2.2.13

Família Colares Pinto – para a memória de Ovar

Revista REIS/1979
Doutor António Rodrigues Pinto
TEXTO: Pela Equipa

Ovar é como uma bela esposa mal apreciada!... São quase sempre os de fora a vir render-lhe os preitos mais rasgados ou a notar-lhe as consequências  de um emparedamento humano em que se deixa tomar, rotineira empedernida.
E como uma bela e pachorrenta dona, Ovar vai-se ficando retardada, desconfiada e ingrata muitas vezes com os que por ela se entregaram. Esquecendo depressa! Resignada a não dar outros passos para além do quotidiano obrigatório.
Vem-lhe essa passividade do sangue ancestral do lavrador e do pescador, moldados à condição dura e absorvente da luta pelo dia a dia, que lhes não permitia outros arronhos.
E, passe o tempo que passar, foram largos decénios de macrocefalia lá para o sul em que Portugal se ficava ali pelo meridiano de Lisboa... O resto, eram coutadas em que a gente afidalgada e alguns raros doutores com a nostalgia da província pontificavam com os recursos da instrução, de fortuna e do élan criador, adiantados para o estado quase geral de analfabetismo e servidão pátrios.


Quinta Colares Pinto (Ovar)
Vindima na Quinta Colares Pinto. Da esq. para a direita: Maria Hermínia, Maria da
Glória, Maria Adelaide, Maria Águeda, Inácia Adelaide e Maria Amélia
[FOTO CEDIDA POR MARIA ÁGUEDA COSTA, FILHA DE MARIA ADELAIDE]
Família muito unida, de haveres e cultura, de trato afável e ideias progressistas para a sua época, só por volta de 1930 e após a morte dos pais em Águeda, vieram fixar residência definitiva na quinta, até aí confiada a um feitor.
A partir dessa fixação, trouxeram a Ovar um sopro de vida nova e um notável brilhantismo que, nesse período, captaram a admiração e provocaram a visita de muitas personalidades gradas.

José Colares Pinto, pioneiro da agro-indústria

Investigador de espírito extravagante e irrequieto, contrastando com a descrição do porte baixo, pôs em experimentação os seus próprios inventos e as técnicas mais evoluídas dos países que visitava e que eram, naquele tempo e entre nós, considerados absurdos.
Abandonando o trabalho num Banco, fixou aqui residência com os irmãos (1930 ou 31). Desenvolveu grandemente a quinta nos sectores da agro-pecuária; na indústria de lacticínios e caseinaria, tendo ali montado a primeira fábrica de exportação que houve em Portugal de produtos de caseína. Imaginou a "Ovarlite", produto para fabrico de botões, para concorrer com a galalite dos mercados. Ergueu uma fábrica de pentes para aplicação de matéria residual do leite. Dotou os diversos sectores da quinta de máquinas sofisticadas e de engenhos próprios (alguns inacabados), graças aos quais foi possível obter a melhor manteiga da região; a melhoria de espécies pecuárias por cruzamento de raças escolhidas, algumas importadas (datam dessa época as primeiras exposições de gado com nomeada); os primeiros aviários (5 mil bicos com registo de produção diária) e os primeiros fornecimentos a hóteis da capital. Foi pioneiro, no país, a fazer experiências de inseminação artificial na pecuária e a manter a assistência permanente de medicina veterinária. Daí, tornarem-se frequentes os estágios de estudantes de veterinária na quinta que se tornou, entretanto, ponto obrigatório de visita para cursos que a família obsequiava principescamente.



Parte do que agora se pretende com a reforma agrária fora já uma experiência colectiva na herdade dos Colares Pinto em que se tentou criar uma exploração agrícola que se bastasse a si própria desde o contributo do padeiro, do sapateiro, da professora, do médico, da cozinheira e doutros que asseguravam os serviços básicos de uma comunidade de centenas de empregados. Construíram-se casas para o pessoal; uma capela para os hábitos religiosos; criaram-se secções desportivas e de ginástica com o pessoal, e uma biblioteca; promoveram-se récitas, palestras, feitas pelos próprios trabalhadores à comunidade sobre temas à sua escolha; projecções de slides e filmes...
Instituiu-se o exame clínico periódico (a cargo do doutor Afrânio), nessa época tão parca em assistência médica aos empregados.
Conseguiu campos produtivos conquistando os areais palmo a palmo; importando sementes; animando os camponeses mais cépticos para as técnicas agronómicas mais modernas e desconhecidas aqui.
Poderia ter sido um investigador criterioso se tivesse nascido noutro país!

