27.1.13

Sal: Também são lágrimas de Ovar

Revista REIS/1985
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há documentos que atestam a exploração do sal na Idade Média junto à foz dos vários rios portugueses.
No que toca à nossa região, é reconhecida a importância de Aveiro neste sector da economia.
Mas Ovar também teve  e ainda hoje tem, como veremos   um lugar proeminente na exploração ou na comercialização do precioso condimento.
Assim, segundo reza um documento de 929 (D. et Ch. n.º 35), um sacerdote de nome Toresário vendeu  há mais de mil anos!  a Viliulfo, Abade do Convento de Moreira, umas marinhas na "Villa Degaredi" (=Degarei), em Válega, no sítio de Cabedelo, perto do esteiro de Fontela (Avanca), contíguas a outras salinas, de Ariano. A metade vendida desse corte de salinas possuía muros, mares ou seus vasos, e muros de pedra (...) e terreno para novas salinas.
Estas referências são anteriores às que se conhecem acerca das outras salinas no norte de Portugal (a de Aveiro data de 954).

Marinhas em Ovar

O primeiro documento relativo ao sal de Ovar vem-nos do século XI (1026), e refere um resgate exigido por piratas normandos após um assalto à costa de Ovar, resgate esse que incluiu três moios de sal (1).
Dois séculos seguintes há documentação vária (2). Assim: Em 1101 fala-se de salinas anexas a uma propriedade de S. Donato; em 1125, de uma marinha junto do Rio Ovar: em 1126, marinha de Tructesindo Brandiaz, junto ao rio Ovar; em 1237 marinhas  Aveiro e Cabanões, doadas ao Mosteiro de Salzedas; em 1298 marinha do Talhadouro; em 1315 marinha no lugar da Toussa (Tijosa?).
Nas Inquirições Gerais há referências a esta matéria: Nas de D. Afonso III (1251): "Nesse ano tinha o rei um milheiro (de moios) de sal...; na de 1260 (sobre Salinas): "Todas as marinhas pagam foro ao rei, excepto..."; na de D. Dinis (1284?): "D. Joana leva portagem de Pereira e daqueles que vêe pelo sal aas marynhas de Matellas e de Sam Miguel..."

O abandono...

No fim do século XIV e ao longo do seguinte, as salinas de Ovar estão "ermas".
No entanto, aqui perto, a exploração continuou: em 1370 o Convento de Arouca aforou duas marinhas no Couto de Antuã, recebendo metade do sal produzido, e em Aveiro, no reinado de D. Afonso IV (1325-1357), havia cerca de 500 marinhas (3).
Um século depois, porém "jaziam em mortório" (4).
A mesma crise se notava  nas marinhas de Ovar: Em 1403, estavam "ermas" duas do Mosteiro de Grijó; e em 1404, das quatro que o mesmo Mosteiro tinha, três, pelo menos, eram ermas, não fazendo sal":  uma era na "sapha" (?), outra chamada Espinhosela (no actual lugar da Marinha), e outra "da Teiossa" (Tijosa). A 4.ª era em paderne (Paderne, em Esmoriz?)


Típica casa antiga, com quatro janelas e quatro portas, no coração da cidade, onde, desde
há séculos, se comercializava o sal (e só o sal). Foi de António Milhomens, e hoje é de 
Zeferino Almeida. (Desde os princípios do século é ali empregada Ana Celeste de Pinho).
Em frente havia outra, de Maria Cassena.

O Foral de Ovar (1514) diz que Grijó pagava sal "pellos casais e herdades que tem na marinha de Ovar e de Cabanões", e supõe a exportação: "poderá levar os nove soldos contidos no foral velho pela ancoragem de barcos e navios "quando vierem por sal".
O casal da Arruela (do Mosteiro de Grijó), andava emprazado desde 1545 por 60 rasas de sal e dois capões.

