1.3.13

As galinheiras

Galinheiras de Ovar
Revista REIS/1978
TEXTO: Rosa d'Assunção

Das típicas figuras que vão desaparecendo do nosso burgo pela mutação de hábitos e costumes, recordaremos hoje as galinheiras.
Será com saudade que os menos jovens recordarão os anos 30 e 40, quando elas vestiam tipicamente à vareira, de pé descalço, saia travada, ensacada pelo cinto, avental rodado, sem faltar o chapelinho.
Era realmente agradável ouvir o seu pregão bem timbrado de "Venda alguma galinha!...", oriundo das bandas da Bairrada, e com o sotaque murtoseiro.
Sim, porque ovarense apenas era a Sr.ª Guilhermina, já falecida, e a sua filha, que já não trabalha, porque todas as outras  e foram bastantes  eram murtoseiras.
Ainda hoje vem da Murtosa a Ovar todas as semanas, dar as suas "voltas" a Celestina Galinheira, já dos seus 60 anos. Sua mãe, Sr.ª Assunção Caravela, tal como sua irmã e a prima Maria Augusta, a Sr.ª Encarnação Canta e sua filha, a Sr.ª Rosa Pita, e Maria Luísa, todas também murtoseiras, trabalhavam em Ovar.
De resto, a Sr.ª Rosa Galinheira (também já com Deus), a Sr.ª Assunção, que, pela sua avançada idade, já não trabalha, a Sr.ª Irene, que ainda continua, não são naturais de Ovar  embora aqui radicadas há muito   mas de Avanca, tendo ido buscar o seu modo de vida à Murtosa, trazido pela Sr.ª Assunção, aquando do seu casamento em Ovar.
Consistia este negócio em comprar, porta a porta ou na praça, toda a espécie de galináceos ou coelhos criados em casa, com restos de comida, couves, farinha e milho, pois não havia na época rações fabricadas, e muito menos aviários.
A recolha das aves ou animais era feita numa canastra bojuda com uma armação superior revestida a rede de arame, formando uma pequena gaiola itinerante transportada à cabeça, no calcorreamento diário das ruas da Vila ou das aldeias, enquanto, simultaneamente, se ouvia o tal pregão bem timbrado, avisador da sua passagem...
"A GALINHEIRA"
Desfile de Trajes do Concelho
de Ovar (16/10/2011)
Nessa altura, e durante alguns anos, era a criação comprada em Ovar e redondezas pelas Galinheiras, e despachada para Lisboa e Espanha, primeiro por via férrea, e mais tarde em camionetas.
O acondicionamento dos bichos era feito em engraçadas canastras em forma paralelepípeda (na foto). Hoje, apenas se despacha, e em pequenas quantidades para Lisboa.
Há vendedores no mercado abastecedor de Lisboa que vendem à comissão toda a mercadoria recebida de Ovar pelo preço do mercado do dia, sendo da conta das "Galinheiras" todas as despesas inerentes à venda ao público, inclusive à entrada do mercado.
Embora outrora atingisse certas proporções, hoje é um negócio em extinção, pois, além de pouco rentável, é incerto. Por isso, os descendentes destas famílias não lhes seguiram as pisadas. Como curiosidade, anotaremos que, no mercado semanal, antigamente feito nas ruas da nossa Vila, onde se vendiam as galinhas ao público ou às galinheiras, era no Largo Mouzinho Albuquerque, mais conhecido por Largo de S. Tomé ou Praça das Galinhas.
Desta simpática gente, trabalhadora e honrada, é com saudade que, entre outras, recordamos particularmente a figura da Sr.ª Rosa Galinheira, sempre muito corajosa, alegre e bem disposta, sempre pronta para conversar e dizer as suas graças, mas, sobretudo, muito prestável e honesta nos seus negócios. Por isso os habitantes da Marinha e do Torrão do Lameiro esperavam-na com ansiedade, à quinta-feira, como quem espera o jornal da manhã, tendo sempre uma palavra amiga, e às vezes de novidade sobre qualquer notícia que ouvia ler no jornal. Uma alma simples, aberta e generosa, a quem o "Pimo", o Chiquinho da Marinha, lhe chamava "Mainha Rosa", como gratidão pelo caldo e pelo pão de todos os dias, e pelo banho semanal.
E foi assim  e ainda continua   o viver desta gente simples, que faz parte do bom povo vareiro.

Texto publicado no n.º 12 da revista REIS/1978
Edição da Trupe JOC/LOC 
http://revistareisovar.blogspot.pt/2013/03/as-galinheiras.html

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