De Pedro, o diplomata, a Manuel, o literato...

Jornal "João Semana" de 23/04/1953
dava conhecimento do programa de rádio
"Ovar ao Microfone", uma iniciativa
de Manuel Colares Pinto
Pedro, o gentleman de impressionante nobreza, elegância e simplicidade, cotado nos meios financeiros – fora gerente de um Banco e só aos fins de semana vinha para Ovar , viria a sofrer mais duramente os reveses da má administração que, em parte, lhe era oculta nessas visitas, num pudor desfocado das realidades.
Quanto a seu irmão Manuel, de vocação literária, fez parte da companha do jornal "Notícias de Ovar"; iniciador ou esteio de tertúlias, movimentos e associações culturais entre outros o nosso Orfeão; criador do programa radiofónico de uma hora semanal "Ovar ao microfone"; membro do Turismo local e lutador acérrimo pela instalação em Ovar (quase iminente) do Rádio Clube Português..., iniciou o parque de campismo, sito na quinta, que albergava gente de toda a Europa. São inúmeros os que conhecem Ovar pelas facilidades assim recebidas. E, ainda hoje, vale a pena consultar o álbum de agradecimento de estrangeiros.
Enfim, é tão profusa e dispersa a acção dinamizadora desta família singular, que se torna complexo e mesmo impossível para o breve espaço que aqui dispomos, historiá-la convenientemente.

O reverso da medalha...

Segundo opiniões de amigos e de colaboradores saudosos, os Colares Pinto foram prejudicados pelo excesso de bondade e de honestidade.
"... Queriam produzir sempre o que havia de melhor qualidade sem olhar a gastos. Idealistas como eram, o aspecto económico nunca lhes serviu de objectivo"... "Na crise após a última Grande Guerra  lembrou outro para exemplificar  os compradores de manteiga ofereciam mais do que o preço devido, para assegurarem as entregas da mercadoria. Pois eles mandaram devolver o excesso de dinheiro". Eram contra o oportunismo comercial. "O nosso hospital muito deve à D. Maria Águeda, de quem recebia, diariamente, o gelo de que precisava"  recordava outro.
Abertos aos simples num período em que a separação entre classes era bem demarcada, "não havia peixeira nem canastra do Furadouro que não contassem com boleia até à vila... Mas no fim, até muitos daqueles que tinham sido íntimos e beneficiados, ao passarem nos seus carros, deixaram de conhecê-los a pé e despojados"...
Se um empregado, ou familiar deste careciam de tratamento, de operação, de recurso judicial ou outro qualquer, fosse onde fosse, logo a família intercedia, e muitas portas eram assim franqueadas num tempo nada acessível aos desfavorecidos.
Porém, como "quando o barco se afunda até os ratos os abandonam", no desabafo de Dona Maria Águeda, doeu-lhes mais a súbita solidão em que ficaram, eles que viveram cercados de respeito e de admiração e disponíveis a todos. Esquecidos pelos oportunistas e bajuladores disfarçados de amigos, mas, sobretudo de gente de todos os escalões que se valeram do seu prestígio e influência em horas de aflição. De todos esses, só as fiéis Esmeralda e Maria dos Anjos, antigas empregadas da casa, os acompanharam, cuidando ainda, com desvelo, das últimas três irmãs, bem como um ou outro ex-empregado mais dedicado e sensível.

