20.4.13

Francisco Ramada – A vida e a obra dum lutador inato

Revista REIS/1989
Francisco de Oliveira Gomes Ramada
(1880-1978)
TEXTO: Pela equipa da REIS

«Eu estou a sentir um vento norte; se ele me pega, abro-lhe o pano todo, e hei-de navegar em boas águas!»

Na galeria dos Grandes Homens de Ovar, avulta, a corpo inteiro, o retrato de Francisco Ramada, o Industrial que emergiu do fechado mundo vareiro para se guindar à escala da economia nacional. Ovar celebrou, em 1988, o centenário do nascimento deste Homem que alguém classificou como "esperto, vivo e vidente".
A Revista "Reis" não quis deixar de se associar a tão importante efeméride, registando nas suas páginas alguns testemunhos sobre a Vida e a Obra deste lutador inato que, ao recomeçar a sua atividade, após alguns desencantos anteriores, proferiu estas palavras proféticas, agora recordadas pelo Sr. Telmo Carvalho Silva que , apesar da diferença de idades, teve o privilégio de conviver de perto com ele.
"Eu estou a sentir um vento norte; se ele me pega, abro-lhe o pano todo, e hei-de navegar  em boas águas!"


"Um homem que me deixou muitas saudades"

Entrei na firma em 1943, quando um dia, com 14 anos, me dirigi pessoalmente ao Sr. Coentro de Pinho, a pedir trabalho. Anos depois, cumprido o serviço militar, e com carta de condução, passei a ser motorista da firma.
Assim começou o seu depoimento ao Sr. Alfredo Monteiro dos Santos, que a partir de 1954 passou a ser motorista particular de Francisco Ramada.

Durante 15 anos percorri o país de lés-a-lés, transportando um homem invulgar, com um modo excepcional de lidar com as pessoas. A mim tratava-me como um seu filho... Tinha um apurado sentido de justiça. Os meus olhos viram como tratava os seu operários e os seus colaboradores, fossem eles de Ovar, da Torreira ou do Algarve. Considero-o como tendo sido «o pai do povo de Ovar»! Só deixei de o acompanhar nas deslocações maiores, sobretudo nas idas anuais para o Algarve, quando enviuvei, ficando com a responsabilidade de criar e educar quatro filhas menores.
E o Sr. Alfredo concluiu:
Francisco Ramada: Um Homem que me deixou muitas saudades!...

«Não havia pessoa igual em Ovar»
Impunha-se ouvir também Palmira da Silva, que desde os 27 anos, e durante quatro décadas, serviu o casal Ramada. (Curiosa a coincidência do seu nome com o da senhora D. Palmira Gomes Pinto, facto que mais aproximava a patroa e a empregada).
Fui sempre considerada pelo senhor Ramada como pessoa da família, apesar da minha condição de empregada. Mas isso passava-se não só comigo, mas com qualquer pessoa que lidasse com ele, fosse operário ou amigo. E mesmo que não fosse! Não havia pessoa igual em Ovar... Era o "pai dos pobres".
E explicitando esta ideia:
Pobre que lhe batesse à porta não ia sem esmola. E não admitia que qualquer criado o fizesse. Ricos e pobres mereciam a sua atenção e estima. Conheci muitos casos de empregados seus que adoeciam e a quem ele subsidiava, bem como às suas famílias, com dinheiro, remédios, e a quem até fazia a sua visita.
Francisco Ramada

Recordando os bons e os maus momentos do Sr. Francisco Ramada, conta-nos com emoção:
  Depois do fracasso, veio de novo a prosperidade, com o início da atividade dos aços. Transportei diariamente à cabeça muitas canastras carregadas com fita de serra, para despachar na estação para muitos lados. Senti muita alegria nesta humilde colaboração, pois, para além de viver tudo de muito perto, considerava o Sr. Ramada não como um patrão mas como um verdadeiro pai.

E a Sra. Palmira, que ainda hoje se conserva na casa, como se de verdadeira relíquia familiar se tratasse, acrescenta:
Sempre acompanhei a família, quer em Ovar, quer no Algarve, onde vivemos inicialmente, numa velha casa adquirida para passar períodos de recuperação de saúde dos seus familiares, e que, mais tarde, viria a ser uma casa com todo o conforto, integrando uma vasta área de praia.

«Homem do possível e do impossível»
Entre os serviços prestados às diversas associações e coletividades de Ovar, destacamos o de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, de 1946 a 1950.
Eis o testemunho de um colega de então, Sr. António Coelho.
É do seu tempo a construção do Bairro da Misericórdia, e a remodelação e modernização do Hospital, com obras de vulto. Era o Homem do possível e do impossível. Como companheiro da Mesa, apercebi-me de um homem de real gana, homem com quem se podia trabalhar, mas que também não admitia falhas. Melhor se poderá apreciar o seu e o nosso trabalho se nos lembrarmos de que, nessa altura, a Misericórdia não tinha quaisquer verbas ou subsídios estatais.

