17.8.13

A última cadeia de Ovar

Revista REIS/2008
TEXTO: José de Oliveira Neves

Os ovarenses nascidos depois de 1970, ao passarem pelo bairro Residencial do Alto de Saboga, situado entre as actuais Ruas Daniel das Pupilas e Jorge Barradas, não fazem ideia nenhuma de que naquele local existiu outrora a última cadeia de Ovar, visto não haver por ali nenhuma designação toponímica a recordar esse facto. Só os mais idosos ainda a relembram quando se referem ao antigo campo de futebol da Ovarense conhecido pelo “Campo da Cadeia”, por lhe ter sido contíguo.
Diz o Dr. Alberto Sousa Lamy na sua “Monografia de Ovar” que: “A 19 de Julho de 1908 foi arrematada a construção dum edifício no Bairro de S. José pelo empreiteiro João António Lopes Júnior, o Lindinho, por 6.161$000 reis, prédio que a Câmara, na sua sessão de 19 de Janeiro de 1910, destinou a repartições públicas. Porém na sessão de 13 de Julho deste ano o Presidente da Câmara Dr. Joaquim Soares Pinto propôs que esse edifício servisse de cadeia e habitação do carcereiro, provisoriamente. A mudança provisória, como é natural no nosso país, passou a definitiva e a cadeia de Ovar ficou a dever-se ao Dr. Joaquim Soares Pinto”.

A cadeia de Ovar, pouco tempo após a sua inauguração, ainda sem o muro
com gradeamento de ferro e o bonito portão na entrada principal,
citado no texto, feitos posteriormente

O carcereiro Rocha
com a farda de legionário
Nos anos de 1934 a 1952, época dirigida pelo carcereiro Francisco Justino da Rocha, deram-lhe o cognome de “Hotel Rocha”, talvez por ser uma prisão airosa, soalheira, num edifício de bonitas linhas arquitectónicas, onde, segundo constava, até as refeições eram boas.
Ana Laranjo, que lá viveu durante dois anos (de 1948 a 1950) com a restante família, quando seu pai, Manuel Soares Laranjo, empregado da Câmara, ali foi carcereiro, a título provisório, para substituir o Rocha, por motivos que não conseguimos descortinar, disse-me com os olhos húmidos de saudade:  “A cadeia era linda!...”. A saudade vinha-lhe, não obviamente por lá ter vivido, mas sim pelo seu desaparecimento. Exibindo boa memória e uma lucidez invulgar, capaz de causar inveja a muita gente jovem, esta veneranda senhora descreveu-me pormenorizadamente as divisões da prisão, contando-me alguns factos ali ocorridos há mais de 60 anos.
Situada no antigo Bairro de S. José, perto das casas do António da Fábrica, a cadeia era cercada em volta por um muro bastante alto, de paredes grossas, que do lado sul ainda estava reforçado com um gradeamento de ferro colocado em cima, dando-lhe mais segurança e maior beleza. Na fachada, do lado do Alto de Saboga, a encimar o portão da entrada principal, havia uma bonita varanda de ferro, e todas as janelas exteriores eram reforçadas com gradeamento grosso do mesmo metal. O portão, grande e bonito, dava acesso ao rés-do-chão do edifício, onde se encontravam, à esquerda, duas celas, e à direita um salão destinado a reuniões. Seguindo em frente, podiam ver-se, do lado direito, duas pequenas celas para interrogatórios e, mais adiante, do lado esquerdo, um pequeno quarto com um divã, onde dormia a Aurorinha Pinta-Ratos, conhecida também pela “Rainha da Cadeia”, de quem falaremos posteriormente.
Subindo outras escadas de acesso ao 1.º andar, encontravam-se, no lado direito, a nascente, a cozinha, a sala de jantar, uma janela e mais um quarto.
Virando para poente, deparava-se com dois quartos para os presos mais bem comportados, seguindo-se uma cela e um salão, e, um pouco mais à frente, dois quartos, que serviam de aposentos do carcereiro e da família.
No salão, realizaram-se alguns casamentos de reclusos que no momento se encontravam ali a cumprir penas.
Cada cela da prisão possuía, normalmente, seis camas. Os detidos mais perigosos permaneciam ali durante pouco tempo, transitando para a Cadeia de Aveiro, que dava mais garantias de segurança.

