria Deolinda Cascais Lopes Palavra

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António Dias Simões - Poeta
A vareira Lina Ligeira, na praia do Furadouro

VAREIRAS

E dizem que as sereias são um mito,
As filhas amorosas do Oceano:
Um mito! Mas eu sei que não me engano
Ao vê-las - e por ver as acredito.

Pé nu, muito lavado e pequenito,
Quadril escultural, busto romano,
Uns olhos de perder um franciscano
E um todo, enfim original, bonito...

Eu vejo por aí quanta sereia
Correndo como arvéloas sobre a areia,
Rindo e cantando - doidas feiticeiras!

São elas essas lindas raparigas
De formas ideais, puras, antigas,
As tentadoras e gentis vareiras.

Ovar, 23/03/1903

António Dias Simões


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VÁRIAS OPINIÕES
Que recordações lhe sugere a figura e obra de António Dias Simões?
Quer compartilhar connosco algum facto que tenha conhecido ou vivido?

RESPONDEM:
D. Amélia Dias Simões
Tarefa bem custosa a que me deram. A de escrever qualquer coisa sobre meu pai. E que direi eu, depois que a pena amiga e benevolente de pessoas íntimas, jamais nos relatou? Quase só me resta afirmar que a sua bondade afabilidade carinho e delicadeza faziam de meu pai a pessoa mais admirada por todos aqueles que o conheceram.
Jamais a sua boca teve um "não" a dirigir fosse a quem fosse e para com os pobrezinhos era de uma ternura infindável. Nenhum batia à porta que não fosse compartilhante de tudo quanto havia na nossa mesa.
Na quadra festiva dos Reis? Organizava a sua troupe em colaboração com o Sr. Alves Cerqueira e era sempre um êxito, sem dúvida. O seu enlevo era, ouvir os grupos de crianças entoando as Janeiras.
Saudades, imensas saudades se avivam em mim ao pensar neste pai bondoso, afável, carinhoso, de quem conservo recordações, que só com a minha morte acabarão.

Emília Cerveira Santos
Era muito amigo de meu pai. Fazia o bem a toda a gente. Era um grande poeta. Nunca faltava ao jantar de abertura de época que o meu pai oferecia no Hotel Cerveira. Figura de bem, bom marido, bom pai, possuía excelentes qualidades próprias dos grandes homens. A sua morte foi muito sentida e todos a chocaram. Pessoa alegre e bem humorada, pelo São Martinho nunca faltava no Furadouro com as pessoas de destaque da época, para se divertir.

Benjamim Jayme de Almeida
António Dias Simões era Aspirante de Finanças, eu trabalhava em casa de Alves Cerqueira, seu grande amigo. À ida ou no regresso do trabalho entrava, sentava-se num pequeno banco e cavaqueava. A inalterável conversa era a organização de festas de caridade que ao tempo eram em grande número.
Formavam uma autêntica parceria DIAS SIMÕES – ALVES CERQUEIRA. Planeavam, compunham, levavam à cena. Duma invulgar modéstia, era necessário empurrá-lo ao palco para agradecer os aplausos que eram devidos ao seu talento.
Fazia versos para toda a gente, donde se conclui que versejava com rara facilidade. A sala de ensaios para essas festas era em casa do Alves Cerqueira.
Católico convicto, tinha particular devoção com Nossa Senhora do Rosário. Nas festas que organizou em Sua honra dava-lhe toda a solenidade, convidando para esse fim mestres e músicos de nomeada que vinham de fora juntar-se aos que cá havia.

