17.10.13

Uma curiosidade Bibliográfica – Uma Fábrica de chapéus

Revista REIS/1996
TEXTO: Guilherme G. de Oliveira Santos

João Rodrigues de Oliveira Santos
Possuo um folheto de 34 páginas intitulado: Causa Comercial/A./José Rodrigues d`Almeida/de/Boialvo d`Annadia/RR./Santos & Irmão/de S. Vicente de Pereira. (Sem lugar nem data, mas, presumivelmente, de 1876, e impresso em Ovar).
Como reza o título, o opúsculo respeita a uma ação movida por José Rodrigues d’Almeida contra Santos & Irmão, que era a firma de chapéus fundada em S. Vicente, em mil oitocentos e setenta e picos, por meu avô João Rodrigues de Oliveira Santos e de que era sócio seu irmão António. (A sociedade, diga-se de passagem, foi dissolvida em 31de Dezembro de 1876, e António regressou ao Brasil.)
O processo terminou por sentença arbitral proferida a 9 de Agosto de 1876 que condenou os réus a pagarem ao Almeida a quantia de 4$340 réis, que, aliás, eles réus confessaram dever “por carta de 19 de Julho de 1874”, e não a importância de 250$455 réis que o autor pedia.
O folheto é raríssimo, e talvez não exista outro exemplar, pois é provável que nem sequer tivesse entrado no mercado.
Casa da família Oliveira Santos, no Lugar da Torre,
S. Vicente Pereira, em frente da qual se situava
a Fábrica de Chapéus
Mas, afinal, que fábrica era esta?
Transcrevo o seguinte trecho da monografia sobre Souto, S. Vicente de Pereira e S. Martinho da Gândara, do saudoso Padre Oliveira Pinto:
Houve nesta freguesia uma outra empresa de grande vulto, que os azares do Comércio fizeram malograr a fábrica de chapéus da firma Santos & Irmão.
 Dela restam, no lugar da Torre, o edifício principal, bastante danificado, e a altíssima chaminé, que é uma espécie de ex-libris da freguesia.
João e António Rodrigues d`Oliveira Santos, que emigraram para Brasil muitos novos, angariaram ali boas fortunas.
A fábrica, principiada em Abril de 1872, começou a laborar em Agosto do ano seguinte. Era, no género, a mais importante do país e uma das melhores da Europa.
Uma máquina a vapor, da força de 30 cavalos, movia 36 maquinismos, em que se empregavam, de início, 90 operários, cujo número devia elevar-se a, pelo menos, 150. A capacidade produtiva era de 1200 chapéus por dia, todavia nunca ultrapassou, por falta de colocação no mercado, 3000 a 4000 por mês.
 A máquina era alimentada a lenha e carvão de pedra, que vinha de Inglaterra para Aveiro, donde era transportado em barcos para a Ribeira d`Ovar. A matéria-prima eram lãs nacionais e estrangeiras e pelos de coelho e lebre.
Cruzeiro de 1668, da antiga Igreja
de S. Vicente de Pereira
A excelência e rapidez do fabrico, mercê da perfeição da aparelhagem, permitiam à empresa vender seus artefactos por preços inferiores aos de qualquer outra, estabelecendo uma concorrência no mercado, que criou más vontades e uma guerra sem quartel.
Esta hostilidade e, diz-se, a traição dos operários técnicos, que se deixaram subornar, inutilizando propositalmente grandes quantidades de material, por um lado, e, por outro, as dificuldades de exportação e mesmo de colocação nos mercados nacionais, determinaram o encerramento da fabrica, em que perdeu toda a sua fortuna o sócio António. Morou este na casa, que depois vendeu a seu primo António Gomes d`Oliveira Santos.
As casitas de habitação, a poente da fábrica, foram mandadas construir pelos donos dela para moradia dos operários. Eram o início de um bairro operário, que se desenvolveria mais, e muito mais, se a exploração industrial se mantivesse e prosperasse.”
 Aos domingos havia no largo da Torre uma pequena praça de hortaliça, carnes salgadas, frutas, feijão e outros géneros, de que se forneciam os operários de fora da terra, com residência permanente. Trabalhavam na fábrica de S. João da Madeira, de Coimbra e doutras partes”.
Em nota, diz o autor que a fábrica de S. Vicente “foi a precursora das grandes fábricas congéneres de S. João da Madeira” e que “naquela vila e na de Cucujães já se fabricavam chapéus, mas de artefacto manual.
Acrescento, à guisa de remate.
Atualmente, já não existem vestígios da antiga construção.
Além dos motivos indicados pelo Padre Oliveira Pinto, a falta de infraestruturas suficientes foi uma das causas do insucesso.
Por outro lado, a dissolução da sociedade não terá sido feita para proteger António, assumindo o irmão toda a responsabilidade.

Texto publicado no n.º 30 da revista REIS/1996

Sem comentários:

Enviar um comentário