16.5.13

Álvaro Ferreira Malaquias

Álvaro Ferreira Malaquias
Um rumo comercial
feito de amor e de missão

Revista REIS/2002
TEXTO: Manuel Catalão

Desta janela aberta para a nossa cidade e para as suas gentes, continuamos a dar visibilidade a percursos de vida feitos de natureza vária, diferentes porque protagonizados por pessoas, iguais porquanto qualquer um deles, a seu modo, entronca na senda dos testemunhos que enriquecem e perpetuam a história de Ovar e suas gentes.
Ecoavam pela Europa Central os mortais estrondos de uma guerra que viria a sentenciar de morte centenas de milhar de tenras vidas e faziam-se sentir já as consequências políticas, económicas e psicológicas de tão horrendo conflito quando, ao cair das primeiras folhas outonais, mas ainda sob o tempero, já envergonhado, de um sol sedento das entranhas que o acolhem nas profundezas do oceano que nos bafeja com a sua presença, nasceu em Ovar a figura que hoje trazemos à colação.

Álvaro Ferreira Malaquias terá, pela primeira vez, sentido a fragrância oriunda das então frondosas árvores que adornavam de agradável sombra o Jardim dos Campos, espaço de convívio entre adultos e palco de seguras e divertidas brincadeiras de crianças, no dia 28 de Setembro de 1914, vão decorridos oitenta e sete anos de força intensa de viver, misturada com alguma imprevista adversidade.
Terceiro de meia dúzia de filhos, gerado no seio de família altamente cotada no meio industrial da transformação e distribuição alimentar, teve uma infância não directamente afectada pelos factores externos já aduzidos, dando forma e vigor a um corpo de aparência atlética que ainda hoje se passeia pelos mesmos trajectos de sempre.

Dos devaneios ao sucesso empresarial

Aos dezasseis anos de idade, e em pleno período de afirmação escolar, num tempo em que o sonho ainda domina o racional, a doença irreversível de seu pai projeta-o para a abrupta assunção de responsabilidades na gestão do armazém de vinhos e azeites da firma José Ferreira Malaquias.
Para trás ficavam os devaneios. Era tempo de vencer o presente e agarrar o futuro. A paternal cumplicidade do seu enfermo pai, primeiro, e, depois, a maternal disponibilidade de sua mãe, até então pouco predisposta para o mundo dos negócios, foram esteios preciosos para tornear as óbvias dificuldades encontradas e materializar a afirmação pessoal e profissional. Familiarizado já com as rotas vinícolas do Dão, Bairrada, Oeste e Ribatejo, identificado com o potencial da carteira de clientes, Álvaro Malaquias delineou uma estratégia de crescimento empresarial baseada fundamentalmente, na qualidade do produto.
Com o capital social e humano reforçado pela entrada de seu irmão Carlos, entretanto regressado do Brasil, com a pujança e ambição próprias dos seus 36 anos, revendo-se no passado e projectando-se no futuro, exporta vianda para as ex-colónias ultramarinas de S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, alargando o espetro da sua acção à República Centro Africana, à África do Sul e à ex-República Equatorial Francesa, hoje denominada República Popular do Congo.
Desta forma, o nome de Ovar dobrou o Cabo Adamastor e chegou a um Continente distante, fruto exclusivo da audácia e férrea determinação do líder Ferreira Malaquias, Lda. (Não posso, aqui e agora, confrontado com a história deste importante passo, deixar de recordar uma madrugada tépida e viscosamente húmida, na qual, tacteando pela escuridão do porto de Luanda, em trânsito para Moçambique, e após 12 penosos dias de viagem, foi possível mitigar a muita saudade da minha terra, deparando com alguns barris de 100 litros que ostentavam, na alvura das suas letras, o nome de "Ferreira Malaquias, Lda - Ovar - Portugal").
Álvaro Malaquias não caminhou sozinho para o sucesso. Teve sempre a seu lado o forte arrimo de sua dedicada esposa, D. Rosa Malaquias, nascida na vizinha freguesia de S. Vicente de Pereira, senhora dotada de extraordinários dons de companheirismo e solidariedade, que o presenteou com três filhos, um dos quais, infelizmente, recentemente subtraído ao reino dos vivos.

