15.5.13

Manuel Cascais de Pinho – À procura da sombra de Júlio Dinis

Manuel Cascais de Pinho
Revista REIS/1998
TEXTO: Manuel Catalão

Curioso e estranho será, para o universo dos nossos jovens leitores, o facto de habitualmente a Revista Reis recorrer a figuras deambulando já pelo Outono da vida, trazendo à estampa feitos de antanho, revisitando tortuosas e vencedoras aventuras, gravitando ainda e teimosamente em busca da realização do futuro que já não é o seu.
Alguém que gosta muito de Ovar e nos delicia regularmente com a melodia dos seus escritos, disse um dia que "Um homem é como um rio...!! Pode tornar-se uma presença revitalizante e referencial para a terra ou perder-se das suas possibilidades!!"
A história de Ovar é feita por homens que a projectaram, através do brilhantismo dos seus impulsos de vida, sempre em favor do colectivo e nunca por nunca por egoísta sofreguidão do seu projecto individual.
Hoje trazemos a estas páginas a figura de um vareiro com quase oitenta anos de vida intensa, uma existência feita de trabalho, de amor às origens e de muita paixão pelos valores culturais que se reportam à cidade de Ovar.

Em África, o gosto pelas letras

Manuel Cascais Rodrigues de Pinho, ainda menino de berço, atravessou as vagas assustadoramente sibilantes do Atlântico a caminho da aventura africana, consubstanciada, então, no empenho de seus progenitores na obtenção de um nível de vida mais consentâneo com as suas legítimas ambições.
Cresceu correndo pelas lamacentas ruelas de uma povoação temperada pelas tépidas e calmas águas do Índico, então ainda em estado quase primitivo, vindo posteriormente e com o denodado esforço próprio dos voluntariosos colonos, a despontar para a bela e muito cosmopolita cidade da Beira.
Com nove anos nutridos por uma infância despreocupada, os seus pais remeteram-no para a Ovar natal, com a secreta esperança de o verem evoluir culturalmente.
Concluído o Curso Geral do Liceu, carregando já dezoito primaveris anos de vida, deixa para trás o convívio com as amizades que soubera cultivar e regressa à sempre misteriosa e sedutora África.
Encontra a cidade da Beira em crescendo social e económico, ganha emprego na petrolífera Shell, e vai conquistando o gosto pela cultura e pelas letras, lendo as amarelecidas e enrugadas páginas das obras camilianas que seu pai devotadamente devorara à tremulante luz da vela.
Em paralelo com o permanente contributo de cariz sócio-cultural para com a terra que o adoptara, coligindo dados e factos históricos que lhe possibilitariam, mais tarde, publicar obras alusivas à história da Beira, mantinha regular contacto com Ovar e suas gentes, através das cartas dos amigos e dos jornais regionais, que "devorava" com voraginoso apetite.
Periodicamente, e de acordo com os direitos que a sua função laboral lhe concedia, gozava as suas férias em Ovar, aproveitando tais períodos para aprofundar os seus conhecimentos dinisinos, embrenhando-se, então, sob a paciente e amiga orientação da notável e saudosa D. Amélia Dias Simões, na obra e nos aspectos existenciais de Júlio Dinis.
Tendo como horizonte perpétuo do seu quotidiano o definitivo regresso a Ovar, ainda assim não se demitiu da nobilitante função cívica para com a cidade que lhe deu a conhecer o poder e a crença dos homens que porfiam pelo amanhã do mundo, vindo a exercer os cargos de Vereador camarário e de Presidente do Conselho de Administração dos Serviços de Electricidade.

Qual infante na frente da batalha...

Decorria o ano de 1971 e, com ele, a almejada reforma e o consequente regresso ao saudoso torrão natal.
Tempo era coisa que não lhe faltava, e do seu coração vareiro emergia disponibilidade interior para mergulhar na pesquisa e no enriquecimento histórico da ligação de Júlio Dinis à cidade de Ovar.
Amigo e companheiro de longa data, o saudoso José Augusto de Almeida, "alma-mater" do conhecido e sempre recomendado Museu de Ovar, teve o engenho e a arte de o recrutar para o seu reduzido e voluntarioso rol de colaboradores.
Titular de inúmeros elementos literários reportados à história e à obra de Júlio Dinis, tão pacientemente procurados e adquiridos nos mais variados e distantes alfarrabistas do País, aquando das interpoladas férias continentais, Manuel Cascais foi o principal impulsionador e grande intérprete da Exposição do 1.º Centenário do Falecimento de Júlio Dinis, levada a efeito no ano de 1971, no Museu de Ovar.


