![]() |
| Álvaro Ferreira Malaquias |
feito de amor e de missão
Revista REIS/2002
TEXTO: Manuel Catalão
Desta janela aberta para a nossa cidade e para as suas
gentes, continuamos a dar visibilidade a percursos de vida feitos de natureza
vária, diferentes porque protagonizados por pessoas, iguais porquanto qualquer
um deles, a seu modo, entronca na senda dos testemunhos que enriquecem e
perpetuam a história de Ovar e suas gentes.
Ecoavam pela Europa Central os mortais estrondos de uma
guerra que viria a sentenciar de morte centenas de milhar de tenras vidas e
faziam-se sentir já as consequências políticas, económicas e psicológicas de
tão horrendo conflito quando, ao cair das primeiras folhas outonais, mas ainda
sob o tempero, já envergonhado, de um sol sedento das entranhas que o acolhem
nas profundezas do oceano que nos bafeja com a sua presença, nasceu em Ovar a
figura que hoje trazemos à colação.
Álvaro Ferreira Malaquias terá, pela primeira vez,
sentido a fragrância oriunda das então frondosas árvores que adornavam de
agradável sombra o Jardim dos Campos, espaço de convívio entre adultos e palco
de seguras e divertidas brincadeiras de crianças, no dia 28 de Setembro de
1914, vão decorridos oitenta e sete anos de força intensa de viver, misturada
com alguma imprevista adversidade.
Terceiro de meia dúzia de filhos, gerado no seio de
família altamente cotada no meio industrial da transformação e distribuição
alimentar, teve uma infância não directamente afectada pelos factores externos
já aduzidos, dando forma e vigor a um corpo de aparência atlética que ainda
hoje se passeia pelos mesmos trajectos de sempre.
Dos devaneios ao sucesso empresarial
Aos dezasseis anos de idade, e em pleno período de
afirmação escolar, num tempo em que o sonho ainda domina o racional, a doença
irreversível de seu pai projeta-o para a abrupta assunção de responsabilidades
na gestão do armazém de vinhos e azeites da firma José Ferreira Malaquias.
Para trás ficavam os devaneios. Era tempo de vencer o
presente e agarrar o futuro. A paternal cumplicidade do seu enfermo pai,
primeiro, e, depois, a maternal disponibilidade de sua mãe, até então pouco
predisposta para o mundo dos negócios, foram esteios preciosos para tornear as
óbvias dificuldades encontradas e materializar a afirmação pessoal e
profissional. Familiarizado já com as rotas vinícolas do Dão, Bairrada, Oeste e
Ribatejo, identificado com o potencial da carteira de clientes, Álvaro
Malaquias delineou uma estratégia de crescimento empresarial baseada
fundamentalmente, na qualidade do produto.
Com o capital social e humano reforçado pela entrada de
seu irmão Carlos, entretanto regressado do Brasil, com a pujança e ambição
próprias dos seus 36 anos, revendo-se no passado e projectando-se no futuro,
exporta vianda para as ex-colónias ultramarinas de S. Tomé e Príncipe, Angola e
Moçambique, alargando o espetro da sua acção à República Centro Africana, à
África do Sul e à ex-República Equatorial Francesa, hoje denominada República
Popular do Congo.
Desta forma, o nome de Ovar dobrou o Cabo Adamastor e
chegou a um Continente distante, fruto exclusivo da audácia e férrea
determinação do líder Ferreira Malaquias, Lda. (Não posso, aqui e agora,
confrontado com a história deste importante passo, deixar de recordar uma
madrugada tépida e viscosamente húmida, na qual, tacteando pela escuridão do
porto de Luanda, em trânsito para Moçambique, e após 12 penosos dias de viagem,
foi possível mitigar a muita saudade da minha terra, deparando com alguns
barris de 100 litros que ostentavam, na alvura das suas letras, o nome de
"Ferreira Malaquias, Lda - Ovar - Portugal").
Álvaro Malaquias não caminhou sozinho para o sucesso.
Teve sempre a seu lado o forte arrimo de sua dedicada esposa, D. Rosa
Malaquias, nascida na vizinha freguesia de S. Vicente de Pereira, senhora
dotada de extraordinários dons de companheirismo e solidariedade, que o
presenteou com três filhos, um dos quais, infelizmente, recentemente subtraído
ao reino dos vivos.
O Desporto e as Instituições locais
Enquanto adolescente e jovem, e mesmo já em idade adulta,
e porque fisicamente e mentalmente estruturado para a prática desportiva, ainda
que de conciliação difícil para com as opções familiares e profissionais que
teve que assumir, praticou Basquetebol na A. D. Ovarense (de cuja primeira
equipa fez parte), fez lançamento de Disco, foi um exímio remador, madrugando
nas manhãs de veraneio para estilhaçar as silenciosas águas e o denso nevoeiro
matinal da nossa Ria, em vigorosas e ritmadas remadelas, exercitou a prática da
Vela, manejou as raquetas de ténis com incontestável perícia, manuseou armas em
Tiro de Guerra e na prática da Caça, da qual ainda é um fervoroso apaixonado.
