3.7.14

Manuel Freire - Uma voz que soltou a liberdade...

Manuel Freire
Revista REIS/2005
TEXTO: Manuel Catalão

Uma vez mais, e no decurso desta interminável viagem do tempo que nos propicia também períodos de descoberta, de encontros e de reencontro, buscamos no horizonte restrito do nosso espaço geográfico uma figura referencial que seja parte integrante da história colectiva do concelho de Ovar.

De Vagos a Ovar

Algures, na pacata vila de Vagos, a 25 de Abril de 1942, muito longe da hecatombe que ocorria no centro de uma Europa fustigada por sangrenta guerra, nascia Manuel Augusto Coentro de Pinho Freire, a Figura Vareira que a Revista Reis se permite aditar ao notável espólio de personalidades que, nos mais diversos âmbitos, têm enaltecido o nome de Ovar.
Três anos depois, acompanha seus pais, os saudosos Professores Freire e D. Júlia Pinho Freire, na sua deslocação para a urbe vareira, onde medrou e deu asas a uma civilizada irreverência, quase no termo da Rua Alexandre Herculano, curiosamente na casa onde, anos mais tarde, se viria a materializar o infantário "Alvorada".
Um quintal cultivado de verde, com uma levada do ingénuo Cáster lambendo as suas margens, foi palco privilegiado das saudáveis brincadeiras de uma criança feliz. Do transparente Cáster de então recorda os mergulhos a nu, espiados pelas lavadeiras que faziam do rio a sua oficina.
Iniciou e concluiu o percurso primário de escolaridade na vetusta escola da Rua da Fonte, não deixando de estar sujeito à exigente batuta e ao conhecido rigor pedagógico de seu pai, a quem acompanhou na definitiva residência na mesma rua, iniciando uma adolescência que se moldaria também entre as paredes do credenciado Externato Júlio Dinis. Ali, durante cinco anos, foi bebendo conhecimentos, ensaiando o prazer da leitura e catrapiscando algumas colegiais do vizinho Externato N.ª Srª da Esperança.
Nos espaços de lazer no então aprazível Café Parque, tornou-se um exímio praticante do "bilhar russo", tipo de entretenimento que viria a encontrar, reconvertido em mesa de serviço, num sombrio bar na longínqua e amazónica Manaus.
Regista, com saudade, entre os seus mestres, eminentes figuras do ensino vareiro, destacando o Dr. Evangelista Loureiro, que viria, anos mais tarde, a ser uma autoridade no meio universitário nacional.
Das tertúlias criadas no meio estudantil e da activa e irreverente militância dos seus curtos dezasseis anos de vida, nasceria a participação na campanha do General Humberto Delgado à Presidência da República.
Concluído o curso liceal, enraíza-se na cidade de Aveiro, como outros camaradas de percurso estudantil  e cita, de forma carinhosa, Domingos Tavares e António Fidalgo , com o intuito primeiro de preparar o ingresso no ensino superior.

Um convívio em Ovar entre amigos da Vela:
Fernando Alçada, Augusto Chaves, Manuel Freire e José Silva

Ávido de emoções fortes, rapidamente se envolve no remo, fomenta novas amizades e corporiza núcleos de contestação estudantil.
Aos fins-de-semana volvia a Ovar, dando muito de si em favor do desenvolvimento cultural, social e desportivo desenvolvido no GAV, colectividade que na verdura consciente dos seus catorze anos ajudara a fundar e onde praticou andebol e ténis de mesa. 

Elenco que levou à cena, em 9 de Janeiro de 1960, no Cine-Teatro de Ovar,
a peça "O meu caso", de José Régio. Da esquerda para a direita, todos caracterizados:

Domingos Tavares, Estela Carvalho, Augusto Chaves, Estela Tavares, Celeste Silva,
 Isabel Tavares, José Adolfo Vidal, José "Brasileiro" e Manuel Freire

Refere que o extinto campo do GAV foi construído com o suor dos seus atletas e fundadores, e que a sede social do Grupo era uma autêntica escola de formação cultural e desportiva, aí se promovendo excelentes saraus de ginástica, sessões abertas de poesia e teatro, e ciclos de cinema com a participação do mais emblemático cineasta português, Manuel de Oliveira.

