26.7.13

No tempo do pirolito

Pirolito
Revista REIS/2007
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Porque a indústria artesanal de refrigerantes, para além do seu tipicismo, faz parte de um património extinto, achamos útil avivar aqui a sua memória, recuando três quartos de século e apresentando ao leitor um dos símbolos mais curiosos dessa época, o pirolito, hoje considerado uma peça rara e de valor histórico, que os coleccionadores guardam ciosamente[1].
Nestas fábricas, normalmente de carácter familiar, as pessoas da casa assumiam quase todas as tarefas: os homens o engarrafamento e a distribuição, e as mulheres a preparação dos “xaropes”, a lavagem e o enxaguamento. Até as crianças participavam nessas lides e no armazenamento dos produtos.
Em Ovar nasceram e prosperaram duas firmas explorando este ramo de negócio: a Sociedade Soares, Paes & Gomes, Lda., na Rua Cândido dos Reis (parte norte do actual edifício do Orfeão de Ovar) e a Fábrica de Refrigerantes, Licores e Xaropes LÁLÁ, da Família Rodrigues, na Rua Dr. José Falcão[2].

O tema que apresento ao leitor faz-me recuar aos tempos da infância, quando na loja dos meus pais, em Loureiro, contactava diariamente com caixas de refrigerantes, seiras de figos, barricas de sardinha e muitos outros produtos inerentes a uma casa de negócio em plena crise da 2.ª Guerra Mundial.
Nos dias calmos de Verão era certo e sabido que os refrigerantes tinham clientela certa, especialmente os mais baratos, os pirolitos. Eu próprio muitas vezes me deliciei com o seu agradável sabor.
Porque ali bem perto estava instalada uma “fábrica” desses produtos, e porque na família do proprietário, o Sr. Silva “Cabano”, havia crianças da minha idade, tive acesso fácil aos seus aromas, embora de todo alheio aos segredos do seu fabrico[3].

O pirolito
É uma pequena garrafa de vidro branco com 19 cm de altura e 5,5 cm de base, de considerável espessura – para aguentar a pressão do anidrido carbónico adicionado à água natural – e dotada de características peculiares na parte superior, nomeadamente um constrangimento (aperto de 2,7 cm) no gargalo, onde repousa uma pequena bola também de vidro que, sob a pressão da água gaseificada, se comprime contra uma anilha de borracha encaixada numa ranhura interior do gargalo, fechando-o hermeticamente.
Se a pressão fosse demasiada, os frascos estilhaçavam, pondo em risco os operadores[4]. E mais uma bola ficava disponível para o jogo do berlinde[5]
As garrafas eram fabricadas na Marinha Grande (conhecemos as marcas R. G. - Ricardo Galo - e S. B. - Santos Barosa), e em Oliveira de Azeméis (C. V. - Centro Vidreiro).
Para abrir o pirolito introduzia-se um dedo no gargalo, empurrando-se a bola de vidro ali alojada, enquanto o gás comprimido se libertava, num espasmo ruidoso e refrescante.
Sendo um produto simples, à base de essência de limão e de xarope, o pirolito era o mais barato dos refrigerantes, e por isso, o mais popular.
Mas a sua própria estrutura o levou à morte.
Devido à legislação sanitária, os pirolitos foram extintos por 1961, por se achar que “a configuração da garrafa não garantia eficácia na limpeza e na desinfecção, tornando-se o seu uso prejudicial à saúde pública”[6]. O principal óbice estava na anilha de borracha, já que esta, sujeita ao ácido fénico (fenol), com seu cheiro característico, depressa se deteriorava.
Também não era totalmente fiável a limpeza da garrafa, devido ao estrangulamento do gargalo[7].

Fábrica Primorosa, de Soares Pais & Gomes

A escritura da firma [8], lavrada a 23/12/1924 por João Ferreira Coelho, substituto do ex-Notário Dr. Sobreira, define o seu objecto como “a indústria de águas gasosas e correlativo comércio, podendo, porém, dedicar-se a outro ramo de comércio ou indústria que convenha aos interesses sociais[9].

Fábrica Primorosa de Soares, Paes & Gomes (actual sede do orfeão de Ovar).
À esquerda do edifício (em cima) encontra-se o brasão da família Baldaia,
atualmente no interior do edifício.