... A prosperidade

Em 1540 numa questão de limites entre Ovar e Válega, o Cabido da Sé do Porto afirmava ser seu "o dízimo do sal e do pão das ilhas de Garcia de Resende, Rebordosa, Carvalhosa e Cabo do Ovar pequeno, e tinha posse de dizimar também nas ilhas de Ovar Grande, Mós, Marinha Nova, Morraceira e Raposeira", todas na freguesia de Cabanões. O abade de Válega (Garcia de Resende) argumentava que Válega ia do Puxadouro por ilhas e marinhas, entre as quais "uma marinha de sal que hera de Jorge Pires e que haveria cinco ou seis anos que era edificada".
Outras marinhas ali citadas: "marinha do sal que fora de Pedro Fernandes entre a Marinha dos Escudeiros e do Cabo de Aguião"; "marinha novamente rompida" chamada "os muros do Sambujeiro"; "Ilha da Marinha Nova", lavrada há 15 ou 16 anos; Ilhas (parece que Boelas; Marraceira; Laranjo e Lezíria ou Ilha do Cabo de Ovar Pequeno), de que o Cabido levava o dízimo de pão e sal, junto a ilhotes.
É o período de expansão marítima portuguesa e castelhana.


Assinalados pelas setas, actuais armazéns de sal no Cais da Ribeira, Ovar.
Do lado esquerdo, José Marques de Oliveira, e do lado direito MARICÉU

A corrida às salinas de Ovar avolumam-se ainda mais no início do século XVII, por empenho do Conde da Feira e do Cabido. Assim, em 26 de Maio de 1605 havia três "nos limites da Igreja da dita Vila (de Ovar), em "local magnífico para se fabricarem muitas mais". Eram:
 "Marinha que pera sal esta feita, que chamão de regueira Cova" confinando, a norte, com Marinha de pão de Fozelhas, e a sul com Marinha de pão de Mesas;
 "Marinha do meio que esta pera sal", junto à anterior;
 "Marinha de baxo que chamão de chequito" (do nascente com Marinhas de pão de Moos (Moz), do poente com Marinha de pão da Ilha nova".
Em 1608, o Cabido permitia ao Conde "abrir sertas prayas ao longuo do mar que fiquão nos lymites da freiguesya de são Cristovão de Cavanões (...) pera nas ditas prayas as mandar fazer marinhas de sal". Eram:  "a praya do vaqueiroo athe o rrosto que parte do sul com iilha de Rebordoza e Carvalhoza" (...); outra "do rrosto athe o cabo d'Ovar pequeno" (...) e do norte com esteyro de Toyoza (Tijosa) e do sul com esteyro de moõs"; outra "que comesa de chequito (...) e parte do norte com marinha nova"; outra "do Peguo (Pego) athe o corvo e parte do mar com rrapozeira (...) e do norte com rrapozeira e orelha de porco"; outra "do peguo pera o norte athe a ilha do ouzão e parte da serra com cal de rrogueira cova (...), do mar com cabo e marinha dos escudeyros e torrão do lameiro e area (areia) do mar e do norte e sul com Ryo da mesma praya; e outra do peguo athe a porta do Covelo (...)".
Repare-se no deslocamento das salinas para sul e poente da ria, quer pela busca de novas marinhas quer pela dessalinização das águas, devido ao recuo da barra até Aveiro.
Ainda em 1758 o Vigário de Ovar João Bernardino Leyte de Souza, informava, acerca do Rio em Ovar: "Cultiva-se a maior parte das suas margens de milho, o que dá em abundância; e outras partes são salinas de sal, e juncais..."
O Pároco de Segadães informava, na mesma data, que iam de Ovar a Águeda barcos com "provimentos de infinito sal, sardinhas e outros géneros..."
É que, até à abertura do caminho de ferro, a Ria era a via de comunicação privilegiada para todo o comércio do litoral. (O Carregal e a Ribeira eram os entrepostos de Ovar). O sal partia daqui para outras zonas do norte do País, nomeadamente a Régua, através do Porto do Carvoeiro (Canedo, Feira), no rio Douro.
Mas o sal extraído em Ovar ia decrescendo, e as marinhas que restavam acabaram por transformar-te em viveiros de peixe, em juncais e talvez em arrozais  até há 30 anos cultiva-se arroz na Moita...  e em marinhas de pão. (A Marinha Nova e a de Moz, como a de Fozelhas, de Mesas, etc., conforme se documenta no texto, já eram marinhas de pão).


