21.2.13

Arada – A arte de brincar com o fogo

Revista REIS/1993
TEXTO: Manuel Malícia

Descobrir uma marca identificadora da cultura aradense, que nos diferencie do “modus vivendi” das terras circundantes, é uma tarefa árdua. A abolição de fronteiras caracteriza a concepção de sociedade pós-moderna, onde impera a interculturalidade. Dito de outro modo, aquilo que é característico de uma freguesia vai sendo, gradualmente, adoptado por outras.

Antigo Largo de S. Martinho, Arada (Ovar)
Numa abordagem sócio-cultural, sempre que se deseja incorrer na especificidade de Arada, desaguamos, inevitavelmente, na pirotecnia. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Os aradenses têm uma apetência congénita para brincar com o fogo. Trata-se de um certo aventureirismo atlântico (não esquecer que o território de Arada termina onde o mar começa), que faz movimentar a vida da freguesia. Apesar de encarnar a passividade lusitana, o povo está consciente da necessidade de se pronunciar e de se unir em torno de causas; ponderado ou não, a verdade é que, em geral, nada passa sem um comentário. Nesse sentido, cada aradense será um pirotécnico em potência.

Arada em dia de festa de Nossa Senhora do Desterro

Recriação da antiga romaria de N.ª Sr.ª
do Desterro, pelo Rancho Folclórico
"Os Fogueteiros" de Arada - 
FOTO DAQUI
A pirotecnia não é originária de Arada. Foi importada de uma freguesia vizinha, no início do século, com a concessão de um alvará em nome de Manuel Correia Alves, natural de Travanca, que montou oficina no lugar das Pedras de Baixo. Seu cunhado, Ti Anainho (apelido por ser anão), anos mais tarde, instala-se no mesmo ramo com oficina sediada nas Pedras de Cima. Neste lugar tudo termina com a sua morte, exceptuando uma oficina clandestina, de curta duração, pertencente a Américo do Bola. Os descendentes de Manuel Correia Alves, os irmãos David e Felisberto, em negócios separados, deram continuidade à arte. Enquanto o ti David Fogueteiro cedeu a oficina a Augusto Resende(actualmente desactivada), o Ti Domingos do Felisberto herdou a do pai e transmitiu-a ao filho Manuel, actualmente o único fogueteiro em serviço.
Os fogueteiros tornaram-se um vector de distinção cultural desde que o povo os assumiu como parte integrante da sua vida. Até o Rancho Folclórico “Os Fogueteiros” aceitou tal baptismo, comprovando que a arte de brincar com o fogo nos aproxima como comunidade.
Por isso instituiu-se, no inconsciente da massa, que nenhum Aradense que se preze pode admitir a falta de foguetes em qualquer festa. Contrariar esta paixão é enfrentar a fúria do “bom selvagem”, que estabeleceu, através do fogo, uma aliança de fidelidade com o sagrado, e correr o risco de entrar em rota de colisão.
Logo, Arada, sem fogueteiros, não é Arada…

Texto publicado no n.º 27 da revista REIS/1993
Edição da Trupe JOC/LOC 

Sobre este assunto pode ler também o texto "Arte e memória dum povo – Pirotecnia em Ovar", de Maria Júlia Rangel.  (Clique no link a azul).

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