Os custos de cantar a Liberdade

Mitigadas as saudades de Aveiro, corria o ano de 1962, ingressou na Faculdade de Engenharia de Coimbra, propondo-se obter o grau de Engenheiro Atómico. Vivia-se uma época de forte contestação à orientação governamental para o ensino, para a cultura e para a sociedade civil. Com a vivacidade que o caracterizava, e enquanto caloiro sujeito às praxes, inseriu-se no Orfeão Universitário e nas Tunas Académicas, dedilhador que era da viola que seu pai lhe oferecera oito anos antes. Tal condição conferia-lhe o direito a circular nas agitadas noites coimbrãs, permitindo também, e em contacto com camaradas despertos para a luta contra o despotismo e contra a ditadura, reforçar a natureza das suas convicções políticas e sociais.
Os resultados escolares não deixaram de se ressentir, ingressando, um ano depois, no Porto, em Engenharia Química, por expressa determinação de seu pai, então ainda em pleno vigor. Radicado na Cidade Invicta, partilhando um pequeno quarto com o amigo e companheiro de sempre, Domingos Tavares, Manuel Freire não deixou de continuar a ser activo militante na defesa dos seus ideais de liberdade, vindo a ser alvo de investigações diversas por parte da PIDE/DGS. Nos períodos de lazer, e sempre que solicitado pelas múltiplas Associações de Estudantes, inquietava positivamente as mentes do meio estudantil, soltando, de viva voz e ao som de suaves acordes da sua inseparável viola, os temas com que esbarrava, algures, em momentos de reflectida e profunda leitura.
De forma compulsiva  desfilavam vinte e duas primaveras , foi convocado para se apresentar em Mafra, a fim de cumprir o serviço militar obrigatório, não abdicando, ainda assim, de efectuar esporádicas actuações para a rádio e para a plateia militar. Após oito meses de dura instrução, é transferido, por sorteio, para a Força Aérea, ocupando vinte e oito meses numa causa que não aplaudia de forma particular, nas bases da Ota e Monsanto. Era o tempo do "Praça da Canção", livro da autoria de Manuel Alegre, que viria a marcar grande parte da geração de jovens portugueses na década de sessenta, fosse na contestação estudantil, fosse na contestação à guerra que grassava nas ex-colónias africanas.
Foi neste tempo, ainda sob tutela militar, que Manuel Freire conheceu Vitorino, outra figura carismática de intervenção através do canto, vindo ambos a expressar a força da sua mensagem de liberdade num restaurante alfacinha, propriedade das actrizes Maria do Céu Guerra e Laura Soveral.

O mercado de trabalho e a "Pedra Filosofal"

A força do tempo, que não pára, acabaria por devorar a pessoa que lhe transmitiu a força e o vigor das suas crenças: seu pai, figura de proa do ensino primário vareiro.
Deste passamento  estava ainda Manuel Freire no cumprimento do dever "cívico"  decorreu a necessidade, por imperativos familiares e financeiros, de abandonar os estudos e recorrer ao mercado de trabalho, até porque viria a criar novos encargos com a contracção de matrimónio, do qual viriam a nascer três magníficos rebentos.
Ingressou na F. Ramada, na área da Informática, então em embrião, mais propriamente na mecanografia. Curioso e provido de inteligência emocional própria dos vencedores não acomodados, evoluiu na carreira até atingir o topo da mesma, numa fase mais avançada das Tecnologias de Informação. Passaria ainda pela Direcção dos Departamentos Comerciais e de Formação.
Em paralelo, jamais deixou de se pautar pelo estrito respeito às convicções que antes solidificara pela acção, vindo a ser elemento activo na organização dos Congressos de Oposição Democrática de Aveiro, que precederam as eleições para a Presidência da República de 1969 e 1973. Recorda, com alegria e saudade, as reuniões clandestinas de preparação realizadas no ateliê do conceituado artista vareiro Luís Ferreira de Matos.
Era um tempo diferente, um tempo de luta, de dedicação a uma causa que importava vencer, a um povo que precisava de se libertar. A sua arma era a voz e a viola, a sua presença era o tónico de viragem para uma juventude que, finalmente, tomava consciência da necessidade de ganhar um futuro semelhante ao que floria por essa Europa fora! Indiferente aos riscos, corria o País cantando Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, participava em inúmeras acções de índole sindical, cultural e estudantil, e editava o seu primeiro disco, com quatro temas, ressaltando o famoso "Livre" (Não há machado que corte a raiz ao pensamento, porque é livre como o vento...), corria o ano de 1968!
O fervor das suas intervenções e a classe da sua condição de cantador da liberdade conduziram-no à participação, no ano de 1969, com a celebrada "Pedra Filosofal", no saudoso programa de entretenimento televisivo "Zip Zip". Foi a rampa de lançamento nacional de Manuel Freire, que passou, a partir daí, a ter mais ampla intervenção no panorama artístico nacional, musicando poemas de conceituados poetas da resistência (António Gedeão, José Gomes Ferreira, Assis Pacheco, Sidónio Muralha e José Saramago...).
Tal facto permitiu-lhe actuar em núcleos de emigração dispersos pela França, Bélgica e Alemanha, aproximando-o de resistentes exilados que igualmente faziam da voz a arma de arremesso à ditadura reinante no seu país natal.