Em 9 de Setembro de 1971, a Radiotelevisão Portuguesa esteve em Ovar,
por altura do centenário da morte de Júlio Dinis. (Na foto, o locutor Henrique
Mendes com cascais de Pinho, junto à Casa-Museu Júlio Dinis)
No rescaldo da mesma, assinalou-se o êxito absoluto que constituiu a organização de tão exigente e aliciante evento, desconhecendo-se, contudo, a acutilância anónima de Manuel Cascais, que lutou pela sua realização em Setembro, data efectiva do centenário a celebrar, contra a intenção da Câmara Municipal do Porto, que planeara levá-la a efeito no mês de Outubro.
Ainda no desbobinar do que foi a sua profícua actividade como animador cultural do Museu de Ovar, merece realce o ambicioso objectivo de pôr de pé uma exposição alusiva aos feitos e à vida do Visconde de Ovar.
A exposição foi realizada em 1982, com assinalável sucesso, não sem que, antes, houvesse necessidade de ultrapassar barreiras oficiais... vareiras!!! Sendo necessário contactar o Ministério do Exército, Manuel Cascais, qual infante na frente da batalha, avançou para o Terreiro do Paço, logrando obter autorização para equipar o Museu de Ovar com fardamento ilustrativo da época.
Recorda com profunda saudade cenários de desmesurado contentamento, oportunamente partilhado pelos anónimos e incompreendidos alfarrabistas de um País pobre de cultura aquando do encontro com algo desconhecido e relativo a Júlio Dinis.

Casa de Júlio Dinis - Uma vitória inacabada

Eternamente apaixonado pela vida e obra do romancista que em Ovar procurou a cura das suas maleitas. Cascais de Pinho teria necessariamente que ser um dos grandes impulsionadores da criação da Casa-Museu Júlio Dinis.
Deambulou de reunião em reunião, apresentou propostas e soluções, viveu intensamente a concretização de um sonho antigo.
Lamenta, todavia, e de forma bastante sentida, que a memória de Júlio Dinis se misture com adornos e realizações que nada têm a ver com a figura emblemática da cultura literária ovarense.
Sugere a encenação de peças extraídas da imensa obra de Júlio Dinis, e que o espaço físico da Casa-Museu retrate fielmente o tempo e os gostos do romancista, dando como exemplo o granítico banco em forma de "meia-laranja" existente no Casal e do qual o escritor usava para observar o ritmo e o canto das lavadeiras, as giestas floridas, vulgarmente apelidadas de "maias", cuja beleza selvagem o escritor traduzia com especial simpatia.


Casa-Museu Júlio Dinis (Ovar)

Deve-se a Cascais de Pinho, na peugada do Dr. Egas Moniz, a sensibilização dos vareiros para a manutenção desta Casa, que guarda recordações da passagem do romancista por Ovar, terra de seu pai. A oferta do prédio pela família Bonifácio e a intervenção da Câmara Municipal no seu restauro fizeram o resto
Sonha ainda com a realização da homenagem de Ovar à memória e à obra de Júlio Dinis, em geral, e às "Pupilas do Senhor Reitor" em particular, considerando que, para tal, só faltará a vontade de quem pode e deve levar a efeito tal acção.
Manuel Cascais cita o testemunho antigo de um familiar directo de Júlio Dinis, que ousou dizer publicamente que o espólio do escritor deveria ser, por direito e por justiça, pertença da cidade de Ovar, lamentando a profusa dispersão do mesmo.
Sabendo da existência de 23 cartas escritas por Júlio Dinis enquanto radicado em Ovar, julga possível e de interesse comunitário a sua compilação e posterior edição em livro, acção que, por natureza e função cultural, competiria à Autarquia.
Em Ovar, a figura vareira que escolhemos para a Revista Reis 98 é detentora do enorme potencial da vida e obra de Júlio Dinis, e mostra-se plenamente disponível para o dar a saber e conhecer a quem deseje aprofundar os seus conhecimentos, seja por vocação literária, seja por mera curiosidade.
Para além dos escritos avulsos publicados no Notícias de Ovar, de quem é antigo e habitual colaborador, possui vários estudos sobre diversas personagens da vida real de Júlio Dinis.
(...) Ficamos a saber que o Sr. Manuel Cascais é um ponto de referência na decifração da vida vareira do romancista Júlio Dinis, e um valor disponível para a sua cidade.
Ouvidas e sentidas as suas reflexões, também concordamos que o Homem, se quiser, pode ser como um rio...!!!

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Texto publicado no n.º 32 da revista REIS/1998
Edição da Trupe JOC/LOC 
http://revistareisovar.blogspot.pt/2013/05/cascais-de-pinho-procura-da-sombra-de.html

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