15.10.14

Sanfins (Manuel Pinto dos Santos)

Sanfins
Um vareiro que deixou rasto
por onde passou!...

Revista REIS/1996
TEXTO: José Pinto

Enquanto jovem, Manuel Sanfins viveu experiências, sentiu paixões. Distribuiu simpatia, granjeou admiração e empolgou estádios em lances bem delineados, saídos de seus pés. Conheceu outros ares bem diferentes dos de Ovar, terra que foi seu berço e o embalou para o mundo do futebol, essa maravilhosa actividade desportiva que lhe proporcionou momentos fascinantes, nunca antes pensados!

Com o futebol a correr-lhe nas veias, era vê-lo, após o trabalho, a correr para o campo da Ovarense, para observar os treinos. A braços com o plantel de reservas, e sabedores do jeito que o rapaz tinha para o pontapé na bola, os responsáveis da A. D. O. hesitaram em convidá-lo para o jogo decisivo contra o Beira-Mar. Daí até chegar à equipa de honra não distou muito tempo.
Bendita a hora! No futebol viveu coisas maravilhosas e episódios fantásticos, diz-nos com alguma nostalgia. A situação estável e de desafogo em que se encontra, ao desporto-rei muito a deve.
Deixou sempre rasto por onde passou, e só quis lembrar as coisas boas que viveu. As outras, as menos boas, não têm lugar no seu álbum de recordações.

Da esquerda para a direita: Em cima - David Sanfins, Manuel Santos, Salvador,
Ratinho, Zé Manquinho, João Sanfins, Ramiro e António Pinho.
Em baixo - Jaime Tavares, Manuel Sanfins, Zeferino, Mendes e Chico Marques

Da Ovarense, recorda os companheiros desse tempo já longínquo e os dois Campeonatos da Beira Litoral que a A. D. O. conquistou.
No F. C. Porto nunca desanimou, apesar de no primeiro ano, não ter podido representar a equipa. Um desacordo de verbas com a Ovarense, impediu a Federação Portuguesa de Futebol de autorizar a transferência. Ainda assim, foi-lhe permitido realizar alguns jogos particulares pelo F. C. Porto, utilizando o nome de Freitas. Vêm-lhe então à memória os dois golos que marcou ao Real Madrid, no Estádio do Lima. De igual modo não esqueceu um golo de belo efeito ao Corunha, que daria azo a um cumprimento do guarda-redes adversário. Venceram os dois jogos, por 4-1.
Mantendo-se o impasse, a Ovarense interveio junto de seu pai, através de Francisco Marques da Silva e do Dr. Nunes da Silva, para regressar a Ovar. Tal pretensão foi concedida, com a condição de o atleta ficar totalmente livre no fim da época, para, depois, poder transitar livremente para o F. C. Porto.
A sua humildade e o seu carácter foram enaltecidos por aqueles que consigo privaram, servindo o grande clube nortenho com vontade férrea de vencer, nunca pondo obstáculos aos vários lugares em que atuou em campo por indicação técnica. É verdade que não teve o privilégio de conquistar qualquer título nacional, mas muitas foram as vitórias com a camisola azul-e-branca. O Celta de Vigo, Ferrol, Valência e Barcelona, de Espanha, o Arsenal de Londres, Old Boys e o San Lorenzo de Almagro, da Argentina, foram alguns dos adversários internacionais que conheceu em campo. Lembra ainda as digressões de carácter social que o F. C. Porto fez aos Açores e a África.
Durante a nossa conversa veio à baila a dupla que formou no F. C. do Porto com o seu conterrâneo Correia Dias – outro jogador formado na Ovarense – e os passes milimétricos saídos de seus pés, que ajudaram o “Neca” a marcar muitos golos.
Em 1951, antes de ir para África, Sanfins ainda fez meia dúzia de jogos pela Ovarense. Foi uma passagem fugaz, recendo 1000$00 por cada jogo ao serviço dos alvi-negros. O Sporting e o Belenenses, onde actuava o Capela (ex-guarda-redes da Ovarense), tentaram pôr-lhe um travão para não seguir viagem para Angola.

Da esquerda para a direita: Em cima - Virgílio, Alfredo, Pinto Vieira, Romão,
 Carvalho e Barrigana. 
Em baixo - Vital, Nelo Barros, jogador espanhol não identificado, Sanfins e Hernâni.

