16.11.13

Alberto de Sousa Lamy – O homem, o advogado, o escritor

Revista REIS/1992
TEXTO: Maria Luísa Resende

Uma obra que faz história dentro da história desta terra

Dr. Alberto Sousa Lamy
A desfiar épocas, figuras e locais da pequena história vareira, é como se reunisse numa só trama os fios quase imperceptíveis dos tempos dispersos de Ovar a fazer-se: primeiro, menina da gelfa, depois, terra crescida de sabor salgado e de gente a crescer com ela nas lutas pela vida e pelos ideais que a norteiam ao longo dos séculos.
Como um pintor, usa as palavras para retratar a terra com os matizes das épocas e dos seus eventos. Em pormenores esmiuçados, com a obsessão do rigor, como convém a quem escreve coisas da história!
Novembro, 1991. Numa tarde pardacenta, encontrámo-nos com o dr. ALBERTO DE SOUSA LAMY no seu escritório, situado no largo da Família Soares Pinto.
Um advogado que se dedica à história! Eis um tema aliciante para a revista Reis deste ano.
Quisemos saber mais...
Melhor! Quisemos saber demais: quais as facetas menos conhecidas do homem e do escritor que Ovar tanto preza.
Abriu-nos a porta com a afabilidade habitual.
E entrámos pela sua vida, atentos aos traços das ideias e ao conteúdo das palavras que esboçam aquele que, sendo advogado, acabou por ser mais conhecido como historiador de Ovar.

Raízes de um nome... Traços da infância

Antiga casa - Chalet do Matos, no Furadouro, onde o
Dr. Alberto Lamy passou muitas das suas férias de estudante
Nasceu em Ovar, a 19 de Novembro de 1934, na Rua Coronel Galhardo.
Do pai (dr. José Eduardo de Sousa Lamy) e do avô paterno não herdou o gosto pela medicina. Nem tão pouco pelo ramo farmacêutico das gerações do bisavô e do trisavô, que perdura na família com a farmácia do mesmo apelido.
As raízes do nome de família são explicadas por um casamento, celebrado em 1813, e que uniu os Sousa de Ovar com a tetravó materna dos Lamy, do Porto.
História familiar, entrelaçada, entretanto com os Matos e os Fragateiros.
Crescido numa família burguesa e católica sem excessos, recorda as férias da infância passadas na quinta da avó paterna, em Guilhabreu (Vila do Conde) e no chalet Matos que o mar levaria da praia do Furadouro.
Lembra os antigos mestres: a dona Celeste Carvalho, mestra de meninos; o professor Baptista, da escola primária do Conde Ferreira e, no Colégio Júlio Dinis, os professores Ricardo Araújo, o padre Torres, a dona Clara Medeiros, o próprio Pai... Também alguns colegas foram lembrados... o Aníbal Freire, os irmãos Resende, o José Castro, o Mário Laranjeira, o Albino Nata, o Norberto Andrade, o Hugo Colares Pinto, o Luís Oliveira Dias, o Eugénio Vinagre, o Domingos Rocha, e outros.

