4.4.14

Maceda – A nossa praia

Pormenor de um mapa de Portugal de 1870.
Em cima: Palheiros de Cortegaça e Maceda.
Revista REIS/2008
TEXTO: Álvaro Ribeiro

Um mapa de Portugal de 1870 mostra-nos a Nossa Costa desde, sensivelmente, as fraldas do Buçaco até à Granja. (Da massa de água antes existente, sobreviveram a Ria e a Barrinha). Essa nossa costa, maninha e deserta, começa a ser explorada nos primórdios do séc. XVII. Enxugados os pântanos, abertos o Regueirão e a Vala de Maceda, desviados os cursos do Lourido e da Ribeira de Cortegaça, encaminhados para a Barrinha de Esmoriz, tornaram-se os seus areais e dunas em baldios onde nidificavam aves, procriavam animais selvagens e cresciam colmos e camarinheiras, onde os Senhores da Feira praticavam a caça e as gentes de Maceda iam buscar colmos para cobrir casas e aidos e, mais tarde, as mulheres apanhavam camarinhas que vendiam em feiras e romarias.
Arroteadas novas terras, voltam-se os homens para o mar. Assim surgem os palheiros de Cortegaça e Maceda, aí bem perto da Barrinha. E com os palheiros, as Companhas: as da Vaca, de S. Pedro e de S. Geraldo. E os interesses manifestos: “Maceda nunca teve praia” (Cabido da Sé do Porto e Comenda de Malta); e Cortegaça ao lado do Cabido: “nós partimos com Ovar”… E questões judiciais…, e mais de um século de demandas (… ora ganhas tu, ora ganho eu…)! Um nunca acabar até ao século XX, em que as areias dão lugar à floresta.
Aberta a estrada desde a casa florestal de Maceda até ao Furadouro, abrem os macedenses a estrada dos Atoleiros até à via-férrea, e daí a citada casa florestal, e conseguem do Ministério da Agricultura autorização para a ligação à praia, com a ajuda do Povo, ao lado da sua Junta. Estrada aberta, ecoou por Maceda o grito da alegria: - “Já temos a nossa praia!”. Cortegaça, como sempre, a contestar.
Até que vem a NATO… A estrada recta é substituída por uma grande curva, e Cortegaça passa a chamar “seu” ao Aeroporto! E a praia? Um grupo bem intencionado, infelizmente liderado por pessoas de fora de Maceda mas aqui residentes, conseguiu a criação de uma praia muito a sul da nossa verdadeira praia, oferecendo, de mão beijada, uma outra praia à sua terra natal. (Ainda hoje estão por cumprir as condições impostas pelo Decreto de 1966 quanto às verdadeiras demarcações entre Maceda e Cortegaça, bem como entre Maceda e Arada…)

“Maceda nunca teve praia?”

Teve-a sempre ao primeiro quartel do séc. XX, como a teve Cortegaça, na Nossa Costa, onde tinham os seus palheiros (veja-se o mapa anexo) e onde os seus habitantes exerciam a faina marítima. A Costa era de todos, e todos nela exerciam a sua actividade. Maceda não o fazia na “Sua Costa”, porque esta era alta. Havia aí o Monte Negro (Monte da Solha), que abrigava uma alta riba, de difícil acesso ao mar, e onde era impossível deixar barcos e redes quando em terra, sujeitos às marés. (Daí a procura do espraiado da Barrinha, em que a segurança era total). Monte Negro! No ano 50 do séc. passado ainda lá estive com outros estudantes, entre eles o Dr. Malícia, nos restos da sua fralda nascente, com o mar aos nossos pés. (Foi a época do grito de “Pedra mais pedra!” para o Furadouro, anos depois, para Esmoriz e Cortegaça, e agora propagado como solução única, para justificar a cupidez e a imprudência que imperaram (e ainda imperam) a caminho de tragédias previsíveis e inevitáveis.
Em recente visita à Nossa Costa, o Ministro do Ambiente prometeu a defesa de terras consideradas de “Países Baixos”, e afirmou acerca de Maceda: – “Aqui o problema não é o de o mar subir; é, sim, o de os veraneantes descerem! Até que enfim! Tarde, embora, reconheceu-se o porquê de os habitantes de Maceda irem para a costa de Esmoriz.
Entretanto, o mar, lá vai continuando a ocupar o espaço que foi seu. Nunca posso esquecer o que diziam os nossos antepassados: “O mar ainda há-de chegar ao lugar donde recuou: o Alto dos Dezassete”.

Texto publicado no n.º 42 da revista REIS/2008
Edição da Trupe JOC/LOC
http://revistareisovar.blogspot.pt/2014/04/maceda-nossa-praia.html

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