Em todas estas práticas Álvaro Malaquias foi distinguido com diversos troféus e
medalhas, resultado das boas performances atingidas.
Ainda jovem, na década de quarenta exerceu funções de
mesário na Santa Casa da Misericórdia de Ovar, de onde viria a sair por razões
de natureza política, configuradas no apoio à candidatura de uma figura
oposicionista ao poder estabelecido pela Ditadura do Estado Novo, tendo tido
também uma curta experiência como membro dos órgãos directivos da A. D. O..
Entretanto, e porque a década de sessenta tinha sido
particularmente fértil na instalação, sobretudo nos grandes centros urbanos, de
cadeias de supermercados, dá azo à formação de uma nova sociedade comercial – "Novo Horizonte-Supermercados" –, vindo a inaugurar, no segundo
semestre de 1972, os primeiros supermercados nas cidades de Ovar e Espinho,
experiência que, pelo evidente sucesso alcançado, viria, mais tarde, a ser
reforçada com a abertura, nas mesmas localidades, de duas novas unidades.
Fazendo da análise de mercado uma segura fonte de investimento, viria ainda a
instalar na laboriosa urbe de S. João da Madeira o quinto e último espaço desta
Empresa.
![]() |
| Desde há 80 anos que o átrio de sua casa se abre às Trupes de Reis |
Como figura de especial proeminência no tecido
empresarial ovarense, claramente identificado com os ideais que norteiam o
Movimento Rotário Internacional, viria a ser convidado para a Fundação do
Rotary Club de Ovar. Arregimentando vontades de servir, viria a ser alcançado
tal desiderato na inesquecível cerimónia festiva da entrega da Carta na Quinta
Colares Pinto, também de boa memória, vão decorridos 40 anos.
Amante da vida, pesa com extraordinário apego os momentos
de leitura e repouso no arejado e arvóreo espaço que possui paredes meias com
as turvas e calmas águas da sempre adiada Ria de Aveiro, a nascente, e com as
ainda livres dunas marítimas, a poente.
Ovarense convicto, estima com arreganho as tradições
locais, concedendo especial enfoque ao costume dos Reis. Recorda-se ainda
menino, de saltitar por entre os convidados de seu pai, aquando da actuação, em
casa, das então duas troupes de Reis. Daí, o facto de há mais de trinta anos
franquear o amplo espaço de entrada de sua casa, qual palco privilegiado pelo clássico
estilo de construção e decoração, para a exibição das mais provectas Trupes,
sendo de realçar a circunstância de Álvaro Malaquias dar a conhecer a
centenária tradição reiseira a grupos de vinte convidados, provenientes do seu
leque de amizades, de clientes ou de fornecedores. Refere-nos, com sentida
alegria e bairrismo, que os mesmos, quase sempre renovados anualmente,
regressam a suas terras tecendo os mais elevados encómios a tão nobre e bela tradição, levando Ovar e a natureza das suas
gentes, espelhadas em tão simples actos de verdade e de voluntariedade no
coração.
Cash & Carry - Uma aposta ganha
![]() |
| Na comemoração do Centenário da sua Empresa, Álvaro Malaquias rodeado dos filhos Álvaro (falecido), Fernando e Lídia, e da neta Laura |
No mundo empresarial de hoje, não prever é já perder! Por
tal facto e face ao crescente impacto das grandes superfícies grossistas e de
retalho, Álvaro Malaquias e família não poderiam deixar por mãos alheias os
seus centenários e sólidos créditos, avançando para a criação de uma sociedade
comercial exclusivamente dedicada à exploração de uma superfície de grande
dimensão regional. Assim nasceu o "Cash & Carry" instalado na
Zona Industrial de Ovar, que representa já uma aposta ganha, não só em termos
de implantação do volume de negócios mas também em termos de continuidade, não
fosse a gerência exercida quase na totalidade pelos filhos Lídia e Fernando e
por dois jovens e talentosos netos – Laura e Ricardo.
![]() |
| Cashy & Carry Malaquias - uma grande superfície comercial que se projecta em toda a nossa região |
Para este êxito tem sido importante a relação séria e
responsável que Álvaro Malaquias sempre imprimiu nos contactos com os seus
assalariados, desde aqueles que nos primórdios modelavam a forma das volumosas
pipas ou carregavam sobre o dorso densos sacos de cereal, até àqueles que hoje
gerem extensos stocks em sofisticados programas informáticos.
Conversar com Álvaro Malaquias foi fácil. Ele é
espontâneo na transacção da palavra, o seu olhar mantém sempre vivo um outro
olhar, igual e anterior, qual referência de um rumo feito de entrega e de amor,
de missão, enfim!
Desta janela aberta para a nossa cidade, em tempo de
esperança de uma paz que não existe, num tempo de amor que carece de ser
amplamente solidário, soltamos ao vento e para a história da nossa terra mais
um são exemplo de apego a Ovar, às suas instituições e às suas gentes.
Edição da Trupe JOC/LOC





Sem comentários:
Enviar um comentário