Dr. Elysio de Matos
Mesmo com a saúde abalada não quero deixar de responder. Privei durante anos com António Dias Simões sobretudo, no tempo do Colégio Júlio Dinis, quando eu era estudante. Ia lá muitas vezes tocar violino e cantar lembrando-me muito bem de que a Senhora D. Maria Amélia ao tempo aluna do Conservatório do Porto interpretava com a maior fidelidade e precisão o grande Chopin, de quem me acompanhava no Nocturno n.º 2, que era um trecho da minha predilecção. Quantas vezes senti António Dias Simões, como que embevecido em êxtase, no íntimo deleite da preciosa interpretação de sua filha? A sua obra de poeta e dramaturgo é digna de voos mais amplos, excedendo os limites da nossa terra, não podendo esquecer-se a sua obra artística de caligrafo e miniaturista.
Quanto à segunda pergunta, posso referir um facto que me parece de interesse, pelo seu sentido de humor. Dias Simões não tinha só poesia bucólica e triste, mas por vezes muita ironia e muito humor.
Vivia no Couto de Cucujães, um ilustre filho de Ovar, conhecido pelo nome de guerra de João Quatorze, exímio vinicultor, que produzia um afamado vinho branco, conhecido por todos os seus amigos íntimos. Entre estes contavam-se o poeta Dias Simões, António Valente de Almeida, que depois foi genro daquele primeiro anfitrião, o Manuel Matos, o do Largo da Poça, o médico e meu amigo como irmão Dr. Nunes da Silva, o pai dos pobres de Ovar, de saudosa memória, eu e outros. Em ano que não posso precisar, António Dias Simões que era exímio em Reisadas, e os citados amigos resolveram fazer uma surpresa ao comum amigo João Quatorze, indo cantar-lhe os Santos Reis Santos Coroados, à Quinta do Couto de Cucujães. Dias Simões fez a letra, adaptando-lhe a música de uma opereta muito em voga no tempo chamado "O testamento da Velha" da autoria de Ciríaco Cardoso. A primeira estrofe era cantada pelo bondoso e bonacheirão Manuel Matos, da Poça, coradinho e rubicundo, homem forte e corpulento. E quando se esperava daquele corpanzil um vozeirão de terramoto, saía uma voz melífera, de falsete e aguda em flagrante contraste com o volume e estatura elevada do solista que causava o riso. Era assim a estrofe:

Troupe de velhos reiseiros. (António Dias Simões é o 1.º da direita)
Ó seu sete duas vezes
Ponha aqui a consoada
Trate bem estes fregueses
Que são gente delicada.
(Pum! uma pancada no bombo)

Coro
Queremos beber
À valentona,
Aqui na Adega do Canona (bis)

Queremos beber
À valentona
Aqui na Adega do Canona
Sim, do Canona!

Ele até rebenta as pipas
E mesmo os tonéis
Há-de aqui rebentar hoje
A pança dos Santos Reis.
(Pum! pancada no Bombo)

O instrumental era o meu violino, o violão de Dias Simões, um bombo, ferrinhos e umas canas cortadas para fazer réu... réu...
E assim se passou uma noite cheia de alegria no seio daquela simpática família com uma reisada em que o Poeta Dias Simões era exímio tradicional reiseiro.

D. Maria Alice Cascais
As recordações da meninice, as que se gravam mais profundamente e as que mais perduram.
A figura distinta do Senhor Dias – era assim que familiarmente o tratava – a delicadeza de maneiras, a afabilidade de trato e o carinho com que sempre me acolhia.
Relembro o tempo de escola, ali na sua casa e da qual era professora sua Ex.ma Esposa, as festas escolares, a animação dos ensaios e tantas outras coisas.
Parece que estou a vê-lo, cheio de entusiasmo, no meio daquele grupo de rapazes a dirigi-los na confecção dos capacetes para o imperador e soldados da sua peça "Napoleão".
Mais tarde foi à competência do Senhor Dias que meus pais confiaram a escolha dos livros que mais convinham ao meu espírito de adolescente, ao que Ele da melhor vontade acedeu seleccionando-os na sua biblioteca a principiar pelas obras de Júlio Dinis. Desde essa ocasião fiquei a saber que o nome do romancista andava ligado à família Simões.
Quando me foi dado conhecer a sua obra, foi aumentando cada vez mais o meu respeito e admiração por Esse tão extraordinário e querido Amigo que recordarei sempre com saudade e gratidão.

Textos publicados no n.º 5 da revista REIS/1971
Edição da Trupe JOC/LOC


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