Tinha sede na vila de Ovar, podendo abrir sucursais. O capital era de cem mil escudos (40 000$00 de Nicolau Soares Balreira[10] e 20 000$00 de cada um dos três restantes sócios: João Fernandes de Andrade Pais, António Gomes Lírio e José Pinho da Cruz, ficando este com prestação facultativa de serviços à sociedade, cujos sócios eram livres de ceder as quotas entre si, podendo cada um usar o direito de preferência caso algum dos outros quisesse ceder a sua a um estranho).
Em caso de falecimento de um dos sócios, poderiam os herdeiros ocupar o seu lugar ou receber a parte que lhes tocava.
A firma, que se deveria considerar iniciada em 1/1/1924, instalou-se na casa solarenga que foi da família Baldaia, na Rua Cândido dos Reis, em 27/11/1921[11], funcionando ao longo de muitos anos, espalhando as suas bebidas pelo norte do país, particularmente entre Aveiro e o Porto.
A vasta gama dos seus produtos pode ser documentada por artísticos rótulos, alguns dos quais me foram oferecidos pela nora de João Fernandes Andrade Paes, a escritora de Glória de Sant’Anna, residente em Quinta e Rego, Válega.[12]
Com o fim da produção do pirolito, a firma dedicou mais atenção à laranjada e aos licores, bem como à revenda de cerveja[13]. Terminando a laboração, dada a obrigatoriedade de concentração dos pequenos produtores em grandes empresas, a firma passou a representar localmente a Gascidla (posteriormente GALP), até terminar a sua actividade, que mudara, entretanto, para a Rua Teixeira de Queirós[14].


A fábrica LÁLÁ
Outra firma do ramo, mas em nome individual, foi a Fábrica de Refrigerantes LALÁ, diminutivo de Laurinda Franklina de Oliveira Bastos[15], esposa do farmacêutico licenciado Manuel Joaquim Rodrigues Baldaia Zagalo[16], da Rua José Falcão, fábrica essa montada, por 1940, ao lado da Farmácia Rodrigues (n.ºs 189 a 195) em dependências do rés-do-chão da própria casa, também brasonada[17], pertencente a outro ramo da família dos Baldaias.
Fábrica de refrigerantes LÁLÁ, da família Rodrigues
A montagem desse negócio, que surgiu com o objectivo de ajudar a prover à educação dos filhos[18], foi facilitada pelo aproveitamento de máquinas de enchimento de águas mineromedicinais, que o Dr. Manuel Joaquim Rodrigues Baldaia Zagalo explorava, por alvará de 28/11/1932)[19] no Barreiro, Tondela, com nascente em propriedade que fora de família, onde construiu instalações e armazém de engarrafamento de águas férreas. A exploração funcionou até 1943[20], quando que lhe foi retirado o alvará[21].
A LÁLÁ primava em produzir refrigerantes cristalinos, com xarope e essências naturais (com laranja para as laranjadas, e com de limão para os pirolitos) com processo mais custoso (por vezes cinco vezes mais caro) e mais moroso do que os normais, utilizando segredos do farmacêutico[22].
A laranjada LÁLÁ, cristalina, a mais vendida, tornou-se o símbolo da firma, com essência natural, exclusiva, produzida pela família[23].
Para concorrência, era produzida também a laranjada Guilmar (turva), com essência artificial, comprada a laboratórios de fora.


Além do pirolito branco (com gasosa de limão autêntico), era produzido um pirolito amarelo (com essência pura de laranja).
Havia um rótulo de garantia para as bebidas da casa, mas que não era usado em todas, para evitar mão-de-obra e encarecimento do produto.
Outros produtos que a firma fabricava: águas gasosas para o estômago e intestinos (tipo “das Pedras”), com água da sua exploração[24], acrescida de ingredientes de farmácia, licores (mata-bicho[25], ponche, anis, canela, ginginha…). Chegou a experimentar a cerveja, mas sem continuidade, dada a concorrência da cerveja do Porto (CUF de que, aliás, eram distribuidores através do representante em Fiães) e de Coimbra (Fábrica Central de Cervejas). Representava também a Real Vinícola (vinhos do Porto e algum champanhe).
As vendas iam do Porto a Aveiro, e o transporte era feito em carros de bois e, depois, em furgoneta (Studbaker NO.12.11), cujo condutor e vendedor era Manuel Sampaio, da Pedreira, Arada.
A máquina de enchimento da Lálá era sustentada por um tripé, e constituída por dois braços em forma de prensa, independentes entre si e com configurações diferentes (uma para pirolitos e outra para laranjadas), tendo um grande globo de metal no topo (reservatório de água), onde era misturado gás líquído através de um manípulo, e controlado por um manómetro e uma roda manual (para regular a entrada da água).
Ao ser colocada no seu suporte para o enchimento, cada garrafa já levava no fundo a respectiva dose de essência, cuja fórmula era guardada em segredo[26].