O modelo dos tios na escolha da advocacia

Foi o declaro horror às disciplinas de Ciências, nomeadamente a Matemática, que o fez optar pelas Letras.
Viria, então, a decidir-se pela advocacia, por influência da mãe, ao citar-lhe os exemplos dos tios, os doutores Francisco Fragateiro e Albino Borges de Pinho. Na casa deste último, em Lisboa, cedo começou a conviver com gente de cultura e prestígio: "... Marcelo Caetano, a quem a minha tia cosia os botões dos fatos; jornalistas; advogados; bispos como o D. António de Vila Real, Monsenhor Miguel de Oliveira e muitos outros."
Fez o 6.º e o 7.º anos no Liceu de Aveiro, com colegas com quem manteve amizade perdurável: Carlos Candal, Sebastião Marques Dias, os Cristos, Horácio Marçal, o Sardo, e tantos mais. No curso de Direito (1953/58), na Universidade de Coimbra, teve mestres notáveis e foi condiscípulo de Carlos Mota Pinto.
Advoga em Ovar desde 1960, após o estágio com o dr. António Santiago, no tribunal local. Por circunstâncias inesperadas, cedo se tornou substituto do juiz, aparecendo na Ordem como o estagiário com maior número de julgamentos efectuados.
Manifesta preferência pelo Direito Civil e pelos Direitos Comercial e Criminal.
De trato afável, é um cultor das relações amistosas. "Julgo que, com os meus colegas mais velhos, os doutores Avelino Duarte, Eduardo e Augusto Chaves e Porfírio Brandão, conseguimos, nesta Comarca de Ovar, um grande espírito de convivência que a toma única entre as comarcas do país".
Em 1963, casou com Rosa Maria Lemos da Veiga Gil Carneiro, natural de Refojos, em Santo Tirso, e lá conserva o seu retiro para os fins de semana.

"Apesar dos convites, nem chegou a provar o vício da política"

– Como compatibiliza as duas ocupações conhecidas - a de causídico e a de escritor?
Escrever nunca me afectou a vida profissional, nem a vida familiar e social, nem os meus prazeres de viajar e ler. Isto porque me afastei e nem cheguei a provar o vício da política.
– O que o levou a essa rejeição?
Nunca me senti atraído pelo antigo regime. O meu Pai saiu da presidência da Câmara incompatibilizado com a política. O meu tio dr. Fragateiro, teve o escritório e a residência alvejados a tiro.
E, acrescentamos nós, seu primo, o saudoso dr. José Macedo Fragateiro, a quem o uniram "relações de amizade, o gosto pelos livros e a admiração pela sua luta pelos ideais da liberdade e da democracia", viu-se atribulado por causa desses mesmos.
O afastamento da cena política, porém, não o votou ao ostracismo dos conterrâneos nem de personalidades de vulto.
Assim, foi sucessivamente convidado para se candidatar à presidência da Câmara, para a direcção da A. D. O. e de diversos organismos sociais e culturais, antes e depois do 25 de Abril.
Se tivesse aceite qualquer delas, a uma seguir-se-iam outras, como aconteceu com o meu Pai, ao sr. Coentro de Pinho, ao dr. Raimundo Rodrigues e, agora, ao dr. Oliveira Dias... E lá se ia o tempo para escrever!
Continuou a resistir aos convites político-partidários para a fundação local do PS e do PSD. Em Novembro de 1974, quase quebrou esta sua regra com as conferências, realizadas no seu escritório, para a fundação do PPD concelhio, juntamente com o dr. Mário Cunha e o dr. Pereira. O projecto só não avançou por indisponibilidade do entrevistado e do dr. Mário.
Outros convites: em Janeiro de 1985, Mota Pinto convidou-o a ingressar no PSD, novamente com vista às eleições autárquicas; em Dezembro de 1985, solicitam-no para mandatário concelhio do dr. Mário Soares à Presidência da República e, em Dezembro de 1990, para mandatário concelhio do dr. Basílio Horta.
– O afastamento político leva, assim, a convites originais, caricatos e alguns sem qualquer sentido... Outras vezes, revelam grande amizade. Mas nunca fui nem poderia ser ferrenho na política, como no desporto. Quando visse que o partido agia mal, tinha de o afirmar.

Nas comemorações da elevação de Ovar a cidade (25/07/1984), o Dr. Alberto Lamy recebe
das mãos do Presidente da República, General Ramalho Eanes, a Medalha de Mérito Municipal

Hoje, com a visão global que tem e com a tolerância que lhe é característica, sente-se incapaz de qualquer filiação partidária... "PREZO MUITO A MINHA LIBERDADE... E TER TEMPO PARA FAZER O QUE MAIS GOSTO".
Todavia, não se trata de um misantropo que se aparta de responsabilidades que exijam peito, pois tem desempenhado altas funções na advocacia: concorreu às eleições para a Ordem dos Advogados e foi eleito vogal para o seu Conselho Geral (1980/83). É actualmente, vogal do Conselho Superior da Ordem (1990/92).