Restos da Marinha do sal, a norte e nascente da Marinha Nova, entre a Tijosa e o
Torrão do Lameiro. Ao fundo, a "pequena casa" de vigia, e a moderna ponte da Varela

[FOTO: M. PIRES BASTOS]

A importância da Marinha do Sal, um pouco a norte, entre a Marinha Nova e a Marinha de Moz, está bem vincada na referência que ainda lhe é feita em documentos de há menos de um século.
Na compra de metade da Marinha Nova "com uma pequena casa", em 1890, em favor de Manuel Valente de Almeida (que já possuía o resto), lê-se que esta ilha "parte do nascente com a Marinha do Sal" e do norte com a ria do olho do Covelo e Marinha do Sal" (6).
O cais da Ribeira sempre continuou a manter os seus mercantéis nas lides do sal, alimentando um próspero comércio da especialidade, ligada a famílias locais - Cassena, Milhomens, Marques Branco, José Valente, David Lopes e esposa, Maria da Glória Sá Ribeiro e Rasteiros (Alzira Ferreira da Silva, José Marques de Oliveira e Maria do Céu Ferreira).
José Marques de Oliveira (Rasteiro) e esposa
Ainda hoje se mantêm ali duas empresas, José Marques de Oliveira, e C.ª L.da, a segunda das quais com uma importante fábrica de higienização do produto - a MARICÉU.
Alguns dos antigos nomes citados nos documentos referidos neste texto ainda são usados, como: Cabo do Var Pequeno (perto da Tijosa, frente ao bico do Torrão (Válega e Avanca); Carvalhosa (perto do bico do Torrão, no acesso à Ribeira de Ovar); Mós, Marinha de Mós e bico de Mós (na Tijosa, junto ao "esteiro das vacas"; Marinha Nova (entre Tijosa e Torrão do Lameiro); Morraceira (há o sítio da Mordaceira, próximo da Marinha Nova); Raposeira (nas Quintas do Norte, Torreira); Escudeiros (nome de uma família de Pardilhó que moliçava no interior da Marinha Nova); Cabo Aguião (ponta norte das Quintas do Norte, para lá do extremo de Ovar); Laranjo - junto à boca do esteiro para Avanca e Puxadouro (Válega); Ilhotes - entre o Torrão do Lameiro e o esteiro das vacas (Tijosa); Fozelhas - morros (ou bicos) na duna costeira da Ria, no Torrão do Lameiro; Chequito (ou pesqueiro do Chequito) - zona de água dentro da "Marinha Nova"; Pego - zona entre o sul da Marinha Nova até à Ponte da Varela; Covelo - é o braço da Ria que vem até ao Carregal; Talhadouro (há Ribeira - Telhadouro em Pardilhó).


NOTAS:
(1) "Ovar na Idade Média" transcreve o documento (ver Bibliografia).
(2) Padre Aires de Amorim (ver Bibliografia).
(3) M. Rodrigues Simões Júnior, "Mosteiro de Arouca...", em Arq. Dist. Av. XX.
(4) Padre João Vieira Resende (ver Bibliografia).
(5) Padre Aires de Amorim (ver Bibliografia)
(6) Arquivo da Família Vidal, de Ovar

Bibliografia
- Padre Miguel de Oliveira, "Ovar na Idade Média" Edição da Câmara de Ovar, 1967 (Documentação até 1514).
- Padre Aires Amorim, "Para a História de Ovar - Marinhas de Sal, nos séculos XV a XVII", em "Aveiro e o seu Distrito", n.º c5 (1968).
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
- "Milenário de Aveiro".
- Arquivo do Distrito de Aveiro.
- Padre João Vieira Resende, "Monografia da Gafanha".
- Cartório do Mosteiro de Grijó.
- Padre Manuel Pires Bastos, "O Concelho de Ovar nas Memórias Paroquiais (1758), Ovar, 1984.
- João de Araújo Correia, "Há Sal na Régua", Lisboa, 1958.

Texto publicado no n.º 19 da revista REIS/1985
Edição da Trupe JOC/LOC




Aos 56 minutos pode ver uma cena lindíssima passada na Ria,
em que o sal é transportado por um barco moliceiro. Aproveitem e vejam
esta obra-prima do cineasta Paulo Rocha (1935-2012), rodada em Ovar em 1966.

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