O que pensa de Ovar um sonhador de Abril

O seu trigésimo segundo aniversário trouxe-lhe de prenda a liberdade de um País até aí amordaçado, bem sublinhada pelo abraço de parabéns formulado por seu irmão mais velho, Aníbal Freire, precisamente um dos Generais de Abril.

Manuel Freire cantando Abril em Ovar

E o Manuel Freire sorridente e sério, bonacheirão e amante do bom que, à data, ascende à Câmara Municipal de Ovar na qualidade de vogal da Comissão Administrativa que tomou a gestão da mesma. Foram dezoito meses de dedicação nobre à sua terra. Recorda desse tempo a absoluta e inimaginável ausência de meios materiais para fazer algo pelas gentes mais desfavorecidas da nossa comunidade. Ainda assim, foi possível dotar o então marginal Poço de Baixo com saneamento básico e abastecimento de água, e erguer o bem conseguido projecto SAAL.
Circunstâncias de natureza pessoal transportaram Manuel Freire para outras paragens, mais exactamente a Marinha Grande, onde colaborou numa das grandes empresas industriais no desenvolvido distrito de Leiria.
Não sendo uma aposta feliz, continuou a actuar e a sobreviver, fazendo o que gosta, até que, em condições particularmente adversas, foi conduzido, por eleição, a Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, cargo que ainda exerce.
Um tanto afastado em termos geográficos, não se escusa a tecer alguns comentários à Ovar deste século, reiterando o seu mais profundo agrado e respeito pela tradição reiseira, invocando, mesmo, o facto de haver sido a Troupe de Reis do GAV a primeira de natureza mista, ainda que não tenha ido de dois escassos anos de actividade.

Apesar de residir longe, Manuel Freire não deixa de estar presente em momentos
significativos da sua Ovar. (Na foto, com o Pároco Manuel Pires Bastos)

Manifesta saudades do Carnaval dos anos de ouro, do corso não excessivamente materializado – foi mesmo um dos fundadores de um dos primeiros grupos carnavalescos, mais exactamente os “Hippies", corria o ano de 1968 , da alegria esfuziante dos Bailes Carnavalescos que ocorriam, sucessivamente, no Café Progresso, no Cine-Teatro e nos Irmãos Unidos! (A propósito de bailes, mas de outra natureza, já mais para o artístico, saiba-se que o Manuel Freire, sob aquele corpo ainda não tão rechonchudo, era um exímio dançarino, espraiando, em acérrima competição, a sua arte pelos salões do desaparecido Hotel Mar e Sol (no Furadouro) e da Assembleia da Torreira, assim enriquecendo, com algumas medalhas e taças, o seu espólio de desportista.)
Amante, desde tenra idade, da prática da vela, lamenta a crescente degradação da Ria, ainda que a continue a admirar pelas potencialidades que encerra.
Não resiste a comparar a degradação da Praia do Furadouro (agora pior do que aquela que ele conheceu e viveu) com a preservação do espaço nobre e intrínseco de S. Pedro de Muel (praia que frequenta de forma mais assídua).
Lamenta a inexistência de um espaço cultural propício a manifestações de maior vulto em Ovar, reforçando a extrema necessidade de que a cidade venha, a curto trecho, a dispor de tal espaço.
Não deixa de manifestar o seu profundo agrado  ele, acrescentamos nós, que é homem das artes e administrador da SPA  por, em muitos locais onde tem estado presente, ouvir referências elogiosas à actividade cultural e social da nossa Biblioteca.
Este é, de facto, um breve esboço sobre um homem que sabe que "o sonho comanda a vida" e que, porque sempre desperto para o sonho, contribuiu decididamente para o desenvolvimento do homem como cidadão, e da sua Ovar, terra que em menino o acolheu e lhe deu oportunidade de fazer grandes amigos.
Bonacheirão  já o referimos , sorridente e sério, sonhador de sempre e para sempre, mas também um homem a quem Ovar muito deve, ele fará, por direito próprio, parte da história rica da cidade que todos nós forjamos.