Depois de cheia de água e da porção conveniente de gás, a garrafa de pirolito era voltada de gargalo para baixo, obrigando a bola de vidro a ajustar-se à borracha.
No caso da laranjada, a garrafa, sob o impulso de um pedal colocado numa das hastes do tripé e accionado pelo operador, entra na cápsula que, automaticamente, se ajustava ao gargalo.
Quando era necessário, trabalhavam na fábrica, como auxiliares de D. Laurinda e de sua irmã Franklina, os empregados da quinta David Pereira Magina  (n. 1931) e sua esposa Custódia, do lugar da Ribeira (Ovar), ainda a residir na Carvalheira, Válega, e Joaquim Leite Campos, de Barcelos.
Mulheres da vizinhança ocupavam-se da lavagem do vasilhame para enchimento.
Com a formatura das duas filhas, a família Rodrigues decidiu fechar a fábrica, pensando trepassá-la, como se deduz do anúncio publicado no “João Semana”de 13/10/1956: “Fábrica tipo caseiro de refrigerantes, passa-se com todo o maquinismo. Rua Dr. José Falcão, 193, Ovar”.
Chegou a aparecer um interessado, o Manuel da “Gascidla”, funcionário da firma concorrente Soares, Paes & Gomes, mas o negócio não se concretizou, acabando as máquinas por ser vendidas a sucateiros – os Manaias, da Vergada –, não ficando quaisquer reminiscências da fábrica, a não ser os espaços em que funcionou e um tubo de gás vindo da antiga exploração de águas de Tondela.

Preços dos refrigerantes:
Anos 40 - Pirolitos, entre $40 e $80. (Se uma grade de 24 garrafas custava 8$00 ao comerciante, este podia vender cada unidade ao dobro do preço real.)
Anos 50 - Pirolitos – entre 1$00 e 1$20.

Por 1931 - Cerveja branca, 1$70; preta, 1$80.

Aparício Silveira, funcionário da UPREL, possui os restos de uma máquina de capsular refrigerantes igual às que se usavam, na época, na “Flor de Loureiro” e em outras fábricas da região.