«Deixou um lugar vazio»
Registamos ainda o testemunho de David Almeida, seu colaborador no sector administrativo:
Falar do senhor Francisco Ramada é de lembrar o Amigo e o Homem que, de marçano numa loja do Largo Conde-Barão, em Lisboa, firmou, no País, o comércio e as industrias de aço, serras e serrotes. Eu era professor do Ensino Técnico Comercial quando fui convidado para os quadros da sua empresa, já lá vão algumas dezenas de anos. A profissão de que então mais gostava foi substituída, por confiar num Homem de grande visão e percepção. Mas o senhor Francisco Ramada não era somente uma grande figura do trabalho. Era, também, um amigo a quem sempre estive reconhecido. Não esqueço as vezes em que, de regresso da Vagueira, com  o seu dedicado Alfredo, passava por minha casa para me deixar uns molhos de espargos, de que tanto gosto! Morreu. Deixou um lugar vazio.

Uma lancha para o Turismo
Na sua passagem pela Junta de Turismo do Furadouro, de 1946 a 1954, Francisco Ramada teve acção notória, salientando-se o seu empenhamento na divulgação das belezas da Ria. Nesta perspectiva, e entre outras coisas, mandou colocar placas alusivas em todas as entradas da vila.
Em complemento desta divulgação, mandou construir uma lancha para facilitar viagens turísticas através da ria, numa altura em que nem estradas marginais condignas existiam.
Dinamizou globalmente todo o sector turístico, pois era um homem de larga visão. Até neste aspecto via ao longe!
Não podemos esquecer ainda o seu grande apoio à imprensa local.
Uma forte personalidade, e muito enérgico! - afirma-nos um antigo colaborador seu no Turismo vareiro, José Maria Fernandes da Graça.

A nova fábrica F. Ramada  Laminagem , na estrada do Furadoro (Cova do Frade), constituiu um passo
decisivo para a afirmação, a nível nacional, de uma empresa genuinamente vareira, que há dois anos
comemorou meio século de vida, e se prepara para competir com a indústria europeia. 

«Homem que marcou uma época e se projetou para além dela»
Finalmente, aqui fica o depoimento de outro colaborador, Manuel Ferreira Gomes:
 O que quero frisar é que, tendo ficado numa situação extremamente difícil em certa época da sua vida, por adversas ocorrências que o levaram a perder tudo quando possuía, teve este homem a coragem, alguns anos depois, partindo da estaca zero, de empreender a recuperação da sua vida com uma confiança que só conseguem os homens de rija têmpera, de espírito inconformista e de larga visão.
Com uma afirmação de vontade exemplar, que não conhecia desânimos nem hesitações, ele foi criando e alicerçando uma obra que viria a impor-se no país e até no estrangeiro, e que lhe veio a valer o reconhecimento a nível governamental, ao ser-lhe atribuída a Comenda de Mérito Industrial.
A este grande empresário vareiro nortearam-no sempre quatro princípios importantíssimos para que a empresa pudesse singrar: 1 - procurar servir os clientes o melhor possível, e com artigos de qualidade; 2 - o cliente - pequeno ou grande, não importa - deve ser tratado com toda a deferência e carinho em qualquer circunstância, para que volte sempre; 3 - o cliente tem sempre razão; 4 - são eles, os clientes, quem manda.
Muito deve a nossa terra a este homem no aspecto económico e social, numa altura em que arranjar emprego em Ovar era coisa bem difícil.
Que era temperamental, por vezes, que barafustava desabridamente por isto ou por aquilo, é uma verdade. Mas, intimamente, era um homem bom e humano, que todos respeitavam.
Os jantares anuais de confraternização que durante muitos anos a firma oferecia a todo o seu pessoal, eram prova irrefutável disso, pois com todos conversava, a todos atendia, com todos convivia, constituindo, empregados e patrões, como que uma única família, a tal Família Ramada, como ele tanto gostava de lhe chamar.
Francisco Ramada (O Pai Chico, como muitas vezes era tratado carinhosamente pelas pessoas mais da sua amizade) foi um homem do seu tempo, que marcou uma época e que se projectou para além dela, sempre avesso a comodismos.
Poderia ter limitado a sua acção ao sector com que iniciou a sua actividade em Ovar, ou seja, das ferramentas para as industrias de serração de madeiras e de cortiça, com meia dúzia de funcionários o que, por certo, lhe teria proporcionado um certo desafogo económico , e deixar correr o marfim. Mas não. Numa ânsia de fazer cada vez mais e melhor, de ir cada vez mais além, foi alargando o âmbito da sua atividade a outros sectores industriais importantes.
FRANCISCO RAMADA
(desenho de Zé Penicheiro)
Por tudo isto, Ovar deve-lhe muito, e o seu valor como empresário e como amigo das nossas coletividades e instituições tem de ser conhecido e não relegado para o limbo do esquecimento.

Um retrato inédito de Francisco Ramada

Zé Penicheiro foi largos anos colaborador da Empresa de Francisco Ramada, no sector da publicidade. Privou de perto, e familiarmente, com ele, pelo que muito poderia dizer. Mas achou que os testemunhos registados nestas colunas, alguns deles provindos de seus antigos colegas de trabalho, retratam cabalmente o perfil do homem e do empresário que quisemos perpetuar com esta homenagem.
Como artista de mérito, e utilizando a linguagem de que gosta, é com uma ilustração que ele colabora, apresentando-nos um retrato inédito de Francisco Ramada criado em 1958.

Texto publicado no n.º 23 da revista REIS/1989
Edição da Trupe JOC/LOC 
http://revistareisovar.blogspot.pt/2013/04/francisco-ramada-vida-e-obra-dum.html

1 comentário:

  1. Que saudades... Que bonito!!! Maria ramada leite

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