Contudo, e apesar das propostas tentadoras, a sua determinação não deu para arrepiar caminho. Caberia, em primeira mão, ao Lusitano de Lobito usufruir do seu concurso até ao final dessa época de 1951. Mas foi a camisola do F. C. de Luanda e a da selecção de Angola que Sanfins vestiria até ao final da sua carreira.
Um atleta tão cobiçado e de valor acima da média, era natural que fosse solicitado para dar os seus préstimos à Selecção Nacional. No entanto, os desafios internacionais a este nível não abundavam, dado que a guerra se implantou quase por toda a Europa. Sanfins recorda, porém, os treinos que fez em Lisboa para defrontar a França, jogo que, pelos motivos acima, não se realizou. A nível interno, fez parte da Selecção do Porto. Em África, representou e capitaneou a Selecção de Angola.
Jogava já a defesa central quando recebeu, por intermédio de Jorge Vieira, um convite para ingressar no Sporting C. P..
Perguntando-lhe se, terminada a carreira de futebolista, não pensou continuar ligado a este desporto, como treinador, por exemplo.
 O lugar de treinador assumi-o quando ainda jogava. Neste particular, tinha uma filosofia muito própria em termos de preparação psicológica da equipa em vésperas de grandes desafios. Em vez de a preparar no colectivo, chamava os atletas um a um, porque entendo que cada homem tem a sua maneira de agir. Evidentemente com a preparação colectiva não era descurada com uma palestra antes dos jogos, mas dava mais importância à primeira.
O futebol de hoje comparado com o do seu tempo, mereceu o seguinte comentário de Sanfins:
 Há, naturalmente, diferenças porque o futebol tem novos métodos. O tempo de preparação é mais alongado e a assistência é mais alongado e a assistência ao atleta é muito mais cuidada. São factores que pesam muito na sua evolução. Quando jogava na Ovarense treinávamos só às terças e quintas-feiras, e, quando contraíamos uma lesão durante um desafio, éramos injectados para alinhar até ao fim, pois não eram permitidas substituições. (Sanfins mostrou-nos as mazelas da sua perna esquerda, autênticos testemunhos das duras entradas dos seus adversários). No nosso tempo jogava-se com outro amor à camisola, ao contrário de hoje, em que salvo raras excepções, o aspecto financeiro é que prevalece.
 Como estamos quanto a saudades?
 Olhe, são tantas que tenho imensa pena de não ter agora vinte anos!...
 Para além do futebol, praticou mais alguma modalidade desportiva?
 O Basquetebol, na Ovarense. Mas de curta duração.
Ovar é, sem sombras de dúvidas, a sua terra mãe. A figura desportiva da “Revista Reis/1996” foi muito directa ao afirmar que “antigamente em Ovar vivia-se pior, mas muito mais alegremente”!
Sanfins é também da opinião que muita coisa mudou devido à impressionante velocidade em que o mundo marcha. Tudo entra pela nossa casa dentro sem nos apercebermos de tal.
E lá deixámos Manuel Sanfins, uma figura calma e de fino trato, que pertenceu a uma plêiade de jogadores que deixaram marcas.

FLASH
- Manuel Pinto dos Santos (Sanfins) nasceu em Ovar, a dois passos do Jardim dos Campos, na Rua Dr. Manuel Arala.
- Fez a instrução primária numa escola pertinho da casa de seus pais, na rua António Dias Simões.
- Começou a trabalhar na firma vareira F. Ramada.
- Em 1938, vestiu pela primeira vez a camisola da Ovarense, onde se manteve até 1940.
- Na época de 1941/42 regressou ao Clube, depois de um ano a treinar no F. C. Porto.
- Em 1951 regressou temporariamente à A. D. O., partindo, depois, para África.

Terminou o jogo no Campo Grande, em Lisboa. O Porto vencera o Benfica por 2-1.
Sanfins, assinalado com u x, foi um dos obreiros do resultado.

- De 1942/43 a 1950/51, representou o F. C. do Porto, depois de por lá ter passado em 41/42.
- Em Outubro de 1951 chegou a Angola, fixando-se por lá até 1975.
- Terminado o futebol em 15/07/1958, com uma festa de despedida apadrinhada pelo F. C. do Porto, dedicou-se ao ramo automóvel, actividade que já vinha exercendo.
- Regressou definitivamente a Ovar, onde fundou a Confeitaria Muxima.
- Voltou ao ramo automóvel em 1983, desta feita no Porto.
- Encontra-se presentemente na situação de aposentado e em companhia de sua esposa D. Belandina da Conceição Santos. Vive na Rua Alexandre Sá Pinto (às Ribas).


Texto publicado no n.º 30 da revista REIS/1996

ADENDA -----------------------------------------------------
Faleceu [dia 11/10/2014], aos 92 anos, Sanfins, antigo jogador do FC Porto que pertenceu à equipa vencedora da “Taça Arsenal”. (...) O antigo avançado Sanfins, de seu nome Manuel Pinto dos Santos, envergou a camisola azul e branca de 1946 a 1951. LEIA mais AQUI.

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