Repasto aos presos na cadeia de Ovar. Ao fundo, o Padre Manuel da Silva Brandão

Anualmente, na segunda-feira da Semana Santa, quando saía a procissão do “Senhor dos Enfermos”, a cadeia era um dos locais visitados, para que os reclusos que o desejassem pudessem receber a “Sagrada Hóstia”, depois de terem feito a sua reconciliação.
Em 1951, quando o Pinto, que também era empregado camarário, servia ali temporariamente como carcereiro, fazendo uma nova substituição do Rocha, a trupe de Reis “Júlio Dinis” actuou para os presos natalícia. E dizem os que assistiram a essa actuação que o Pinto se comoveu até às lágrimas. Mais tarde, também a Troupe da JOC incluía no seu itinerário o estabelecimento prisional, onde exibia os seus cânticos.
O carcereiro Rocha (ao centro) com a esposa e a filha
 Maria Amélia. No 3.º plano (de pé da esq. para a direita):
 as filhas Maria do Carmo e Zuraida. 
O rapaz de óculos e a moças eram pessoas amigas
Diariamente, ao meio da tarde, na hora da merenda, era permitido aos presos receber visitas. E lá vinha um ou outro familiar e amigo que lhes levava petiscos e bebidas. Era uma festa. Aqueles cujas famílias não os visitavam com assiduidade mandavam vir de fora da cadeia esses pequenos regalos. Relativamente a isto, contou-me Rosa Romão que, quando criança, várias vezes se deslocava à cadeia, mandada por sua mãe, que possuía uma taberna do Alto de Saboga. A sua missão era levar encomendas de sanduíches e bebidas para os presos, trazendo, no regresso, o dinheiro resultante da venda. Um dia, a sua progenitora, ao verificar as contas, descobriu que um dos reclusos não tinha pago. Mandando a Rosa, de novo, à prisão, para falar com ele, o caloteiro, ao enfrentá-la, e apercebendo-se da sua reclamação, atirou-lhe com água dum caneco que se encontrava junto da porta para saciar a sede dos reclusos, obrigando-a a regressar à loja sem o dinheiro e com a roupa e o corpo muito encharcados. A mãe, ao vê-la naquele estado, fez uma queixa ao Dr. Delegado da Justiça, que lhe respondeu não poder castigar o prevaricador porque a menina era menor e não devia ter entrado na cadeia.
Além de episódios burlescos como este, Rosa recorda outros mais agradáveis. Assim, e a respeito do bondoso Padre Cruz, que faleceu em Lisboa em 1948 com fama de santo, disse-me a minha interlocutora que nos anos 40, no tempo do carcereiro Rocha, este bondoso sacerdote veio algumas vezes fazer visitas à cadeia de Ovar, acompanhado de muitas crianças, levando aos reclusos a sua palavra reconfortante, que era escutada respeitosamente.
O Rocha, numa rua de Ovar
Na “Monografia de Ovar”, informa o Dr. Alberto Lamy:A cadeia comarcã com uma lotação de 78 presos mantida e conservada pela Câmara foi extinta a 1 de Outubro de 1973, com a criação do estabelecimento prisional e regional de Aveiro e demolida na 1.ª quinzena de Julho de 1975”.
Durante os 63 anos da sua existência, a última prisão da nossa terra acolheu dentro das suas grossas paredes (com 62 cm de espessura) reclusos de vários extractos sociais, desde os mais humildes pescadores, muitas vezes detidos por furtarem dos pinhais simples molhos de caruma, a que chamavam agulhas, até comerciantes, doutores e sacerdotes. (O Padre Miguel de Oliveira, tal como o Dr. Campos Lima, autor do “Reino da Traulitânia”, ali estiveram entre outros, por retaliação da política da época republicana.
Há histórias relacionadas com presos que fugiam ou que lá estiveram a cumprir penas por actos que não praticaram, alguns dos quais foram, mais tarde, inocentados.

