29.3.14

Carlos Sousa Nunes da Silva – O Homem e o Presidente

Carlos Sousa Nunes da Silva
Revista REIS/1991
TEXTO: Maria Luísa Resende

Falar de um homem, raras vezes faz evocar tão vivamente uma terra, como é o caso presente.
Carlos Nunes da Silva, é o nome de prestígio de um grande presidente da Câmara de Ovar.
Temos, sem dúvida, de situá-lo num contexto social e político diverso o que, a nosso ver, não lhe retira qualquer mérito.
Equidistante das opções partidárias, a revista Reis escolheu-o para este número especial da sua publicação:
– como quem preza o desejo determinado de mudar;
– como homenagem à terra que ele e a revista se propuseram servir, de maneiras distintas.

Para um retrato breve

Nasceu em 10 de Outubro de 1921, na casa número 48 da rua Alexandre Sá Pinto, em Ovar.
Dos pais, Ester Augusta de Sousa Nunes da Silva, lembra especialmente o modelo da figura paterna, tão grata para os vareiros.
“... Dele ficou-me a imagem do homem sempre disponível, da campainha ou do telefone sempre a tocarem a qualquer hora do dia ou da noite. Da alegria em ser útil na certeza de que estava a cumprir o seu dever como médico e como homem. Foi um homem bom! O meu pai é um exemplo para mim: de virtudes, de dedicação, de solidariedade!”
Da memória da infância, o Natal e a sua festa da Família, são um marco indelével.
Da juventude, recorda com saudade a época balnear do Furadouro e as reuniões festivas na “Assembleia”.
Quanto às más recordações desse tempo, é sincero: “Não gostei nada de reprovar no 3.º ano do liceu. Foi mau, mesmo mau!”
Frequentou o 1.º ano da Faculdade de Ciências do Porto.
É casado com a senhora D. Cecília Cândida da Silva Pereira Maia Nunes.
Apreciador das obras de Júlio Dinis, de Eça de Queirós, de Agustina Bessa-Luís e também de alguma literatura policial “para ultrapassar o stress”. Aprecia a música clássica. No desporto bato-me pela Ovarense porque ser de Ovar é ser Ovarense. E, agora, com as nossas equipas de basquetebol e de futebol, somos falados…
Também “pago” quotas ao Benfica. No atletismo só posso ser pelo Maratona Clube de Portugal.
No período anterior aos cargos que assumiu, esteve ligado ao comércio de lanifícios num armazém de Ovar, apreciado pela alta qualidade e nouvel cri dos artigos. Lembra as suas primeiras encomendas na Covilhã “quando ainda não existia a IP-5”! E, de relance, retrata o País e o princípio da sua carreira combativa no sector profissional: “As dificuldades, nesse tempo, eram muitas. O País era, por excelência, um país rural a começar a industrializar-se. Faltava muita coisa. Havia muitas restrições… Mas sonhávamos com um futuro diferente!”
Geralmente, é nos períodos difíceis que alguns estruturam uma personalidade de vitoriosos porque os escolhos os incentivam a procurar alternativas mais consonantes com as capacidades.
Este tempo, por certo, não lhe foi alheio na formação da vontade, na visão global e concreta das circunstâncias no trato afável com todas as pessoas sem deixar a distuição sóbria peculiar.