Manuel Freire  Uma contagiante boa disposição

Falar de Manel Freire é relembrar o GAV, as patuscadas, os bailes de Carnaval, o teatro, a Comissão Administrativa da Câmara, as lutas da oposição democrática, os serões a ouvir as baladas, e muito mais.
Para o público em geral ele é justamente conhecido como o trovador de Abril, o cantor das baladas da liberdade, que musicou os poemas de Manuel Alegre e que se notabilizou com a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão.
Ovar conhece-o também pela sua ligação ao associativismo do GAV, pelas baladas cantadas nos comícios de "Oposição Democrática" e pela sua contribuição como elemento da Comissão Administrativa que geriu a Câmara logo após o 25 de Abril.
Os amigos preferem recordar os bons momentos das patuscadas, onde o Manel quase sempre se notabiliza por uma contagiante e exuberante boa disposição, com gargalhadas de gosto e trocadilhos divertidos, mas onde, de longe em longe, também é capaz de pôr tudo do avesso, com um acesso de mau humor! Uma coisa é certa: com a sua fortíssima personalidade, nunca passa despercebido.
É muito justa esta homenagem que a Revista Reis lhe presta.
Augusto Arala Chaves
2004-12-16
               
Amigo Manel – “O sonho comanda a vida"

 Nasceste em Vagos, mas "sonhaste" viver em Ovar... e conseguiste.
 Cresceste na Rua Dr. José Falcão e "sonhaste" ser meu amigo... e isso resultou.
 Estudaste no Colégio Júlio Dinis e "sonhaste" catrapiscar as miúdas do Colégio Nossa Senhora da Esperança (D. Helena)... e elas que o digam.
 Mudaste-te para o Liceu de Aveiro, fizeste lá muitos amigos(as) e "sonhaste" actuar na récita dos finalistas…, e, mas que grande show rock (era o princípio).
 Foste para a Universidade de Coimbra onde "sonhaste" ser engenheiro... isso não passou de um pesadelo (a vida não são só sonhos).
 Passaste pela tropa e "sonhaste"... não importa, viva a "Praça da Canção" (conta-lhes).
 Continuaste a compor e "sonhaste" ir ao Zip Zip... e aí surgiu uma das mais belas canções de sempre - a "Pedra Filosofal" (parabéns também ao António Gedeão).
 Com muitos amigos, qual formiguinhas, "sonhámos" mudar o mundo e principalmente o País… e felizmente aconteceu o 25 de Abril.
 Com os teus heróis e super-heróis "sonhaste" fazer a 1.ª exposição de Banda Desenhada num museu em Portugal... e o sucesso realizou-se no Museu de Ovar em 1977 (diz-lhes que a BD também é cultura).
 Para a cultura e com outros cooperantes "sonhaste" com o jornal "Terras do Var" e Cooperativa Sem Margem... e durante 10 anos foi pedrada no charco.
 Depois a cantar avançaste "sonhando, sonhando"... e nós na plateia fomos acompanhando.
 Agora com outros amigos "sonhaste" endireitar a Sociedade Portuguesa de Autores, mas… que todos os deuses te ajudem.
 A pedido doutros amigos, eu também "sonhei" fazer uma ligeira autobiografia tua... mas "o mundo pula e avança"

Um abraço de "sonho"
António Fidalgo
Dezembro 2004

Texto publicado no n.º 39 da revista REIS/2005

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