A “Rainha da Cadeia”

Ao recordarmos hoje a última Cadeia de Ovar, não podíamos esquecer uma mulher a ela intimamente associada – a “Aurorinha Pinta Ratos” ou “Rainha da Cadeia” que, nos anos 40/60, era uma das figuras mais típicas da nossa terra!... Não se lhe sabia o verdadeiro nome, nem a família, nem o sítio onde nasceu, embora alguém afirmasse ser de Válega e ter residido nas Tomadias antes de vir para a Cadeia.
Conheci-a muito bem: alta, olhos claros e o rosto branco, rosto que, segundo informações de Ana Laranjo e de outras pessoas que com ela conviveram, costumava lavar com creolina misturada com água, da que era utilizada na desinfecção das celas dos presidiários.
Sofria de perturbações mentais, mais acentuadas em determinados períodos, altura em que gostava de se enfeitar na cabeça com uma fita verde e vermelha ou uma coroa de flores campestres. (Aqui a razão de lhe chamaram “Rainha da Cadeia”. Algumas vezes, da varanda da Câmara, deu vivas à República.
De passo lento, corpo erecto e sorriso constante nos lábios, mais parecia uma das deusas gregas celebradas na História Antiga…
A cadeia era a sua casa! – Ali tinha o seu quarto com um divã, ali comia juntamente com o carcereiro e família, apenas saindo para fazer alguns recados aos presos e ao guarda da prisão! As compras fazia-as normalmente na loja do Serafim da Barateira, ou na do Rico, ambas no jardim dos Campos.
No tempo do Manuel Soares Laranjo foi feito um lago para a criação de patos, e havia outras aves de capoeira e até ovelhas!
A Aurorinha começou a dormir com uma garnisa que se foi adaptando a ela, transportando-a no seu ombro logo de manhã, quando ia tomar o pequeno-almoço, e dedicou-se igualmente a uma ovelha que a acompanhava, muitas vezes, na rua quando se dirigia às lojas para fazer compras.
As autoridades daquela época queriam interná-la no Asilo, mas ela não aceitou o convite, desejando ficar sempre na cadeia, como hóspede, sendo as despesas pagas pelo governo de então. Nos últimos anos de vida ingressou, finalmente, nessa “casa de beneficiência”, vindo a falecer no Hospital de Ovar nos anos 70.

Os carcereiros

Desde que entrou em funcionamento, passaram pela cadeia de Ovar os seguintes carcereiros: Dionísio Carvalho da Cruz (1913-1921, p. m.), do Bairro de S. José; Francisco Justino da Rocha (1934 – 1952, p.m.), da Avenida 19 de Junho, Manuel Soares Laranjo, da Rua Dr. José Falcão, e Manuel Pereira de Sousa, natural de Paços de Brandão, residente na Avenida 19 de Junho (de 1952 a 1973) [1].
Um voto: Porque a actual Rua Jorge Barradas, que se inicia na casa da esquina junto ao Alto de Saboga sempre foi conhecida pela Rua da Cadeia, é de lamentar que não tivesse continuado com o mesmo nome, uma vez que os estudiosos da toponímia da nossa terra tinham outras novas artérias onde colocar o nome desse conhecido artista…
No meu entender, houve também aqui uma lacuna!...



[1] “Dicionário da História de Ovar”, do Dr. Alberto Sousa Lamy, que cita o Laranjo como Sousa, quando é Soares, e não refere o Pinto que, como o Laranjo, substituiu o Rocha. E não indica qualquer outro carcereiro entre 1921 (saída do Dionísio) e 1934 (entrada do Rocha).

Texto publicado no n.º 42 da revista REIS/2008

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