... "Contribuí mais para Ovar com os meus escritos"

O decurso da entrevista conduziu-nos, inevitavelmente, para a sua faceta de escritor. Não sendo diplomado em História é, como se sabe, um conceituado escritor e conferencista de temas desta área. Como aconteceu?
A influência do ambiente familiar é evidente no desabrochar desta apetência. Os episódios que a mãe lhe contava sobre a política vareira, o sofrimento de familiares e a experiência política do pai, tocaram-no profundamente.
Alicerça este trabalho no método, na perseverança na recolha de elementos em fontes idóneas de investigação: Nas bibliotecas do Porto, de Aveiro, de Lisboa e do próprio Tribunal; nos arquivos do Registo Civil e Predial e no da Câmara Municipal... E ler, ler muitos jornais e livros sobre Ovar... Anotar, interpretar e inferir para compreender os factos.
Confessa preferir o trabalho de pesquisa documental do que cingir-se a provas testemunhais falíveis. E que uma hora de trabalho diário é um método de disciplina intelectual sem a qual nenhuma obra escrita seria por si conseguida.
O período das lutas liberais, os últimos anos da Monarquia e a 1.ª República, a luta entre aralistas e progressistas, fascinam-no. Quanto aos protagonistas conterrâneos que mais admira, cita: o Visconde de Ovar, o Marechal Zagalo, o dr. Manuel Arala, o dr. Francisco Fragateiro e o dr. Pedro Chaves.
De tão vasta obra publicada, é-lhe mais gratificante a Monografia de Ovar, em especial até ao 28 de Maio.
Ficámos a saber que, começada em 1967, levou dez anos a ser compilada, escrita e, a seguir, actualizada e corrigida. E que, inicialmente, pensou chamar-lhe "História Política da Vila de Ovar".

Banda Desenhada
– A maior Biblioteca do País

Apesar de tão vasta actividade, os seus tempos de lazer têm outros atractivos: a natação, a filatelia (continuar a colecção de selos do pai); a leitura de biografias, memórias, ensaios, teatro, monografias, livros de viagens. E um surpreendente interesse pelo romance policial e por banda desenhada, de que possui a maior biblioteca do país, com as maiores obras da literatura mundial sobre grandes figuras das Artes e da História.
É também um apreciador de desportos de "vista" e, como tal, foi fã da antiga A. D. O. e um seguidor dedicado da Académica.
Perante uma personalidade tão abrangente, a que não falta um subtil espírito de humor, perguntámos quais os valores que mais preza em si próprio e nos outros.
– O que mais aprecio são a honestidade e a tolerância!
Gosta da vida de família, da advocacia, de ler e escrever, de viajar e conviver... E, deste modo, preenche de sentido – e a seu modo – o seu ciclo de tempo.
Que mais resta dizer?
Que é senhor de uma obra que faz história dentro da própria história desta terra!
Ovar (re)conhece-o.
Mas quase podemos afirmar que é o dr. ALBERTO DE SOUSA LAMY quem melhor
conhece Ovar.

É autor das seguintes obras:
Monografia de Ovar, 2 volumes, 1977; Centenário da Imprensa Ovarense, 1883-1983; A Ordem dos Advogados Portugueses, 1984; História da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, 1984; Advogados Elogio e Crítica, 1984: Monografia de Refojos, Freguesia do Concelho de Santo Tirso, 1987; O Visconde de Ovar (1782-1856), 1987; A primeira História da Academia de Coimbra (1537 a 1990).
Tem em publicação: Crónicas Vareiras, Datas da História de Ovar e Dicionário da História de Ovar.


Texto publicado no n.º 26 da revista REIS/1992
Edição da Trupe JOC/LOC 

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