O Desporto e as Instituições locais

Enquanto adolescente e jovem, e mesmo já em idade adulta, e porque fisicamente e mentalmente estruturado para a prática desportiva, ainda que de conciliação difícil para com as opções familiares e profissionais que teve que assumir, praticou Basquetebol na A. D. Ovarense (de cuja primeira equipa fez parte), fez lançamento de Disco, foi um exímio remador, madrugando nas manhãs de veraneio para estilhaçar as silenciosas águas e o denso nevoeiro matinal da nossa Ria, em vigorosas e ritmadas remadelas, exercitou a prática da Vela, manejou as raquetas de ténis com incontestável perícia, manuseou armas em Tiro de Guerra e na prática da Caça, da qual ainda é um fervoroso apaixonado. Em todas estas práticas Álvaro Malaquias foi distinguido com diversos troféus e medalhas, resultado das boas performances atingidas.
Ainda jovem, na década de quarenta exerceu funções de mesário na Santa Casa da Misericórdia de Ovar, de onde viria a sair por razões de natureza política, configuradas no apoio à candidatura de uma figura oposicionista ao poder estabelecido pela Ditadura do Estado Novo, tendo tido também uma curta experiência como membro dos órgãos directivos da A. D. O..
Entretanto, e porque a década de sessenta tinha sido particularmente fértil na instalação, sobretudo nos grandes centros urbanos, de cadeias de supermercados, dá azo à formação de uma nova sociedade comercial  "Novo Horizonte-Supermercados" , vindo a inaugurar, no segundo semestre de 1972, os primeiros supermercados nas cidades de Ovar e Espinho, experiência que, pelo evidente sucesso alcançado, viria, mais tarde, a ser reforçada com a abertura, nas mesmas localidades, de duas novas unidades. Fazendo da análise de mercado uma segura fonte de investimento, viria ainda a instalar na laboriosa urbe de S. João da Madeira o quinto e último espaço desta Empresa.
Desde há 80 anos que o átrio de sua casa
se abre às Trupes de Reis
Álvaro Malaquias não deixou de se associar, como vareiro e como investidor, à vontade de promover Ovar sob o ponto de vista turístico e cultural, estando na génese da Sociedade que deu corpo à edificação do Cine-Teatro de Ovar e do saudoso Hotel Mar e Sol.
Como figura de especial proeminência no tecido empresarial ovarense, claramente identificado com os ideais que norteiam o Movimento Rotário Internacional, viria a ser convidado para a Fundação do Rotary Club de Ovar. Arregimentando vontades de servir, viria a ser alcançado tal desiderato na inesquecível cerimónia festiva da entrega da Carta na Quinta Colares Pinto, também de boa memória, vão decorridos 40 anos.
Amante da vida, pesa com extraordinário apego os momentos de leitura e repouso no arejado e arvóreo espaço que possui paredes meias com as turvas e calmas águas da sempre adiada Ria de Aveiro, a nascente, e com as ainda livres dunas marítimas, a poente.
Ovarense convicto, estima com arreganho as tradições locais, concedendo especial enfoque ao costume dos Reis. Recorda-se ainda menino, de saltitar por entre os convidados de seu pai, aquando da actuação, em casa, das então duas troupes de Reis. Daí, o facto de há mais de trinta anos franquear o amplo espaço de entrada de sua casa, qual palco privilegiado pelo clássico estilo de construção e decoração, para a exibição das mais provectas Trupes, sendo de realçar a circunstância de Álvaro Malaquias dar a conhecer a centenária tradição reiseira a grupos de vinte convidados, provenientes do seu leque de amizades, de clientes ou de fornecedores. Refere-nos, com sentida alegria e bairrismo, que os mesmos, quase sempre renovados anualmente, regressam a suas terras tecendo os mais elevados encómios a tão nobre e bela tradição, levando Ovar e a natureza das suas gentes, espelhadas em tão simples actos de verdade e de voluntariedade no coração.

Cash & Carry - Uma aposta ganha

Na comemoração do Centenário da sua Empresa, Álvaro Malaquias
rodeado dos filhos Álvaro (falecido), Fernando e Lídia, e da neta Laura
No mundo empresarial de hoje, não prever é já perder! Por tal facto e face ao crescente impacto das grandes superfícies grossistas e de retalho, Álvaro Malaquias e família não poderiam deixar por mãos alheias os seus centenários e sólidos créditos, avançando para a criação de uma sociedade comercial exclusivamente dedicada à exploração de uma superfície de grande dimensão regional. Assim nasceu o "Cash & Carry" instalado na Zona Industrial de Ovar, que representa já uma aposta ganha, não só em termos de implantação do volume de negócios mas também em termos de continuidade, não fosse a gerência exercida quase na totalidade pelos filhos Lídia e Fernando e por dois jovens e talentosos netos  Laura e Ricardo.


Cashy & Carry Malaquias - uma grande superfície comercial
que se projecta em toda a nossa região

Para este êxito tem sido importante a relação séria e responsável que Álvaro Malaquias sempre imprimiu nos contactos com os seus assalariados, desde aqueles que nos primórdios modelavam a forma das volumosas pipas ou carregavam sobre o dorso densos sacos de cereal, até àqueles que hoje gerem extensos stocks em sofisticados programas informáticos.
Conversar com Álvaro Malaquias foi fácil. Ele é espontâneo na transacção da palavra, o seu olhar mantém sempre vivo um outro olhar, igual e anterior, qual referência de um rumo feito de entrega e de amor, de missão, enfim!
Desta janela aberta para a nossa cidade, em tempo de esperança de uma paz que não existe, num tempo de amor que carece de ser amplamente solidário, soltamos ao vento e para a história da nossa terra mais um são exemplo de apego a Ovar, às suas instituições e às suas gentes.

Texto publicado no n.º 36 da revista REIS/2002
Edição da Trupe JOC/LOC 

http://revistareisovar.blogspot.pt/2013/05/alvaro-ferreira-malaquias.html

Álvaro Ferreira Malaquias faleceu no dia 7 de maio de 2013, em Ovar, aos 98 anos de idade.

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