Casa da Quinta Colares Pinto
[FOTO CEDIDA POR MARIA ÁGUEDA COSTA]
Não foram só as deficiências da administração a cargo do irmão Manuel; nem as dificuldades agravadas para a exportação ou o excesso de idealismo sem o suporte de objectivos rentáveis que garantissem a solidez do intento! Foram também os clamorosos abusos de muitos colaboradores e empregados em que ingenuamente confiavam; a falta de quadros responsáveis e a ausência de uma política governamental de apoio e orientação para a reconversão das indústrias em hora de mudança.
Hoje a quinta é só um monte de ruínas. Foi recentemente adquirida por outra família forasteira, os Amorins, de Lamas. Visam a construção de um complexo hoteleiro e turístico de grande envergadura, com piscinas, campos de ténis e golfe, hipódromo, residências, etc.
Os sonhos de progresso de uma família dão lugar a novos eventos, numa esperança que enche os vareiros de nova expectativa e de algum cepticismo.
As ideias avançadas da família Colares Pinto serão realizadas, no futuro, pelos últimos compradores do seu espólio?
Se "nada se perde mas tudo se transforma", oxalá que também na química das ideias valha a pena ter-se desejado e sofrido tanto para amadurecer, num tempo talvez prematuro, o fruto de que todos estamos carecidos: o progresso desta terra.
De resto, se num meio tão pobre, as falhas de acolhimento terão chocado muitas vezes com a ostentação de um nome, o certo é que se pode julgar justamente no quadro da mentalidade de cada época.
Mas as virtudes, quem as lembra? Os aspectos positivos, quem os recorda e os celebra ainda hoje?

Aspeto da Quinta Dr.Pinto (Carregal, Ovar)

Que legado ficou para Ovar? Permitimo-nos responder com outra pergunta: – tudo o que é válido se deve então "contabilizar"?
"Contabilizam-se, por acaso, todos os poemas, todas as telas, todos os pensamentos válidos que, embora não sendo obras de arte tornadas conhecidas e imorredouras, são, no entanto, o tónus e o fundo de referência de uma civilização? Eles foram, a seu modo e no seu tempo, agentes de civilização num meio ignorado e indigente de tudo. Fizeram eco deste ponto perdido no mapa e aceleraram a sua promoção em vários decénios.
Por eles, o lavrador empírico conheceu novas técnicas; o pescador de vida incerta aventurou-se mais como proletário estável; o trabalhador adquiriu maior consciência comunitária de alguns dos seus direitos e possibilidades.
Foi como uma lufada de ar fresco a percorrer Ovar, naquele tempo. Com mais energia temperamental e afectiva do que cálculo administrativo e senso burocrático; com mais élan criador do que a prudência dos limites ou sujeição disciplinada às regras da realidade..., a família Colares Pinto – sem o saber – assinou nos areais do Carregal a viragem da civilização burguesa paternalista do final do século e meados deste, à idade nova da emancipação proletária em Ovar.
Foram visionários na sua época. Hoje, noutra fase da consciência deste país, talvez fossem revolucionários.
Passam os homens, mas deixam sempre rastos na memória duma aprendizagem de novas formas de viver... "pois sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança"...
Ovar esquece depressa. E o que cai esvaído de forças é sempre o alvo da crítica fácil dos que nunca saíram da tábua rasa das ideias e das obras.
Tantos nomes na toponímia vareira e que fizeram muito menos por esta terra salgada entre mar e ria.
Que ao menos, ao corporizarem-se os seus ideais de progresso inconformado com a apatia vareira, ali mesmo, na extensão arenosa que lhes sugou o sonho e as esperanças, a edilidade lhes reserve breve espaço para uma gratidão que perdure entre nós, a lembrar-nos que só se merece o presente quando e enquanto se prepara o futuro.

Aos descendentes, as nossas desculpas pelo incómodo deste registo, em que nos esforçámos pela exactidão, com o maior respeito dos vareiros contemporâneos. E não só.
Julgamos que, se é tempo de acabar com os títulos póstumos, também é sempre oportuno reconhecer valores.
Aos amigos e ex-colaboradores da família, que gentilmente acederam a uma troca de impressões (Senhores Coentro de Pinho, Humberto Pacheco, José Maria da Graça, Manuel Ferraz e família Cascais de Pinho), o nosso agradecimento.
Este trabalho só foi possível pela vossa contribuição. Não soubemos dizer melhor o muito que nos comunicaram.

Texto publicado no n.º 13 da revista REIS/1979
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/p/textos-editados-neste-sitio-29.html

LEIA TAMBÉM O TEXTO "OS CÃES DO COLARES PINTO". Clique no link a azul.

Adenda -----------------------------------------


Notícia publicada no jornal "João Semana" de 05/05/1949 

1 comentário:

  1. Boa Adenda. Lembro-me vagamente desse dia.
    O Senhor Ramada e meu tio foram muito amigos. Grande Homem, esse senhor.
    Maria Águeda.

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