NOTAS:
[1] Mário Miranda, “Um Sabor a Pirolito”, “João Semana”, 1/5/2003.
[2] Outras terras vizinhas marcaram presença no negócio dos refrigerantes, tais como Souto (Artur Pereira Marques, em Cabomonte); Guetim (Fernando José Teixeira de Barros, Gruta da Lomba); Monte, Murtosa (António Augusto Pereira, vindo de Lisboa, com os Refrigerantes “Monte Branco”, talvez os mais antigos da região, a quem sucedeu seu filho José António Pereira, que mudou para Santa Luzia, Veiros, refrigerantes “Santa Luzia”); Murtosa (Joaquim José Henriques, “o Joaninho”, que mudou para Bedoeiro, Salreu, com a marca “Bedoeiro”, continuada por Aparício Barbosa da Silveira, com a marca “Riamar”); Avanca (Francisco Belo, no lugar de Paredes, perto da estação da CP, na década 40; Macinhata da Seixa (Silvares, refrigerantes Brazão); de Amadeu Terra, na década de 50. 
[3] Situava-se essa fábrica de pirolitos e refrigerantes “A Flor de Loureiro” no lugar da Rua Nova, num espaço contíguo a uma mercearia, no rés-do-chão do chalet do Sr. José Maria da Silva, que do Brasil trouxera um razoável pecúlio e a vontade de o aplicar na sua freguesia. À sua morte, a fabricação continuou sob a orientação do empregado Honório Valente, que acabaria por integrar-se na sociedade UPREL, de Estarreja, onde se encontra parte de uma máquina de engarrafamento de cápsulas semelhante à da "Flor de Loureiro".
[4] Por ser incómodo usar as luvas e a máscara, obrigatórias em serviço (cobrindo o rosto e o peito), muitas vezes os membros da família e outros empregados tinham de receber curativos a cortes provocados pelo rebentamento.
[5] Jogo que consistia em empurrar a esfera individual através da impulsão do dedo médio a partir do dedo grande, tentando colocá-la progressivamente, em pequenos e sucessivos buracos periféricos cavados no chão, tentando cada jogador chegar primeiro ao buraco situado no centro. Era muito utilizado no recreio e nas cercanias da minha escola. 
[6] Informação retirada da Internet, do sítio da Câmara Municipal de Castelo de Vide.
[7] Na LÁLÁ usavam-se escovas flexíveis e ganchos de arame com trapos na ponta.
[8] Publicada no semanário “Ideal Vareiro” (2.ª fase) Ano I, n.º 12, 19/3/1933.
[9] Esta firma substituiu uma anterior, Soares Pinto & Gomes, que tinha sido criada, em nome colectivo, em 20/11/1922.
[10] Foi emigrante no Peru (cf. Mário Miranda, “João Semana”, “Um Sabor a Pirolito”, 1/5/2003.
[11] Os vendedores do prédio foram Henrique Jorge de Araújo de Oliveira Cardoso (da família Baldaia) e João Maria Pereira Magina, de S. Gonçalo, Válega.
A firma vendeu a casa, em 30/12/1988, ao Orfeão de Ovar, que ali instalou a sua sede. (“Monografia de Ovar”, I, pág. 154-155).
[12] Estão actualmente depositados na Biblioteca Municipal de Ovar.
[13] Eram revendedores exclusivos das cervejeiras do Porto (CUF) e de Coimbra.
[14] “João Semana”, cit., 01/05/2003.
[15] Filha de Manuel Leite Godinho e de Marinha Franklina de Oliveira Bastos (natural de Arada, que faleceu de parto ao regressar do Brasil, tendo uma irmã mais velha, a Clotilde).
[16] O Dr. Manuel Joaquim Rodrigues Baldaia Zagalo (4/2/1882-1/4/1966) era filho do também farmacêutico Manuel Joaquim Rodrigues, perito na confecção de pomadas, xaropes e outras mezinhas, que fornecia para todo o país, do Minho ao Algarve. Tendo este farmacêutico tratado com êxito uma pessoa da casa brasonada dos Baldaias, de Cabanões, Ovar, foi-lhe proposto escolher para esposa uma das filhas dos proprietários da casa do Outeiro, Ovar, Manuel Pereira Zagalo e D. Arcângela Henriqueta Brandão Pinto Baldaia. Tendo escolhido a Maria do Carmo Baldaia Zagalo (a outra era a Maria Cândida), e realizado o casamento (1929, no Porto?), logo o farmacêutico se instalou em Ovar, integrando-se na sociedade local – em 1886 era Vice-Presidente da Câmara –, continuando as suas famosas práticas curativas e despachando os seus produtos farmacêuticos (por correio e via férrea em caixas de madeira). Não obstante, dos diversos filhos nascidos, só um ultrapassou a infância: o futuro farmacêutico licenciado Manuel Joaquim Rodrigues Baldaia Zagalo, cujos avós paternos eram José António Rodrigues e Casimira Rosa de S. Pedro. (C.F. Monografia de Ovar, 1.º vol.)
[17] O brasão que se encontra no interior da Capela da Casa Rodrigues é idêntico ao que se encontra no átrio do Orfeão (que antes se encontrava na esquina norte da casa), tendo, a mais, a figura de um leão.
[18] Maria do Carmo (n. 27/2/1930), 1.ª médica de Ovar (1954), casada com o médico-cirurgião Dr. José Adolfo Gama; Laurinda (n. 25/2/1933), 1.ª licenciada de Ovar em Farmácia (1957), casada com Fausto Luzes Teixeira; Justino (n. 24/12/1935), primeiro economista vareiro licenciado pela Faculdade de Economia do Porto (1.º curso), casado com Maria Helena da Silva Baptista Rodrigues; Manuel Joaquim (n. 5/4/1931), viúvo de Marina Adélia Dias de Resende Rodrigues); e Serafim de Oliveira Rodrigues (n. 21/7/1941), casado com Rosa Lopes da Silva Rodrigues)
[19] As águas foram analisadas pelo eminente químico francês Charles Le Pierre.
[20] A D. Laurinda chegou a viver ali em convalescença.
[21] O monopólio das Águas do Caramulo foi cedida à família Lacerda, que se tornou dona e senhora da zona turística, ainda hoje mantendo ali o Museu do Automóvel. Consta que o Lacerda chegou a pedir sociedade a Manuel Joaquim Rodrigues, mas este não terá aceite a sugestão.
[22] A concorrência maior vinha da laranjada Invicta, do Porto.
[23] Esta infusão chegava a estar mais de um mês em preparação. Vertida numa caneca, passava desta para um copo graduado, e deste para as garrafas.
[24] A garrafa usada na distribuição da água, com o rótulo da Casa de N.ª Sr.ª da Saúde, de Ovar, era alta e fina (tipo pistola).
[25] Entre os curiosos slogans que usavam, constava este:
Se mata o bicho, / Mate o bicho / Com o mata-bicho LÁLÁ.
[26] Em Castelo de Vide “a mistura para o pirolito “era preparada em alguidares de barro e com uma composição à base dos seguintes ingredientes: açúcar cristal, essência de limão e ácido cítrico”.

Texto publicado no n.º 41 da revista REIS/2007

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