Um executivo que mudou Ovar

A partir daí, percorreu um longo percurso de intervenção social e política.
Foi director dos Serviços Municipalizados da Eletricidade; presidente da Câmara Municipal de Ovar, de 7/10/1959 até 1967; vice-presidente da Junta Distrital de Aveiro; Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Ovar; Deputado à Assembleia da República e, finalmente vereador da CMO.
Mas é, sobretudo, como presidente da Câmara de Ovar que é recordado!
Pelas realizações fecundas. Pela tenacidade com que se impunha nos gabinetes do governo central. Pelo dinamismo arrojado. Pela maneira direta como se dirigia aos munícipes para reunir esforços e levar por diante tarefas necessárias ao concelho. Pela escolha inteligente de uma equipa de colaboradores competentes a quem exigia o melhor dos seus esforços.
Citemos a propósito, o seu depoimento:
“A esta distância do final do meu mandato – já lá vão 23 anos – é difícil mencionar as obras realizadas no concelho e dizer quais as que considero mais relevantes.
Indico algumas, tais como, águas e saneamentos que já estavam iniciadas no mandato do Dr. José Eduardo de Sousa Lamy; a criação da Escola Industrial; a abertura de novas avenidas no centro da cidade; a adaptação do edifício do Quartel a escola primária (oito salas de aula); o início da defesa da orla marítima; a construção da Ponte João de Pinho; as infraestruturas para águas pluviais;  o levantamento aerofotogramétrico da zona norte do concelho; a beneficiação das instalações da Câmara Municipal, por virtude da saída do Tribunal; a estação dos CTT junto ao parque; a renovação dos jardins e arborização; a reposição dos pavimentos das ruas e calcetamento dos passeios; a valorização do Areinho com o aumento da praia e construção da “ilha” onde, posteriormente, foi construído o restaurante; a electrificação de grande parte do concelho; iluminação pública em lâmpadas fluorescentes em Ovar, Areinho, estrada do Furadouro, Praia e estrada 109, em Esmoriz, Cortegaça e Maceda; a construção do Hospital e do Tribunal - obras que se devem ao interesse junto das instâncias superiores pelo então deputado Dr. Manuel Tarujo de Almeida, mais tarde Sub-Secretário do Orçamento; a urbanização da zona envolvente do Tribunal e Câmara Municipal; o arranjo urbanístico do adro da nossa Igreja Matriz; o prolongamento da avenida central do Furadouro com a criação da rotunda existente e abertura do acesso norte; em colaboração com a Junta de Freguesia, foi feita a esplanada, a avenida marginal e sua electrificação. Foram ainda iniciadas:  a estação de tratamento de esgotos e a construção do restaurante Vela-Areinho.
Menciona também o muito que não conseguiu fazer e que deixou em projectos (alguns comparticipados): água e saneamento no Furadouro, passagens superior e inferior no C. F., ligação da variante norte ao centro da Vila (actual Av. Sá Carneiro), urbanização norte do Furadouro (plano do Arq.º Gigante), prolongamento da avenida central do Furadouro até ao Alto Saboga, piscinas, redes de águas e esgotos para Esmoriz e Cortegaça, habitação social no concelho, posto da PSP.

«Assumo os erros, mas também assumo as obras!»

– Ao legislarem, recentemente, os despedimentos por falta de adequação às novas tarefas, o processo não parecerá, hoje, tão insólito. Mas, na altura, as substituições de pessoal pareceram a muitos decisões arbitrárias. Como avalia à distância essas atitudes?
– Primeiro que tudo, importa dizer que quando cheguei à Câmara me vi confrontado com a necessidade de concluir obras em concurso e iniciar as que já estavam adjudicadas e comparticipadas.
Depois, tive que reorganizar os serviços, criando novas secções para responderem às novas exigências de uma comunidade em transformação. Como sempre, a transformação provoca, por vezes, e até injustamente, incompreensões. Mas o tempo, aquele tempo, era tempo de organizar. E sem organização não havia planeamento e não se teriam realizado aquelas obras que mudaram, nesse tempo, Ovar e que indicavam a futura cidade. A história da nossa terra vai-me dando razão! A mim, à vereação da altura e aos serviços camarários. Formámos uma equipa que, digo-o com gosto, mudou Ovar!
Ao perguntarmos quais os erros que evitaria hoje, considera que os erros são consequências das realizações. Só os homens calados, como Pacheco, não erram!
"Assumo os erros, mas também tenho que assumir as obras.
E é do confronto, que se pesam os erros..."
Radicado, há anos, em Lisboa, por exigência profissional, defendeu os interesses do concelho como deputado na Assembleia da República.
Voltou a candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Ovar, em 1986, pelo CDS, sem obter vitória eleitoral.
Actualmente retirado da vida política, considerar-se-á um homem realizado ou desencantado? No seu percurso de maturidade, feito de experiências tão diversas e algumas tão notáveis, que balanço e que avaliação faz a si próprio?
A resposta veio do jeito conciso e denso com que a transcrevemos:
– "A vida é uma contínua realização. Assim a entendo e assim a assumo.
A análise própria é sempre desconcertante e parcial.

Texto publicado no n.º 25 da revista REIS/1991
Edição da Trupe JOC/LOC

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